Desfile, famílias e tradição marcam encerramento da Semana Farroupilha

Cerca de 450 cavalarianos participaram da 9ª Cavalgada Farroupilha, 35 piquetes integraram o Acampamento, que terminou no domingo com a extinção da Chama Crioula

Cerca de 450 cavalarianos tomaram as ruas do Bairro Languiru na manhã de domingo (20/9), no encerramento da Semana Farroupilha de Teutônia. A 9ª Cavalgada Farroupilha reuniu participantes de Teutônia, Fazenda Vilanova, Paverama, Lajeado e Westfália, além de entidades e Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), que participaram do desfile caminhando.

A programação marcou o fim do 10º Acampamento Farroupilha, que também contou com atividades campeiras, apresentações artísticas e música. Foram 35 piquetes participantes, número recorde para o evento.

Entre eles está o Piquete Popular, que acompanha a programação desde a primeira edição do acampamento e participou de todos os desfiles realizados no município. Para Carlos Peixoto, integrante da entidade, a presença das famílias é uma das características que mantém a tradição viva. “É uma coisa muito bonita, a gente traz a família, é uma tradição gaúcha”, destaca. Na avaliação dele, a participação dos mais jovens é importante para a continuidade dos costumes e da cultura tradicionalista.


Evento reforça manutenção da cultura e tradição gaúcha, como Carlos Peixoto, do Piquete Popular, incentivando a tradição à nova geração / Crédito: Anderson Lopes

A história também se repete no Piquete Desgarrados dos Pampas, de Linha Catarina. O grupo existe desde 2004 e, conforme o integrante Márcio Kolling, mantém atividades ao longo de todo o ano. Entre as iniciativas estão cavalgadas, encontros e ações culturais. Neste ano, a entidade promoveu um curso de dança e um fandango.

Para quem participa em família, o desfile é também uma forma de preservar memórias. Moradora do Bairro Alesgut, Lourdes Müller acompanha a programação todos os anos com o Piquete Três Trotes e fez questão de registrar a passagem dos familiares. “Eu tenho que filmar tudo, é a minha família desfilando. Eu acho o máximo isto”, destaca.

A expectativa pelo 20 de setembro também acompanha o ano de quem participa das atividades tradicionalistas. Capataz campeiro do Rincão das Coxilhas, Daniel Guillande resume o significado da data pela possibilidade de compartilhar a tradição com os filhos. “Que possamos fazer isso todos os anos junto com nossos filhos, com nossa família.”

Acampamento, história e tradição

Neste ano, houve recorde de piquetes participando. Os 35 instalados em pequenas casas de madeira tentaram recriar uma aldeia gaúcha, com muita música, churrasco e chimarrão. A homenagem era para os antepassados, para manter a cultura e a tradição.

No entanto, a figura do gaúcho celebrada nas semanas farroupilhas não é um retrato completo de quem viveu e construiu a história do Rio Grande do Sul. Ela é, em grande medida, resultado de uma construção cultural iniciada e organizada especialmente a partir do século XX.

Na década de 1940, João Carlos Paixão Côrtes, Barbosa Lessa e outros jovens tiveram papel central na criação de um movimento que buscava valorizar costumes considerados típicos do Estado. Em 1948, surgiu o 35 CTG, o primeiro Centro de Tradições Gaúchas. A partir dali, danças, músicas, vestimentas e representações do homem do campo passaram a ser organizadas e difundidas como símbolos de uma identidade regional.

Esse processo teve importância, mas ajudou a consolidar a imagem do gaúcho. Pesquisas históricas apontam que a construção desse personagem privilegiou o homem branco ligado à vida campeira e à estância e deixou menos visíveis outras experiências com fundamental importância na formação do território.

Entre elas estão as histórias dos povos indígenas, cuja influência se vê em nomes de bairros de Teutônia mesmo. O nome Languiru, na verdade, é uma variação fonética do valente líder indígena guarani Nicolau Nhenguiru, que enfrentou as tropas imperiais de Gomes Freire de Andrade.

Os Charruas e Minuanos, que habitavam o Sul antes da ocupação europeia, sofreram expulsões, guerras e extermínio. Inclusive na Guerra dos Farrapos, os Charruas se mostraram bravos guerreiros, temidos pelas tropas da coroa, considerados hábeis e fortes na luta com flechas e com cavalos selvagens. Assim como os Lanceiros Negros, fundamentais para a resistência gaúcha durante uma década de conflito.

Os soldados negros aderiram ao conflito diante da promessa de liberdade. No dia 14 de novembro de 1844, foi anunciado o fim de guerra. Os lanceiros comemoraram, comeram e beberam. Na madrugada, foram desarmados e atacados em Porongos. Grande parte dos soldados foi morta ou capturada. O episódio ficou conhecido como Massacre de Porongos.

A identidade regional acabou sendo apresentada predominantemente a partir de referências europeias e campeiras. A questão central não é contrariar a tradição, mas reconhecer que toda edição é também uma escolha sobre aquilo que a sociedade decide lembrar, celebrar e transmitir.

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