A rotina de Diego Ziegg mudou radicalmente em 2026. Depois de construir parte da trajetória no futebol gaúcho, especialmente no trabalho de formação do Juventude, o profissional de Roca Sales atravessa o país para atuar no Clube do Remo, no Pará.
O Remo voltou à elite nacional depois de 32 anos e precisou se adaptar às exigências de uma competição que impõe desafios dentro e fora de campo. Entre eles estão as enormes distâncias, os custos de deslocamento, o clima amazônico e a necessidade de competir contra adversários com investimentos muito maiores.
As viagens são um dos principais obstáculos enfrentados pelo clube. Como Belém está distante da maior parte dos adversários, o Remo utiliza voos fretados para reduzir o desgaste dos jogadores.
“Atravessamos o país inteiro. O desgaste é muito grande, mas o voo fretado minimiza um pouco o cansaço dos atletas e dá mais tempo para treinamento”, explica Ziegg.
No Campeonato Paraense, houve um exemplo ainda mais extremo. Para enfrentar o Cametá, a delegação optou por fazer o trajeto de barco. Foram 8h pelo rio, com a equipe a bordo para dormir e realizar as refeições antes da partida.
A adaptação também passou pelo clima. Diego chegou a Belém em fevereiro, período de chuvas frequentes, mas encontrou uma temperatura muito acima daquela com que estava acostumado no Rio Grande do Sul. “É um calor extremo. Às 6h já tem sol e tu acorda com 28 graus. É muito quente mesmo”, relata.
Por isso, os horários de treinamento são ajustados para o fim da tarde. O profissional acredita, porém, que o clima também pode ser transformado em vantagem quando o Remo atua em casa. “Conseguimos tirar um pouco de proveito das equipes que vêm aqui, porque elas cansam bastante. Treinamos no dia a dia e as equipes viajam, jogam com nós e vão embora”, acrescenta Diego.
Formação
No Pará, Diego encontrou uma realidade diferente também na formação de jogadores. Em Belém, as escolinhas têm forte ligação com os principais clubes e, desde cedo, muitos meninos são direcionados para Remo, Paysandu e Tuna Luso, enquanto equipes do interior também exercem papel importante na descoberta de talentos.
O tamanho do estado, porém, impõe obstáculos. As distâncias entre as cidades são enormes e fazem com que até as competições de base precisem ser regionalizadas nas primeiras fases.
Para ele, apesar das dificuldades de deslocamento e estrutura, existe uma paixão muito forte pelo futebol. “É uma cidade apaixonada por futebol”, define. Segundo Ziegg, essa relação aparece tanto nas categorias menores quanto nas arquibancadas, onde os grandes clubes nacionais também mobilizam milhares de torcedores.
Orçamento menor
Dentro de campo, a principal diferença está no investimento. Diego afirma que o Remo possui uma das menores folhas da competição e enfrenta clubes que chegam a gastar cinco ou seis vezes mais. “Somos a 19ª folha de investimento no Brasileirão, com cerca de R$ 5,9 milhões. Enfrentamos equipes com a folha seis vezes maior que a nossa”, afirma.
Mesmo assim, o clube mostra capacidade de competir diante de adversários tradicionais. Ziegg lembra dos pontos conquistados contra Internacional e Grêmio, além de vitórias sobre São Paulo, Chapecoense e Botafogo.
A luta, porém, é principalmente pela permanência. O Remo precisa somar pontos para escapar da zona de rebaixamento e, na avaliação de Diego, a regularidade será decisiva. “Qualquer ponto que somado é muito importante. Trabalhamos jogo a jogo e com foco no momento”, resume.
Outro desafio foi a montagem do elenco. Cerca de 20 jogadores deixaram o grupo que iniciou a temporada, enquanto novos atletas chegaram durante as janelas de transferências.
O problema foi fazer essa reconstrução com o campeonato em andamento. “Não tinha tempo só para treinar. Tínhamos que jogar, treinar e remontar a tua equipe. Isso demora, demanda muito tempo”, explica.
Comissão e departamento de futebol precisaram trabalhar para encontrar jogadores capazes de elevar o nível da equipe sem comprometer as contas do clube. O zagueiro camaronês Tchamba é um dos exemplos citados. O atleta chegou ao grupo e passou a ser utilizado em diferentes funções.
Passo maior que a perna
A realidade financeira do Remo exige cautela. O clube estabeleceu um planejamento orçamentário e procura evitar contratações que possam comprometer o futuro. “O primeiro passo é não fazer loucura. Sabemos as nossas limitações e condições”, pondera.
O profissional afirma que, desde sua chegada, o clube mantém os compromissos em dia. Salários, direitos de imagem, premiações e demais obrigações são tratados como prioridade.
A questão ganha ainda mais peso diante das despesas de viagem. Segundo Diego, a logística consome cerca de R$ 1,5 milhão por mês entre deslocamentos, hotéis e demais custos.
Por outro lado, a força da torcida ajuda nas receitas. Em partidas com estádio lotado, a arrecadação representa parcela significativa do orçamento.
Para Diego, a permanência na Série A seria resultado de um trabalho responsável. O objetivo imediato é escapar do Z-4, mas o profissional acredita que o Remo pode olhar mais acima caso consiga consolidar uma sequência positiva.
“Sempre digo que o que vale é a 38ª rodada. Se ficarmos fora da zona de rebaixamento será praticamente um título”, completa.

Crédito: Arquivo Pessoal

