Há 10 anos, Jorge Lauri Mörschbächer (62) acreditava estar com a saúde em dia até descobrir que tinha o ventrículo esquerdo do coração dilatado em estado grave. “Não quis acreditar”, relembra, especialmente ao recordar que o pai e o avô paterno haviam morrido pelo mesmo motivo. A partir dali, começou uma jornada marcada por cirurgias, limitações e, principalmente, pela fé.
Na época, ele foi submetido à troca da válvula aórtica e de parte da aorta. Mas, mesmo após o procedimento, passou a conviver com falta de ar constante, que não se corrigiu nem mesmo com fisioterapia cardíaca.
Em janeiro de 2022, precisou se afastar da profissão de professor, pois já não conseguia subir escadas ou enfrentar pequenos aclives sem extrema dificuldade para respirar. Em fevereiro de 2024 veio a notícia mais difícil: a necessidade de um transplante de coração. Ele descreve o momento como um pouco desesperador, mas que também o levou a se apegar ainda mais à fé.
Jorge conta que acredita em um Deus Pai amoroso e nas promessas de Jesus Cristo, e que essa confiança lhe dá forças para enfrentar o que precisa passar. Assim, assume um compromisso de estar preparado para qualquer situação que surgir.
Desde março de 2024, Jorge é atendido pela equipe de Cardiologia do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre, realizando exames e consultas semana sim, semana não. No meio desse processo, ainda enfrentou a preocupação trazida pela enchente de maio de 2024, que dificultou o acesso ao hospital.
Em julho daquele ano, os médicos optaram pelo uso de um cardio desfibrilador implantado (CDI), que inicialmente ajudou a melhorar sua respiração. No entanto, com o passar do tempo, as condições cardíacas voltaram a piorar. Em janeiro de 2025, ele foi incluído no cadastro nacional para transplante cardíaco, seguindo com diversos ajustes de medicação até que, em janeiro de 2026, o quadro se agravou a ponto de a equipe decidir pela internação efetiva.
Transplante e doação de órgãos
Jorge está internado desde o dia 19 de janeiro de 2026 e aguarda um coração compatível, uma espera que pode durar dias, semanas ou meses, enquanto a rotina se divide entre expectativa, reflexões e saudade do “convívio maravilhoso” com a família, do qual está privado momentaneamente.
Ele fala também do apoio constante de parentes e amigos que torcem por sua recuperação e da escolha de transformar o próprio momento em acolhimento a outros pacientes. “Busco ainda conhecer outros pacientes e familiares, animando-os, consolando-os em suas jornadas de busca pela cura”, relata. Durante essa espera, ele reflete profundamente sobre a importância da doação de órgãos, tema que trata a partir de suas crenças e valores.
Conforme Jorge, quando há morte cerebral e o corpo já não responde aos comandos do cérebro, os órgãos acabam se deteriorando. Por isso, questiona se não seria mais nobre possibilitar a reabilitação da vida a alguém que sofre com dores intensas, hemodiálises ou a constante sensação de sufocamento. “Com uma doação de órgãos, caso de morte cerebral, você pode salvar de 7 a 8 vidas”, destaca.
Jorge cita ainda dados de notícias de 2025, que apontam que a fila de espera por transplantes no Brasil ultrapassa de 50 mil a 80 mil pessoas, e que 57% das famílias ainda rejeitam a doação de órgãos de seus entes queridos, mesmo quando há manifestação de desejo em ser doador. Essa situação resultaria em cerca de 3 mil mortes anuais na fila.
Para ele, há falta de conhecimento e preconceitos baseados em crenças antigas, além de desinformação, o que torna ainda mais necessária a promoção de campanhas e orientações por parte da sociedade e dos governos.
A quem sente receio de autorizar a doação, Jorge deixa uma mensagem que resume sua visão de mundo: “Desenvolva em si o sentimento de amor, amor incondicional, pelo progresso da humanidade, da ciência, do conhecimento”.
Enquanto aguarda por um novo coração, ele escolhe permanecer em fé e gratidão. “Gratidão, de coração, a todos amigos e conhecidos que torcem pela minha vida e na possibilidade de receber um coração compatível para estarmos juntos nesta jornada maravilhosa que é a vida”, escreve. Assim, deixa votos de paz, luz, alegria e bem, e transforma a própria espera em um convite à reflexão sobre o poder de salvar vidas.
Saiba mais sobre a doação de órgãos
Hoje, o Brasil é referência mundial em doação pública de órgãos (SUS), segundo o Ministério da Saúde. No entanto, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), de cada oito potenciais doadores (públicos ou privados), apenas um é notificado.
Em caso de morte encefálica (interrupção irreversível das funções cerebrais), é possível salvar mais de 20 pessoas através da doação de córneas, coração, fígado, pulmão, rim, pâncreas, ossos, vasos sanguíneos, pele, tendões e cartilagem.
Conforme o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, um dos motivos mais comuns que impedem a doação de órgãos é o fato de a família desconhecer a vontade do falecido sobre o tema.
“A legislação brasileira determina que, em caso de morte encefálica, somente a família pode autorizar a doação. Por isso, dizer SIM é importante. Mas fazer sua família saber disso é essencial”, diz o Ministério da Saúde.


Ficou ótima a reportagem, vai meu agradecimento ao Grupo Popular, e fico na torcida que esta sensibilize as pessoas pars um .eljor querer aos próximos.
Paz, luz, alegria e bem