Basta desbloquear o celular. Em poucos segundos, qualquer pessoa pode acessar uma plataforma, escolher um evento esportivo ou um jogo de cassino virtual e fazer uma aposta sem sair de casa. A praticidade transformou a relação dos brasileiros com os jogos de azar e ajuda a explicar o crescimento acelerado do setor.
Dados da Receita Federal mostram que as empresas regulamentadas de apostas esportivas faturaram R$ 12,2 bilhões entre janeiro e abril de 2026, valor duas vezes superior ao registrado no mesmo período do ano passado. O avanço ocorre em um cenário de ampla presença das plataformas no cotidiano dos brasileiros, seja por meio de propagandas, patrocínios esportivos ou aplicativos instalados nos celulares.
A psicóloga Ketlin de Siqueira Duarte pesquisou o tema durante seu Trabalho de Conclusão de Curso na Univates. Para ela, a principal diferença entre os jogos tradicionais e as apostas on-line está justamente na facilidade de acesso. “A pessoa não precisa mais se deslocar até um espaço físico. Basta ter um celular na mão”, afirma.
Segundo ela, a disponibilidade permanente modifica a forma como as pessoas se relacionam com o jogo. “Passa a estar disponível 24h por dia, dentro de casa, no trabalho, no intervalo, antes de dormir e até em momentos de sofrimento emocional”, aponta a profissional.
Foi justamente dessa forma que Ezequiel Silva teve contato com as apostas. O primeiro incentivo surgiu durante uma conversa no trabalho. Um colega relatava ganhos obtidos em plataformas on-line e afirmava ter utilizado o dinheiro para realizar melhorias na casa.
“Ele falava que tinha feito garagem, melhorado a casa e que até pretendia trocar de carro só com o dinheiro das apostas. Aquilo chamou minha atenção. A gente começa a enxergar uma oportunidade de ganhar um dinheiro extra”, recorda.
A curiosidade o levou a criar uma conta em uma plataforma. Nos primeiros contatos, vieram alguns ganhos. “Depositei R$ 200 e perdi. Depois, coloquei mais R$ 300 e consegui recuperar. Aquilo me deu uma sensação de alívio. Foi quando comecei a voltar”, relata.
Pouco tempo depois, o hábito já fazia parte da rotina. “Quando percebi, estava entrando toda semana. Depois, já não precisava de motivo. Bastava ficar sozinho alguns minutos para abrir a plataforma”, conta Ezequiel.
A ilusão do controle
Segundo Ketlin, um dos fatores que mantém os usuários conectados é a sensação de que o conhecimento esportivo ou a experiência acumulada podem aumentar as chances de sucesso. “Isso cria uma percepção de controle que nem sempre corresponde à realidade”, alerta.
A especialista explica que o cérebro tende a valorizar as vitórias e minimizar as derrotas, o que faz co apostador acreditar estar próximo de recuperar prejuízos ou de alcançar um grande prêmio: “O pensamento de que a próxima aposta vai recuperar tudo aquilo que foi perdido é um dos mais perigosos, porque mantém a pessoa presa no ciclo.”
Ezequiel afirma que viveu exatamente esse processo. Embora tenha realizado algumas apostas esportivas, o principal envolvimento ocorreu em cassinos on-line. “É mais viciante, porque a recompensa é imediata. Em poucos minutos, eu transformava R$ 50 em R$ 550 ou R$ 90 em R$ 300”, conta.
Os ganhos iniciais alimentavam a expectativa de resultados cada vez maiores. O problema era que ele nunca conseguia encerrar a sequência enquanto estava ganhando. “Eu fazia R$ 800 com um depósito de R$ 500 e deixava tudo lá. Depois, chegava a R$ 1,2 mil e pensava que podia fazer mais. Minha mente criava planos para aquele dinheiro”, relembra ele.
Mesmo quando precisava quitar contas ou cobrir despesas da casa, o dinheiro permanecia na plataforma. “Eu pensava que pagaria as contas com o salário e deixaria aquele valor rendendo”, afirma. Em questão de minutos, os ganhos acumulados desapareciam. “Eu começava a perder. O saldo caía de R$ 1,5 mil para R$ 1 mil, depois para R$ 600, R$ 300 e, no fim, zerava. Isso virou rotina”, alerta Ezequiel.
Publicidade e normalização
Para Ketlin, a popularização das apostas não pode ser explicada apenas pela tecnologia. A publicidade também exerce papel importante. As marcas estão presentes em transmissões esportivas, uniformes de clubes, placas nos estádios e nas redes sociais. “Quando a publicidade apresenta a aposta como algo comum, moderno, divertido ou ligado ao pertencimento social, ela pode normalizar esse comportamento”, afirma a psicóloga.

Psicóloga Ketlin Duarte afirma que a facilidade de acesso e a disponibilidade permanente estão entre os principais perigos das apostas on-line / Crédito: Arquivo Pessoal
A influência tende a ser ainda maior entre adolescentes e jovens adultos, uma vez que deixa de parecer propaganda e passa a fazer parte da cultura cotidiana. Ezequiel compartilha da mesma preocupação. Hoje, ao assistir transmissões esportivas, ele vê com apreensão a quantidade de anúncios ligados às apostas: “Penso que isso vai gerar um problema muito maior do que as pessoas imaginam.”
Segundo ele, a experiência em grupos de apostadores mostrou que poucos conseguem manter algum controle. “De 10 pessoas, talvez uma consiga parar na hora certa. A maioria ganha um pouco, perde tudo e continua tentando recuperar”, aponta ele.
Reflexos emocionais
Conforme a psicóloga, muitos usuários passam a utilizar as apostas como uma forma de lidar com emoções difíceis. “Começa como entretenimento, mas pode se transformar em uma tentativa de aliviar tensão, fugir de problemas ou sentir uma recompensa momentânea”, alega.
Segundo ela, ansiedade, solidão, tédio, frustração e dificuldades financeiras podem funcionar como gatilhos. O problema é que o alívio costuma durar pouco. “Depois, vem mais culpa, mais dívida e mais sofrimento. Então a pessoa volta a apostar buscando novamente aquela sensação”, reforça Ketlin.
No caso de Ezequiel, os reflexos se espalharam por todas as áreas da vida. “Eu sentava no sofá com o celular e ficava horas jogando. Estava presente fisicamente, mas minha mente não estava ali”, conta.
Ele passou a esconder perdas, mentir sobre valores apostados e se isolar da convivência familiar. Os impactos também atingiram o trabalho. “No trabalho e em casa, minha mente estava nas apostas. Eu passava dias pensando em estratégias e em como recuperar o dinheiro perdido”, destaca ele.
Fundo do poço e reconstrução
Entre os sinais de alerta apontados por Ketlin estão a dificuldade de parar, a necessidade de apostar valores cada vez maiores, o uso de crédito para continuar a jogar e a tentativa constante de recuperar perdas. “Essa é a hora de pedir ajuda”, reforça a profissional.
No caso de Ezequiel, as consequências chegaram à saúde mental. Depois das perdas, ele ficava deprimido e chegou a ter pensamentos suicidas: “Os pensamentos que eu tinha eram muito perigosos. A sensação após perder grandes quantias era de vazio absoluto.”
Conforme Ketlin, o jogo deixa de ser entretenimento quando passa a comprometer áreas essenciais da vida. “Começa a custar o sono, a paz, os vínculos, o trabalho, a autoestima e a liberdade”, reforça.
A recuperação de Ezequiel começou quando ele reconheceu que havia perdido o controle. Foi preciso chegar ao fundo do poço para admitir a necessidade de ajuda. Ele passou a buscar novas rotinas; encontrou apoio na fé, na leitura da Bíblia e na meditação diária. “Entendi que precisava substituir aquele hábito por outras coisas”, alega.
Hoje, Ezequiel procura reforçar diariamente valores que considera fundamentais: “Minha família é mais importante do que qualquer dinheiro. Aprendi que dinheiro digno é aquele que vem do trabalho.”
Sinais de alerta
- -Pensar frequentemente em apostas, mesmo quando está fazendo outras atividades;
- -Apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção;
- -Tentar parar ou reduzir e não conseguir;
- -Ficar irritado, inquieto ou ansioso quando não pode apostar;
- -Apostar para aliviar tristeza, ansiedade, tédio, culpa ou frustração;
- -Tentar recuperar perdas com novas apostas;
- -Mentir ou esconder de familiares o quanto apostou ou o quanto perdeu;
- -Pedir dinheiro emprestado, usar crédito, vender objetos ou atrasar contas por causa das apostas;
- -Negligenciar trabalho, estudos, família, sono ou autocuidado;
- -Sentir culpa, vergonha ou desespero depois de apostar, mas voltar a repetir o comportamento.

