
Na Avenida Jorge Fett, o coração de Bom Retiro do Sul não apenas pulsa, mas desfila, samba e celebra. No dia 21 de março de 2026, a cidade se transformará na Sapucaí do Vale, reafirmando uma tradição que se confunde com a própria história cultural.
À frente da festa, como há mais de quatro décadas, está a Escola de Samba Inhandava, que chega aos 43 anos em 2026 com a missão de contar, com o batuque do samba e o brilho das alegorias, uma história de resistência, união e pertencimento.
O enredo escolhido para este carnaval homenageia a Sociedade União Bom Retirense, lança luz sobre o centenário (a ser completado em 2032) e, através dela, revive as raízes e a renovação da comunidade.
A Inhandava não é apenas uma escola de samba. Trata-se de uma instituição da cultura carnavalesca local. Surgida em 1983, deu forma e ritmo a uma manifestação popular que já fervilhava nas ruas. Tornou-se a referência do samba na cidade, um projeto coletivo que atravessa gerações e mantém uma conexão visceral com o povo.
O coordenador de Cultura do município, Denilson Joisson de Oliveira, exemplifica como o carnaval e a Inhandava são histórias de família, afeto e continuidade. “É uma tradição cultural que passa de geração para geração. Eu mesmo fui criado na cultura do carnaval. No berço da Escola de Samba Inhandava, meu falecido pai, saudoso ‘Tio Nézio” da cuíca, foi um dos fundadores e deixou seu legado. Minha família sempre contribuiu e fez parte da nossa amada escola”, conta.

Denilson Joisson de Oliveira (e) e o pai, “Tio Nézio” / Crédito: Ascom Bom Retiro do Sul
Sob a presidência de Rafael Schuh, a escola se prepara para apresentar um enredo que vai além da simples comemoração. É um resgate da memória coletiva. A Sociedade União Bom Retirense, espaço histórico de convívio, bailes, encontros e decisões comunitárias, servirá como fio condutor para narrar a trajetória da cidade.
O enredo promete falar da fundação, das lutas, das conquistas e, sobretudo, da capacidade de renovação desta instituição secular e, por extensão, da própria comunidade. É um olhar para o passado para projetar o futuro, tema que encontra no carnaval sua metáfora perfeita. A cada ano, a tradição se renova em cores, músicas e coreografias inéditas.
Poder público como aliado
A organização do carnaval de rua em Bom Retiro do Sul é um caso exemplar de parceria entre a sociedade civil organizada (a escola de samba) e o poder público. Segundo Denilson, a festa é tratada como “ação cultural permanente” no calendário oficial, e não como um evento pontual.
A organização fica a cargo da Secretaria de Turismo, Esporte, Lazer e Cultura (STELC), por meio do Departamento Municipal de Cultura. “O poder público é fundamental, apoia, acredita na força dessa cultura popular, de forma a incentivar e proporcionar um lindo carnaval”, afirma ele.
O investimento é múltiplo. Há o repasse de verba para a Inhandava preparar seu desfile, mas a estrutura do evento como um todo é responsabilidade da Prefeitura.
A lista de providências é extensa e reflete a seriedade com que a festa é tratada: contratação de som, luz, segurança privada, bombeiros civis, parceria com a Brigada Militar e o Departamento Municipal de Trânsito para a logística, elaboração de plano de prevenção (PPCI), montagem de praça de alimentação e, após a festa, a limpeza realizada por empresa terceirizada e servidores públicos.
“Nossa preocupação é fazer uma festa popular com boa infraestrutura, segurança e bem-estar para todos”, resume o coordenador. Essa estrutura é o que garante que o carnaval continue sendo “popular, aberto e democrático”, acessível a toda a população e aos milhares de visitantes que chegam de todo o Vale do Taquari.
O evento consolidou-se como um atrativo regional, movimentando significativamente a economia local. “Desde a preparação para o dia do desfile até o dia da festa, se movimenta o comércio local, os serviços e pessoas que trabalham em virtude do carnaval de rua”, destaca Denilson.

No dia 21, a cidade se transformará na Sapucaí do Vale, reafirmando uma tradição que se confunde com a própria história cultural / Crédito: Ascom Bom Retiro do Sul
Desfile da continuidade
A programação do dia 21 de março começa com a alegria contagiante do carnaval infantil, garantindo que a transmissão geracional siga seu curso. Após as crianças, é a vez das atrações principais tomarem a Avenida Jorge Fett.
Além da anfitriã Inhandava, estarão presentes o tradicional Bloco dos Palhaços, de Lajeado; a Escola Renascer do Samba, de Estrela; e o grupo Muleke Atrevido, de Encantado. É um encontro de forças carnavalescas da região, que fortalece a rede cultural do Vale.
Em um contexto onde muitas cidades viram seus desfiles de rua minguarem ou desaparecerem, a manutenção do carnaval em Bom Retiro do Sul é vista como uma vitória cultural. “Embora sempre se encontre dificuldade financeira, entendemos que essa cultura popular faz parte de Bom Retiro do Sul”, reflete Denilson.
A decisão de mantê-lo como política cultural é, portanto, um ato de resistência e valorização identitária. “Esta é a grande conquista do município. Não só para a cultura, mas, principalmente, para a Escola de Samba Inhandava, para os munícipes, para todos que prestigiam e são amantes da maior manifestação da cultura popular do Brasil”, conclui o coordenador.
Em 2026, portanto, o carnaval de Bom Retiro do Sul será mais do que folia. Será uma aula de história ao som do samba. Será o reencontro da comunidade com suas origens, narrado pela agremiação que, por 43 anos, tem sido a voz rítmica e o coração alegre.
Na avenida, a Inhandava não desfilará sozinha. Levará consigo o espírito de gerações de bom-retirenses, a memória da Sociedade União Bom Retirense e a promessa de que, enquanto houver samba no pé e paixão no coração, a tradição seguirá viva.


