Filha mais nova de cinco irmãos, Ivanete Inês Diehl Kirch cresceu em um lar de agricultores no interior de Estrela, em uma infância que ela própria classifica como difícil. Aos 11 anos, a família comprou um terreno em Teutônia, no bairro Canabarro, e foi ali que, segundo ela, surgiu a veia empreendedora: estudava de manhã e, à tarde, fazia o “enfiadinho”, que eram peças do calçado distribuídas pelas fábricas para serem montadas em casa. Ela e a mãe faziam juntos os serviços.
“Empreender não é apenas ter um CNPJ ou uma sala bonita no centro. É transformar algo que tu tens nas tuas mãos em valor agregado”, resume. No caso dela, a renda extra ajudava nas despesas da família e nos estudos. Aos 14, veio a carteira assinada: com jornada de 48 horas semanais. Começava a trabalhar às 6h30, chegava em casa às 18h e a aula já iniciava 19h15.
Os tempos da máquina de escrever
O sonho de infância era ser desenhista. Chegou a ganhar um concurso de desenho da Prefeitura de Estrela, mas este interesse ficou adormecido. Depois de dois anos no comércio, voltou à indústria calçadista para o setor administrativo: passou pela programação, pelo RH (“na época, folha de pagamento era tudo em máquina de escrever”) e pela contabilidade. Trabalhou quatro anos em Lajeado e retornou a Teutônia em 1998. Nunca fez faculdade: sem carro e dependente de ônibus, era tudo mais desafiador. “A vida se mostrou minha maior faculdade”, afirma.
A empreendedora que nasceu da necessidade
Em 2006, passou a atuar na empresa do marido; em 2008, veio o primeiro CNPJ, como sócia-proprietária. Mas foi em 2015, com a morte do esposo, que “a empreendedora teve que nascer”, não por escolha, por necessidade. À frente da El Shadday, com um ateliê de costura com 35 funcionários e uma serigrafia com cerca de sete pessoas, precisou aprender rápido. “A moça que ficava atrás da mesa pagando boletos teve que sair, ir para o meio da produção e aprender tudo rapidamente, pois a empresa não parou”, lembra.
Ela explica que não existe “botãozinho” para desligar a dor, e religar, na manhã seguinte, o papel de empreendedora. As decisões difíceis, conta, foram tomadas em oração, pedindo direção. No fim daquele ano, vendeu o ateliê ao próprio cliente: ninguém perdeu emprego, nem direitos. “Jamais faria algo que prejudicasse meus funcionários”, diz. Ali foi a primeira decisão de encerrar um ciclo. E aí seguiu na serigrafia por sete anos, reencontrando ali a menina criativa que gostava de desenhar.
Encerrar ciclos também é empreender
No segundo ano da pandemia, criou a marca própria de confecção feminina cristã Estar Em Ti, registrada desde 2022, desenhando coleções próprias e lançando duas vezes ao ano. O nicho específico nasceu de uma dor que Ivanete observou. Muitas mulheres evangélicas acabavam se vestindo de uma forma “muito tradicional” por conta de não encontrarem opções de peças mais modernas, alinhadas com a sua expectativa de vestir-se de uma maneira “não sensual”. Foi aí que surgiu a visão de usar o seu dom a favor de uma causa e empreender com algo que fez muito sentido. A marca cresceu rapidamente e foi muito além dos limites geográficos de sua cidade.
Com o tempo, a falta de mão de obra terceirizada, porém, pesou: chegou a buscar parceiros a 90 quilômetros de distância. Após muitas reflexões sobre os riscos e a insistência no projeto, impôs um prazo a si mesma: “se até 30 de novembro de 2025 não encontrasse fornecedores confiáveis, não produziria a nova coleção”. Não encontrou. Decidiu vender o estoque e antecipar a aposentadoria (que estava planejada para os 60 anos) aos 57 anos. “Não estou arrependida da minha decisão.”
Planejar para viver
O conselho vem do pai, de 90 anos: “Com quantos anos tu vai querer viajar? Quando tiver a minha idade e não conseguir mais?” A empreendedora ressalta a importância de planejar-se financeira e emocionalmente para este momento de desacelerar.
Para ela, o segredo é rever prioridades e poupar logo: “R$ 100 por mês, durante 20 anos, viram R$ 60 mil com juro simples. Parece pouco, mas é muito mais do que não ter.”
Ivanete também explica que junto com a maturidade vem a habilidade de rever as prioridades. Reavaliar o que realmente faz sentido em sua vida é um dos pontos que permite tornar o caminho à aposentadoria viável. “Muitos dizem que não podem parar. Mas quando a gente revê prioridades, percebe que pode viver feliz com muito menos”, explica. Citando Eclesiastes, reforça que: “Tudo tem seu tempo determinado e há um tempo para todo propósito debaixo dos céus.”
Hoje, Ivanete divide a rotina entre pilates, caminhadas, tempo livre e viagens, a mais recente, oito dias na Chapada dos Veadeiros. Assumiu os cabelos brancos após dois anos de transição: “As rugas são sinal de experiência. Fazem parte de mim.” Destaca que o envelhecer é um processo natural da vida e traz a beleza diferente e única de uma nova mulher.
Voluntariado
Ivanete também dedica tempo ao voluntariado, com um grupo de apoio a mulheres empreendedoras. Como um braço da Comunidade Cristã Remir, o grupo Ativar Mulher reúne-se quinzenalmente, em encontros leves e descontraídos, que buscam unir, fortalecer e fomentar o empreendedorismo. Duas vezes ao ano, o encontro aberto traz conhecimentos técnicos com a participação de mais mulheres.
“Abordamos os diversos desafios à luz da palavra, para usarmos no dia a dia dos negócios e da família. A gente não empreende apenas com um CNPJ. Multiplicando o arroz na panela ou plantando uma salsinha para não precisar comprar, também estamos empreendendo”, explica.

