Enfrentar o machismo estrutural é urgente

Só no último fim de semana de novembro, quatro feminicídios foram registrados no país, números que deixam claro que não estamos diante de casos isolados

As últimas semanas escancararam mais uma vez a violência que atravessa o cotidiano das mulheres no Brasil. Enquanto manchetes se repetem, vidas são arrancadas. Só no último fim de semana de novembro, quatro feminicídios foram registrados no país, números que deixam claro que não estamos diante de casos isolados, mas de um padrão sustentado por uma cultura que ainda autoriza a morte de mulheres.

“Em 2024 tivemos 1.492 feminicídios. Em 2025, só no primeiro semestre, já são 718. É um aumento de 176%”, lembra a bióloga, naturopata e professora da Univates, Mirian Fabiane Dickel, com quem conversamos para entender por que seguimos enterrando mulheres e o que precisa mudar imediatamente.

A violência extrema soma-se a outros dados igualmente alarmantes: 33.998 estupros registrados apenas neste período. Crimes que não acontecem no vazio, são produzidos e alimentados pela estrutura de um país que naturaliza a desigualdade de gênero e insiste em responsabilizar o corpo feminino por sua própria violação.

A cultura que autoriza a morte

Miriam aponta que o feminicídio não é fruto de um surto momentâneo: é consequência direta de uma sociedade patriarcal que, historicamente, considerou o corpo da mulher como “objeto, ameaça ou propriedade”. Essa lógica atravessa desde as piadas no trânsito até a forma como homens são socializados: não podem expressar emoções, não podem chorar, não podem demonstrar fragilidade. “A pressão social é enorme, e como não há espaço para diálogo entre eles, essa angústia explode onde socialmente se sentem autorizados: dentro de casa”, explica.

Segundo Mirian, reconhecer que homens também precisam se educar emocionalmente e que isso os beneficia, é fundamental. “Não existe ser totalmente masculino nem totalmente feminino. O equilíbrio é humano. Quando o homem se percebe emocionalmente, ele rompe com essa pulsão de morte que destrói mulheres e também destrói o planeta.”

O red pill e o novo rosto da misoginia

A ascensão de influenciadores da chamada red pill intensificou a misoginia entre jovens, o ódio às mulheres agora circula com estética de meme e linguagem “motivacional”. Essa fábrica de ressentimento produz meninos que aprendem a desprezar mulheres antes mesmo de se relacionarem com elas.

Para Mirian, não basta olhar para os casos de feminicídio: é preciso desmontar a estrutura que dá sustentação ao machismo. “O patriarcado é anterior ao capitalismo, é uma organização que coloca o masculino como detentor do poder e o feminino como subalterno. É um sistema que se manifesta no cotidiano: na objetificação, no sexismo, na ideia de que a mulher deve ser contida, educada, interrompida.”

O machismo cotidiano que abre espaço para a violência

Os exemplos estão por toda parte e parecem pequenos apenas para quem nunca teve de lutar para existir: “Tinha que ser mulher” no trânsito. Questionamentos sobre a capacidade feminina em cargos de liderança, divisão desigual de tarefas domésticas, mães solo responsabilizadas pela sobrevivência dos filhos, interrupções constantes quando mulheres tentam falar.

“Os homens têm direito imediato à fala. A mulher precisa conquistá-lo. E muitas vezes não será ouvida”, destaca Mirian.

Essa cultura de desautorização abre espaço para crimes mais graves porque, se o corpo feminino é visto como inferior, descartável ou disponível, torna-se possível violá-lo.

Educar meninos é proteger vidas

Famílias, comunidades, escolas e instituições precisam assumir responsabilidades concretas e não apenas discursos. Segundo Mirian, alguns caminhos possíveis são: Paridade de gênero em cooperativas, empresas e conselhos, incentivo para que meninos participem das tarefas domésticas, estímulo para que meninas ocupem atividades tradicionalmente consideradas “masculinas”, construção de espaços onde homens possam falar de emoção sem serem ridicularizados.

Não existe tarefa de homem ou de mulher. Existe educação para convivência respeitosa e isso começa cedo.

A culpa nunca é da vítima

Um dos pilares mais resistentes do machismo é responsabilizar a mulher pela violência que sofre. Seja pela roupa, pela vida sexual, por “ter provocado”, por “não ter saído da relação”, por existir em um corpo feminino. Essa lógica tem raízes profundas em tradições culturais e religiosas, como o mito de Eva, que coloca a mulher como origem do pecado. É a mesma narrativa que naturaliza a culpabilização da vítima em casos de estupro e feminicídio. “Essa ideia precisa ser rompida de forma definitiva. O corpo feminino não é responsável pela violência que lhe é imposta”, afirma Miriam.

Marchamos para viver

As manifestações que tomaram as ruas do país neste final de semana mostraram que as mulheres não vão recuar. Marchamos porque queremos estar vivas. Marchamos porque nenhuma de nós é descartável. Marchamos porque o feminicídio é a face mais brutal de uma estrutura que insiste em nos silenciar.

E, como lembra Miriam, estamos diante de um processo coletivo de cura que exige coragem, educação e enfrentamento. O combate ao feminicídio não é pauta de nicho. É pauta de humanidade. E educar meninos para o respeito e a igualdade é o primeiro passo para que paremos de enterrar mulheres.

Confira a entrevista na íntegra:

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