Crise do leite ampliou supersafra do milho

Queda nos preços acelerou migração para produção de grão e ampliou pressão sobre estrutura de secagem e armazenamento do milho

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Produção de silagem caiu na região, enquanto a área plantada de milho para venda em grão foi ampliada / Crédito: Thiago Maurique

A queda no preço do leite e os efeitos da supersafra de grãos evidenciaram os desafios estruturais enfrentados pela produção rural no Vale do Taquari. O tema foi debatido no programa Comunidade Alerta da Rádio Popular no sábado (31/1), que reuniu líderes do cooperativismo regional para analisar impactos diretos na renda do produtor e na sustentabilidade das cadeias produtivas.

Presidente da Cooperativa Languiru, Paulo Roberto Birck destacou que a cadeia leiteira passa por uma transformação acelerada no Rio Grande do Sul. Segundo ele, em apenas uma década, cerca de 65% dos produtores deixaram a atividade. “Aproximadamente 54 mil produtores pararam. Hoje, o estado tem em torno de 28 mil produtores de leite”, afirmou ele.

Mesmo com a redução expressiva no número de propriedades, a produção estadual cresceu 6% em 2025. Para Birck, esse movimento evidencia um processo de concentração em propriedades maiores. “O pequeno produtor está parando. Entre os motivos está a desorganização da cadeia e a ausência de controle de oferta”, alegou.

O dirigente relacionou diretamente a crise do leite à dinâmica do mercado de grãos. Segundo ele, parte dos produtores migrou para o milho diante da queda na rentabilidade do leite. Esse movimento, no entanto, gerou um novo gargalo. “Estamos discutindo agora a falta de capacidade de secagem de grãos. Se nada mudar, no ano que vem teremos o mesmo problema”, alertou Birck.

O gerente da Cooperagri, Lício Sulzbach, reforçou que o cenário exige adaptação dos produtores. Enfatiza que os preços altos do passado não voltarão e o mercado de grãos também enfrenta limites. “O milho hoje está abaixo do custo devido aos estoques elevados no mercado mundial”, alegou.

Sulzbach apontou que a crise do leite tem reflexos diretos nas cooperativas. “O produtor reduz a ração e isso afeta nosso faturamento”, explicou. De acordo com ele, cerca de 85% da ração comercializada pela Cooperagri é destinada ao gado leiteiro, o que amplia o impacto da retração na atividade.

O superintendente da Languiru, Gustavo Marques, destacou a importância de uma análise de longo prazo por parte do produtor. Ele citou medidas adotadas pela cooperativa para amenizar perdas, como a redução no preço da ração. “Estendemos a redução por 3 meses para ajudar o associado. O produtor precisa olhar o ano inteiro, não apenas os meses ruins”, afirmou ele.

Emater confirma cenário

Cristiano Laste, gerente regional da Emater-RS/Ascar, aponta que a cadeia do leite atravessou um dos períodos mais longos de retração de preços já registrados no estado. Cerca de 10 meses consecutivos de queda comprometeram a capacidade financeira de muitos produtores. “Utilizaram todas as reservas para manter a atividade, e alguns não conseguiram atravessar esse período”, afirma.

Segundo Laste, além do fator econômico, eventos climáticos extremos aceleraram mudanças no perfil da produção rural. As enchentes registradas em 2023 e 2024 atingiram diretamente propriedades localizadas em áreas que tiveram correnteza forte e zonas de arrasto, especialmente em municípios como Estrela, Roca Sales e Arroio do Meio.

Sem possibilidade de expansão territorial e diante do alto volume de investimentos necessários para manter a atividade leiteira, parte dessas famílias optou por migrar para a lavoura. “A produção de grãos oferece menor exposição ao risco climático, além de contar com mecanismos de proteção, como o Proagro, que permite ao produtor recolher o maquinário e minimizar perdas em caso de catástrofe”, alega Cristiano.

O resultado desse processo é a redução expressiva no número de produtores de leite, sem queda proporcional na produção. No Rio Grande do Sul, o total de produtores passou de cerca de 85 mil em 2015 para algo entre 25 mil e 26 mil uma década depois.

Na região atendida pela Emater, até novembro do ano passado, houve diminuição no número de propriedades, mas a produção e o número de animais se mantiveram, impulsionados pela concentração dos rebanhos em unidades maiores.

NÚMEROS DA CADEIA PRODUTIVA NO ESTADO

• Milho (saco ao produtor): cerca de R$ 60

• Custo de produção do leite: entre R$ 1,88 e R$ 2,20 por litro

• Valor médio pago ao produtor em 2025: R$ 2,64 por litro

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