A bravura de quem não só pratica, mas ajuda a mudar as regras do jogo

Nos mais diferentes cenários do esporte, mulheres mostram todos os dias podem competir, liderar e vencer, mesmo com tantas adversidades, perseguições e preconceitos.

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Simone, Tais, Paloma e Caren são exemplos de mulheres que vencem preconceitos e adversidades para fazer o que amam Crédito: Arquivo Pessoal

Qualquer que seja a modalidade, o esporte sempre foi sinônimo do mais puro sentimento de paixão. Apresentado na infância, ele nasce nas primeiras bolas chutadas no pátio da escola, nos treinos ou brincadeiras depois da aula e nas arquibancadas ao lado da família.

Durante muito tempo, porém, esse universo foi tratado como um território predominantemente masculino. Mesmo com avanços importantes nas décadas recentes, muitas mulheres ainda precisam provar, todos os dias, que pertencem e podem fazer parte desse espaço.

Ainda assim, elas seguem com avanços e em busca de melhores condições de vida, prática, trabalho e cidadania.

Nas quadras, nos campos, nos tatames e até mesmo em casamatas, mulheres ocupam cada vez mais ambientes no esporte. Com dedicação, estudo e persistência, enfrentam preconceitos, quebram paradigmas e ajudam a transformar um movimento que foi dominado por homens durante anos.

No Vale do Taquari e região, histórias como as de Simone Reolon, Tais Ruver, Caren Castilho e Paloma Schilling mostram que o esporte também é feito de resistência, determinação e muita, mas muita coragem.

Cada uma em sua modalidade, realidade e trajetória, mas todas com algo em comum: a certeza de que o esporte também é e precisa ser, cada vez mais, um lugar para as mulheres.

Apito firme para um território hostil

A relação de Simone com o esporte começou muito antes de vestir o uniforme da arbitragem. Crescida em uma família na qual a prática esportiva fazia parte da rotina, acompanhava de perto a movimentação dos irmãos mais velhos e de outros parentes envolvidos com atividades.

“Sempre gostei de praticar. Desde o colégio e, depois, em campeonatos de cidade. Jogava, participava de times e sempre estive muito envolvida”, lembra.

O contato com o futsal veio naturalmente. Mas foi apenas em 2016 que Simone decidiu dar um passo diferente dentro do esporte: ingressar no curso de arbitragem da Federação Gaúcha de Futsal.

A partir disso, começou a construir uma trajetória que rapidamente ganharia espaço nas competições estaduais. As primeiras oportunidades vieram em jogos menores, enquanto ela buscava experiência e consolidar seu trabalho.

Com o passar do tempo, as escalas começaram a aumentar. Em 2017, passou a atuar com mais frequência e, pouco depois, estreou em competições importantes.

No ano seguinte, apitou pela primeira vez na Série A do futsal gaúcho, marco considerado especial em sua carreira. “Recebi muitas oportunidades em um curto período de tempo, o que foi fundamental para evoluir e crescer”, destaca.

Nos anos seguintes, Simone passou a integrar o quadro da Liga Gaúcha e ampliou sua atuação na arbitragem. Em 2022 veio um novo reconhecimento: o convite para integrar o quadro da Liga Nacional como anotadora e cronometrista.

Mas o caminho também exigiu firmeza. Como mulher em um ambiente historicamente masculino, Simone enfrentou situações de implicância e desrespeito.

“Muitas vezes, o preconceito vem daquela ideia de que mulher não entende de esporte e da falta de respeito. Falam em tom alto com você e acham normal. Quando você responde, dizem que foi grosseira. Sempre pende para um lado”, comenta ela.

Para enfrentar esse cenário, a árbitra encontrou uma estratégia que indica para todas as mulheres: o conhecimento. “Estudei muito para saber as regras ao pé da letra e mostrar que não tinha caído ali de paraquedas. É triste, mas precisamos nos provar cada vez mais”, avalia.

Hoje, ao olhar para trás, Simone vê com satisfação o crescimento da presença feminina no esporte, mas destaca que o caminho exige persistência.

“É muito gratificante ver mais mulheres engajadas no esporte. Mas é importante não desistir na primeira dificuldade”, reflete ela, que é considerada referência nas quadras.


Simone não deixou
de sonhar
e se tornou
referência,
mesmo com
adversidades

Bandeira na mão e coragem no olhar

Se para Simone o futsal abriu portas na arbitragem, para Tais foi o futebol que despertou a paixão desde a infância.

A história começou cedo, desde os 5 anos, quando acompanhava o pai nos jogos de Veteranos. O ambiente do futebol sempre fez parte da rotina da família e a paixão pulsa nas veias.

Foi o próprio pai que a ensinou os primeiros fundamentos do futebol. Naquela época, o sonho era seguir como jogadora. Mas, em 2015, surgiu uma oportunidade diferente, que mudaria os rumos da sua vida.

Incentivada por familiares e amigos, Tais decidiu se inscrever no curso de arbitragem da Federação Gaúcha de Futebol (FGF). Até então, ela nunca havia tido contato direto com o apito. Mesmo assim, aceitou o desafio.

Pouco tempo depois, já estava em campo. O momento foi tão especial que guarda a data de estreia na lembrança. Sua primeira partida ocorreu no dia 16 de agosto de 2015, em Anta Gorda, pelo Campeonato Regional da Associação de Ligas do Vale do Taquari (Aslivata).

“Meu primeiro jogo foi entre Cruzeiro e Esperança, na categoria Aspirantes. O Daniel Soder [coordenador de arbitragem e dirigente da Aslivata] estava comigo como ‘sombra’ naquele dia”, comenta.

A partir desse momento, a trajetória ganhou força. Em 2016, veio a estreia em competições da FGF, no Gauchão Sub-15, em confronto entre Igrejinha e Ivoti.

Com o passar dos anos, Tais atuou em diferentes categorias e campeonatos. Já participou de competições como as categorias Sub-13, Sub-17 e Sub-20 do Gauchão, Estadual Feminino e nas divisões profissionais do futebol gaúcho, além da Copa FGF.

Apesar da evolução na carreira, ela reconhece que o ambiente do futebol ainda apresenta desafios para mulheres. A exemplo, o futebol brasileiro acompanhou falas machistas de um jogador profissional (de 1ª divisão do Brasileirão) proferidas para a equipe de arbitragem, feminina, da partida.

“Vivemos em um meio com desafios estruturais, machismo e desvalorização. Muitas vezes, precisamos provar nosso trabalho com mais intensidade do que os homens. Enquanto a mentalidade das pessoas não evoluir, veremos atos como este frequentemente”, diz. Ela concorda com a necessidade de “mostrar serviço” apontada por Simone.

As ofensas não chegam apenas de dentro de campo. Durante as partidas, comentários preconceituosos ainda aparecem, principalmente nas arquibancadas.

“Já ouvi muita coisa da torcida. Comentários como ‘teu lugar é na cozinha’, ‘vai lavar roupa’, ‘futebol é para homem’. Infelizmente, ainda são com certa regularidade”, aponta.

Mas desistir nunca foi uma opção para quem superou muitas adversidades no caminho trilhado até agora. “Apesar das barreiras, não desisto dos meus sonhos. Vou lutar até alcançar todos os meus objetivos e sempre gritar que lugar de mulher é onde ela quiser”, enfatiza Tais.

Tais se tornou uma
das principais
assistentes do
futebol gaúcho

Assim como no rugby, a mulher não pode recuar

No rugby, a coletividade é um dos pilares do esporte. É um jogo em que ninguém vence sozinho e no qual cada atleta depende da força do grupo para seguir em frente. E é nessa direção que as mulheres precisam seguir, para a frente e sem recuar.

Natural de São Paulo e moradora da região, Caren Castilho conhece bem essa realidade. Ela começou a jogar aos 19 anos no Rio Branco Rugby Clube, um dos times mais tradicionais da modalidade no país. Foram anos dedicados ao esporte antes de se mudar para o Sul do Brasil.

Com o tempo, além de atuar como atleta, passou a desempenhar outras funções dentro do esporte, inclusive com a arbitragem e coordenação de arbitragem na Federação Gaúcha da modalidade.

A decisão de seguir esse caminho surgiu por influência. “Tive um grande amigo que seguiu na arbitragem e me convenceu a ir por esse caminho também, e foi uma ótima escolha”, garante.

Com dedicação, Caren passou a construir sua trajetória dentro do esporte, inclusive como treinadora de equipes masculinas e femininas. Por um bom tempo, ela foi técnica do Centauros Rugby Clube, de Estrela.

Mesmo com a boa relação com os estrelenses, foi nesse ambiente que enfrentou algumas situações de preconceito. “Às vezes, surgiam comentários como ‘hoje ela está histérica’, por exemplo”, ressalta. Com o tempo, aprendeu a lidar com essas situações com maturidade, principalmente nas respostas firmes, mas sem arrogância.

A maternidade também trouxe mudanças importantes na rotina. Após o nascimento dos filhos, a arbitragem se tornou a principal forma de manter o vínculo com o esporte. Nesse processo, o apoio da família foi essencial.

“Meu marido segurou as pontas com as crianças enquanto eu estava na arbitragem por muitas vezes e auxiliou muito. Ter essa ajuda pode até ser básica, mas não para a realidade de muitas mulheres”, aponta.

Acima de qualquer obstáculo, o sentimento que permanece é a paixão pelo rugby, que a acompanhou durante décadas e segue até hoje, aos 45 anos de idade.

“Não é só um esporte. É um lugar onde descobrimos quem realmente somos. Caímos, levantamos, nos sujamos e cansamos, mas também é possível descobrir uma força que nem sabíamos que tínhamos”, afirma Caren.

Nesse sentido, o rugby carrega um espírito que as mulheres podem levar para a vida. Caren resume com uma frase que traduz bem o que significa viver o jogo: “No rugby, ninguém joga sozinha. Lutamos uma pela outra”.


Caren era jogadora até
o período de gravidez
e se reencontrou
na arbitragem

O tatame forja força e confiança

Se no rugby a força está no coletivo, muitas batalhas começam dentro de cada atleta de jiu-jitsu. A desportista, professora e especialista em defesa pessoal, Paloma, sabe muito bem como essa jornada funciona.

Assim como Simone, Tais e Caren, o esporte sempre fez parte de sua vida. Ainda criança, praticava futsal e, na adolescência, experimentou a canoagem. Anos depois, encontrou o caminho que daria rumo à sua trajetória, o das artes marciais.

Primeiro veio o muay thai e, depois, o jiu-jitsu, no qual optou em se dedicar mais, após treinar nas duas modalidades simultaneamente e por bastante tempo. Hoje, soma mais de uma década de experiência e atua em diferentes frentes relacionadas à arte suave.

Mesmo com o crescimento da participação feminina, Paloma destaca que o ambiente esportivo ainda apresenta desafios para as mulheres. “O esporte é um mundo muito masculino. Mesmo com mais espaços, ainda existem situações em que mulheres não recebem o mesmo respeito. Até mesmo no cotidiano de academia, um homem com a mesma graduação recebe um tratamento diferente. Não é explícito sempre, mas acontece”, relata.

Para enfrentar esse cenário, ela sempre manteve uma postura definida, não apenas mental, mas física. Assim como Simone, buscou aprender as regras ao máximo para não sofrer qualquer tipo de piada.

“Manter firmeza, até mesmo no olhar, respeitar as regras do esporte e se impor quando necessário foi o que me ajudou a superar essas situações”, afirma ela.

Hoje, além de ensinar jiu-jitsu, Paloma trabalha para tornar o tatame um espaço mais acolhedor para mulheres. Na academia Vértice 83 Jiu-Jitsu, em Estrela, ela conduz turmas exclusivas para o público feminino.

“Criamos essa turma justamente para transformar o tatame em um lugar de acolhimento. Por vezes, as mulheres sentem vergonha e, principalmente, medo de praticar. Por isso, temos uma espécie de ‘porto seguro’ para elas”, comenta.

Entre as iniciativas está o “Sábado Delas”, que chega à 3º edição neste sábado (7/3) e reúne mulheres para um momento de autocuidado, reflexão e aprendizado, especialmente sobre a liberdade que as mesmas têm.

“A ideia é reunir as mulheres para um momento especial. Começamos com yoga, depois trabalhamos movimentos básicos de defesa pessoal e finalizamos com um momento de confraternização. É para quem quer e precisa entender que pode”, explica.

Segundo ela, muitas mulheres chegam ao jiu-jitsu para acompanhar os filhos, mas encontram um novo universo e se redescobrem por meio da prática. Paloma é um exemplo claro. De tantas modalidades que disputou, se “viu” no jiu-jitsu e hoje é multicampeã.


O peso de tantas
medalhas é um
dos fatores para
que Paloma não desista

Bravura que abre caminho

Histórias como as de Simone, Tais, Caren e Paloma mostram que o esporte também é feito de coragem. Cada uma delas, à sua maneira, enfrentou obstáculos para seguir em frente em um ambiente ainda em transformação.

Ao assumirem o apito, levantarem a bandeira na lateral do campo, liderarem equipes ou ensinarem técnicas no tatame, fazem muito mais do que praticar esporte.

Elas inspiram e mostram que outras meninas também podem ocupar esses espaços, viver dessas profissões e construir suas próprias trajetórias dentro e fora do esporte.

Afinal, quando uma mulher entra em campo, ela não participa apenas do jogo: ela ajuda a mudar as regras dele.

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