As mudanças nas regras da arbitragem começam a produzir efeitos dentro de campo, especialmente na agilidade das partidas e na redução da chamada “cera”.
Essa é a avaliação de Fabrício Neves Correa, ex-árbitro Fifa e CBF, que acumula mais de três décadas de experiência na arbitragem. Ele destaca que jogadores e equipes têm demonstrado boa compreensão das novas orientações, inclusive nas competições amadoras.
Atualmente envolvido com a arbitragem de competições como o Regional da Aslivata e o Serramar, no Litoral Norte, Fabrício afirma que a adaptação tem ocorrido de maneira positiva.
Na sua avaliação, os atletas estão procuram colocar a bola em jogo mais rapidamente, tanto nas reposições feitas pelos goleiros quanto nas cobranças de lateral.
“Acredito que sim, o futebol melhorou. Acompanhamos os dados e números, e me parece que o melhor de tudo é que os jogadores entenderam”, avalia.
De acordo com ele, a difusão das orientações contribuiu para que as mudanças fossem compreendidas em diferentes níveis do futebol, do amador às principais divisões profissionais. O resultado esperado é uma partida com menos interrupções desnecessárias e mais tempo de bola em jogo.
Na experiência recente de Fabrício com o Regional da Aslivata, as novas orientações não provocaram dificuldades para a aplicação. Ele relata que não enfrentou problemas relacionados à demora dos goleiros para recolocar a bola em jogo nem situações que exigissem a reversão de cobranças de lateral.
Uma das situações que precisou corrigir, entretanto, envolveu a demora em uma substituição. Enquanto um jogador deixava o campo, houve tempo para tirar a caneleira, desamarrar a chuteira e até cumprimentar familiares na arquibancada antes da entrada do companheiro. “Ficou demais, aí tive que punir quem ia entrar. Foi muito bem aceito”, comenta.
Para Fabrício, a aplicação das regras depende não apenas da fiscalização, mas também da compreensão dos envolvidos. “É preciso entender todo o contexto do jogo. Quando se tem noção e coloca as regras dentro dele, fica mais fácil para todo mundo: árbitro e atleta”, afirma.
Controle emocional
Além das mudanças nas regras, Fabrício chama atenção para a importância de manter o controle emocional em partidas de maior tensão. Em confrontos eliminatórios, especialmente na fase decisiva de campeonatos, o árbitro precisa estar ainda mais atento, com comunicação eficiente entre os integrantes da equipe e maior concentração nos lances.
“A tensão tem que ser redobrada. Precisamos ter uma sintonia muito maior com a nossa equipe, os assistentes e o quarto árbitro. O olhar tem que ser apurado, e a voz de comando também precisa estar mais presente”, explica.
A experiência é determinante para aprender a lidar com provocações de atletas, dirigentes e torcedores. Fabrício afirma que o amadurecimento na função vem com o tempo, os erros e a troca de experiências com outros profissionais.
O árbitro também considera importante saber dosar a comunicação com os jogadores. Uma conversa pontual pode diminuir a tensão, desde que não comprometa a autoridade de quem conduz a partida.
“O jogo já é uma tensão o tempo todo. Todo mundo quer ganhar, conseguir os três pontos ou a classificação. Então, vamos respirar fundo, trocar uma ideia. Eu erro bastante, mas sempre vou dar o meu melhor”, comenta.
Questionamento ao VAR
Se, por um lado, as mudanças voltadas à dinâmica do jogo são vistas com bons olhos, por outro, Fabrício demonstra preocupação com as controvérsias do árbitro de vídeo (VAR).
Para ele, a ferramenta não eliminou as polêmicas e, em determinadas situações, pode aumentar a pressão sobre o profissional que tomou a decisão em campo.
Correa entende que o responsável pela partida precisa manter a convicção quando estiver seguro de sua interpretação, mesmo diante de uma recomendação para revisar o lance.
“Tu tens que chegar no monitor e dizer: ‘Meu colega, tu estás equivocado. Vou manter a decisão’. É uma questão de não perder a convicção”, defende.
Fabrício também questiona a formação e a preparação dos profissionais que atuam na cabine de vídeo. Para ele, a análise das imagens exige conhecimento do jogo, capacidade de interpretação e segurança para interferir somente quando necessário.
A quantidade de informações disponíveis pode gerar ruído e insegurança, sobretudo entre profissionais mais jovens. Por isso, considera fundamental que a tecnologia seja utilizada como ferramenta de apoio, sem substituir a capacidade de decisão de quem está em campo.
Nova geração
Ao observar o futuro da arbitragem brasileira, Fabrício demonstra preocupação com a renovação dos profissionais que atuam nas principais competições. Ele acredita que a experiência acumulada por árbitros mais antigos precisa ser acompanhada de preparação e oportunidades para os novatos.
No futebol regional, destaca o trabalho de profissionais que constroem suas trajetórias com dedicação, entre eles o árbitro Rodrigo Pereira, da região de Canoas, que também atua na formação esportiva.
Para Fabrício, a arbitragem exige conhecimento técnico, preparo físico, equilíbrio emocional e capacidade de reconhecer os próprios erros. A evolução das regras faz parte desse processo, mas a qualidade da condução de uma partida ainda depende da leitura de jogo e da postura do profissional.
“Tu vais errar muito para depois colocar em prática tudo aquilo que aprende. Fica mais fácil conseguir, aos poucos, ter o controle do jogo e o controle emocional do árbitro”, conclui.

