Em meio às estradas, histórias de coragem e luta por espaço

Mesmo com décadas de diferença, Nelsi Marli Prade (75) e Jovana Vargas de Azevedo (22) mostram como é possível se destacar em um ramo predominantemente masculino

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Por Ariana de Oliveira e Letícia Echer

Quem passa pela RSC-453 (Rota do Sol) nas primeiras horas da manhã, em Teutônia, costuma ver um casal caminhando lado a lado. São entre 3 e 5 quilômetros por dia, em um hábito mantido há cerca de uma década. Ela tem 75 anos. Ele, 84. A rotina ativa é apenas uma das marcas da trajetória de Nelsi Marli Prade, moradora do interior, que construiu uma história incomum para mulheres da sua geração: aposentou-se como motorista autônoma de caminhão.

Forjada no trabalho do campo desde pequena, a filha de agricultores dividia a escola com a lida de casa e da propriedade de seus pais. Nelsi desde cedo aprendeu as tarefas da roça e da produção de leite. “Ia para a aula e já tinha ajudado em casa. Chegava, almoçava e voltava para a roça”, recorda.

O cenário mais esperado para ela seria a aposentadoria como agricultora, repetindo o percurso de tantas mulheres do campo. Mas o incentivo do marido, Milton Prade, mudou esse rumo.

Associados da Cooperativa Languiru por 34 anos, após o casamento, em meados da década de 1970, o casal assumiu a linha de leite da família. Com a compra de um segundo caminhão, surgiu a necessidade de mais um motorista. “Eu não queria, mas ele disse: ‘Tu vai fazer a carteira e vai dirigir’”, lembra ela.

Em 1980, Nelsi tirou a habilitação e passou a conduzir caminhão de leite em uma época em que praticamente não havia mulheres na função. Além do transporte de leite até a cooperativa, ela também fazia fretes de ração, grãos e outros produtos agrícolas. Trabalhava nas tarefas domésticas pela manhã e, depois, seguia para as coletas e entregas.

Anos mais tarde, formalizou-se como motorista autônoma e se aposentou nessa condição, algo ainda pouco comum entre mulheres oriundas do meio rural. “Sou aposentada como motorista”, destaca.

Nelsi sorri ao olhar paraa versão mais jovem de si mesma, lembrar do passado e tudo o que já enfrentou / Crédito: Gabriely Hartmann Mallmann

Da dor ao hábito

A vida da família, no entanto, foi marcada por lutos profundos. Nelsi e Milton tiveram dois filhos. A filha, Raquel, morreu aos 19 anos, no dia do seu aniversário. Anos depois, o filho de 35 anos também faleceu, deixando dois filhos. Sobre o luto, reconhece a dor permanente. “Muita gente diz: ‘Tu é forte demais’. Mas, de noite, quando eu deito, vêm aqueles pensamentos. Não é fácil”, aponta. Mesmo assim, ela afirma que é preciso seguir: “Tem que dormir para acordar no outro dia.”

Em 2016, Nelsi enfrentou outro desafio: o diagnóstico de câncer de mama. Percebeu um nódulo ao se tocar e procurou atendimento. Passou por cirurgia, quimioterapia e 33 sessões de radioterapia. “A radioterapia queimava muito. Aquilo me incomodou mais do que a cirurgia”, relata. Após anos de acompanhamento, recebeu alta médica e segue realizando exames periódicos.

A recomendação para manter atividade física durante e após o tratamento levou o casal a adotar as caminhadas diárias. O hábito permanece até hoje. “Se dá para caminhar, nós vamos”, afirma ela. A prática se tornou parte essencial da rotina, é acordar e ir.

Além das caminhadas, Nelsi participa de grupos de carteado há cerca de 15 anos. Os encontros acontecem em sistema de rodízio nas casas dos participantes. “Ontem, jogamos carta. Hoje à noite, vou de novo”, conta. “É bom demais. A gente se reúne, conversa”, diz ela. Milton também integra as atividades.

Aos 75 anos, ela afirma que seu principal desejo é manter a saúde: “Com saúde, a gente vai.” Entre o pioneirismo no volante, as perdas familiares e a superação do câncer, Nelsi construiu uma trajetória de trabalho, resiliência e participação ativa na comunidade – uma história que segue em movimento, todos os dias, na estrada e na vida.

Determinação que fala mais alto

Na cidade vizinha, Jovana Vargas de Azevedo (22) encontrou na direção de um caminhão caçamba a sua profissão. Há cerca de 1 ano e meio na atividade, ela não se enxerga fazendo outra coisa.

A paveramense conta que o desejo de seguir essa profissão surgiu cedo. “Tinha muita vontade, mas medo na mesma proporção. Sempre acreditei que, por mais difícil que fosse, me dedicaria até dar certo”, disse.

O interesse pela profissão também teve origem dentro de casa. Hoje, Jovana trabalha ao lado do pai, Paulo Sérgio de Azevedo. No início, porém, ele demonstrou preocupação com a decisão da filha. “Ele sempre disse que não queria isso para mim, não por me achar incapaz, mas por saber das dificuldades”, conta ela.

Mesmo assim, Jovana não desistiu do objetivo. “Ou ele me dava a oportunidade ou eu iria trabalhar para outra empresa”, decidiu.
Desde que começou a atuar como motorista, nunca teve outra mulher como colega. “No início foi mais difícil, mas me adaptei”, afirma. De acordo com ela, o apoio da família também é essencial nesse quesito.

Com seu caminhão caçamba cor-de-rosa, ela mostra que determinação e persistência falam mais alto do que qualquer barreira. Aliado a isso, tem o respeito de seus colegas de profissão.


Desejo de Jovana em assumir o volante de um caminhão surgiu cedo / Crédito: Arquivo Pessoal

Rotina intensa

A rotina de trabalho exige disciplina e força de vontade. Jovana costuma sair de casa na madrugada de segunda-feira e retorna só no sábado à tarde. Durante a semana, permanece nas cidades onde as obras são realizadas.

Os dias começam cedo e podem chegar a 12 horas de trabalho. “A menos que chova. Se chove durante a semana, não conseguimos trabalhar e voltamos para casa mais cedo”, explica.

No momento, ela atua em uma obra no município de Progresso, ao lado de outros cinco colegas. “Geralmente, ficamos em uma casa alugada à noite. Depende de onde é a obra”, relata a jovem, que tem quarto separado garantido nestes casos.

Apesar da rotina intensa, Jovana não pensa em mudar de profissão. Ao mesmo tempo, reconhece que o futuro pode trazer novos desafios. “Não sei como será a longo prazo, porque fico fora durante a semana e pretendo construir uma família daqui a alguns anos”, planeja.


O caminhão caçamba conduzido pela paveramense chama atenção pela cor rosa / Crédito: Arquivo Pessoal
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