Patrício Boques: “Jogar no Grêmio foi uma realização total”

Ex-lateral recorda trajetória incomum no futebol, a emoção de defender o clube do coração e lamenta mudanças no futebol brasileiro.

Patrício Antônio Boques fez seu caminho longe do roteiro tradicional do futebol. Entre os 16 e 17 anos, o ex-lateral fez testes em seis clubes, sem conseguir aprovação.

Antes de chegar ao futebol profissional, trabalhou na construção civil e participou das obras da barragem de Itá, em Santa Catarina.

Aos 18 anos, recebeu oportunidade para disputar o futebol amador em Xanxerê/SC. Permaneceu na região por vários anos, até ser convidado para jogar no Kindermann, de Caçador, aos 24. Esse foi o passo decisivo para transformar o sonho de infância em profissão.

Na época, trabalhava e tinha vida na cidade. Foi a insistência de um amigo que o convenceu a aceitar o desafio. “Eu não queria ir de jeito algum. Ele me deu segurança e aí aceitei. De lá para frente, não voltei mais e tudo deu certo”, diz.

Dois anos depois, Patrício chegava ao Tricolor. Gremista desde criança e membro constante de carreatas pós títulos e festejos, estreou pelo clube aos 26 anos, enquanto dividia elenco com nomes como Ronaldinho Gaúcho, Zinho e Paulo Nunes.

“Eu era um júnior com 26 anos que estreava no Grêmio”, brinca Boques.

O ponto mais alto da carreira veio em 2005. Na partida que garantiu o acesso do Grêmio à Série A contra o Náutico, Patrício esteve no centro de um dos episódios mais lembrados da história do clube.

Durante a confusão após a marcação de um pênalti, o lateral confrontou o árbitro Djalma Beltrami. A atitude rendeu uma suspensão de 4 meses, mas fez com que seu nome ficasse ligado à Batalha dos Aflitos.

“Talvez tenha sido uma atitude de torcedor dentro de campo. É um momento que vai ser eternizado por isso”, afirma Patrício. “Perdi o controle ao ponto de peitar um árbitro daquele jeito, com a justificativa de que o clube queria subir e estávamos com vontade de vencer”, lembra.

Bastidores

Após encerrar a carreira, Patrício continuou no futebol. Trabalhou por 7 anos como auxiliar técnico de Bolívar, ex-companheiro dos tempos de jogador, e conheceu outros aspectos dos bastidores.

Nesse período, passou a observar a influência de dirigentes e empresários nas decisões dos clubes. “Se você for correto, não consegue chegar longe no futebol”, pondera, ao relatar as dificuldades que encontrou na tentativa de seguir.

Patrício também critica o excesso de controle existente atualmente sobre os jogadores. Ele lembra que, em sua época, era comum disputar partidas em sequência e ainda realizar atividades extras por iniciativa própria.

“Jogávamos domingo, quarta e domingo e, mesmo assim, não reclamávamos tanto. Ainda, podíamos treinar depois do horário, o que ajudava muito. Isso hoje é considerado ‘excesso de carga’”, aponta.

Formação rara

Depois de tantos anos dentro do futebol, Patrício analisa as mudanças no processo de formação de jogadores. Na visão dele, as categorias de base não revelam com a mesma frequência de outras épocas.

O ex-lateral chama atenção para a posição em que atuava. Para ele, o lateral moderno precisa ser completo em todos os sentidos. “O que um ala de hoje tem que fazer? Primeiro, ser um bom jogador na linha de quatro. Depois, passar bem, garantir preparo físico e saber chegar no ataque”, explica.

A mudança, segundo Patrício, também fez com que muitos jogadores fossem deslocados para funções mais avançadas. Ele cita o exemplo de Bernabei, do Internacional, como um atleta que, na sua avaliação, rendeu melhor quando adiantado.

Boques ainda defende melhor aproveitamento de atletas do futebol gaúcho e em divisões inferiores. “A Dupla Gre-Nal deveria utilizar mais os atletas que saem das nossas raízes. Sabemos que dá certo, então é só colocar em prática e não contratar por grife”, diz.

Nova fase

Hoje, Patrício vive em Teutônia e mantém a ligação com antigos companheiros e amigos construídos durante a carreira. Mesmo distante do futebol profissional, diz preservar os valores que o acompanham desde os tempos de amador.

“A simplicidade sempre vai nortear, qualquer que seja a conquista e lugar”, enfatiza.

A história mostra um jogador que precisou insistir quando as portas da base se fecharam, trabalhou fora do futebol, encontrou uma oportunidade no interior catarinense e, alguns anos depois, estava com a camiseta do time de infância, além de ter passado por 16 clubes. “Não me considero maior ou menor que ninguém. Sou um cara que realizou o sonho de entrar em campo pelo clube de coração”, resume.

O ex-lateral não fica marcado como mais um personagem da Batalha dos Aflitos, Patrício carrega trajetória construída na insistência. “Se precisasse que fazer alguma coisa diferente, eu não faria. Optaria por tudo como foi”, afirma.

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