É lírico, com a chegada da primavera, falar de flores, árvores, das belezas naturais que nos encantam e da sombra das copas. O Dia da Árvore (21/9), foi instituído no Brasil em 1965 com o intuito de preservar florestas e inibir o desmatamento. Mais de seis décadas depois, a data permite olhar para as áreas onde a vegetação que existia antes das grandes cheias de 2023 e 2024 já não está mais presente. É urgente debater a importância holística das árvores. Depois de 2024, é perceptível a ausência do verde nas encostas de rios e arroios. A mata ciliar foi arrancada do lugar onde ela é imprescindível.
O debate ganha outra dimensão diante dos dados sobre a cobertura florestal e das transformações observadas nas margens do rio Taquari e de seus afluentes. Um levantamento realizado pelo engenheiro ambiental Cleberton Bianchini, utilizando a base anual de uso e cobertura do solo produzida pelo MapBiomas, comparou as Áreas de Preservação Permanente (APPs) do rio Taquari nos anos de 2022 e 2024.
Em 2022, a formação florestal ocupava 31,64% da área analisada. Em 2024, depois das inundações de 2023 e 2024, a proporção caiu para 14,53%. Cleberton ressalta que o resultado não corresponde necessariamente apenas à floresta destruída, pois a classificação também pode refletir áreas inundadas, deposição de sedimentos e variações na interpretação das imagens. Ainda assim, o levantamento evidencia a dimensão das transformações ambientais ocorridas nas margens do rio.
O dado ajuda a dimensionar um problema que, no entanto, começou antes das enchentes. É o que mostra o artigo “Restauração ecológica de florestas ribeirinhas: experiências nas margens do rio Taquari e afluentes”, produzido por pesquisadores que analisaram as condições das florestas ribeirinhas da região. As margens do Taquari e de seus afluentes já vinham sendo ocupadas e transformadas ao longo do tempo, inclusive pela agricultura, com redução das áreas de mata ciliar. As enchentes atingiram, portanto, um sistema que já estava fragilizado.
Mais do que uma faixa verde
A mata ciliar não é simplesmente uma faixa verde na margem do rio. Suas raízes ajudam a estabilizar o solo, reduzir a erosão e conter o assoreamento. A vegetação também interfere na velocidade da água, retém sedimentos e oferece abrigo e alimento para diferentes espécies.
Quando é retirada, não desaparecem apenas árvores. Também são afetados o solo, a matéria orgânica, os habitats da fauna e a conexão entre fragmentos florestais. Durante as cheias, normalmente chamam atenção as árvores arrancadas e transportadas pela correnteza. Permanecem menos visíveis, porém, aquelas que resistiram e ajudaram a proteger as margens.
A mata ciliar não impede uma inundação, mas contribui para reduzir a vulnerabilidade do território e pode diminuir seus efeitos destrutivos sobre áreas ocupadas. Em margens preservadas, raízes, troncos e vegetação ajudam a dissipar parte da força da água e a proteger o solo.
As consequências também alcançam a qualidade da água. A vegetação das margens funciona como uma barreira capaz de reter sedimentos e outros materiais antes que cheguem aos cursos hídricos. O Rio Taquari, por exemplo, é utilizado no abastecimento público de municípios como Lajeado.
Conhecer antes de plantar
O senso comum diante de uma área degradada poderia resumir a resposta a “vamos plantar mais árvores”. A recuperação, porém, não se reduz a essa ação.
Segundo o biólogo e mestre em Biotecnologia Léo Jaime de Vargas, o primeiro passo é conhecer o ambiente que se pretende recuperar. Nem toda árvore é adequada para qualquer lugar. A escolha precisa considerar as características do solo, da umidade, da luminosidade e das espécies que naturalmente ocorrem naquela região. “Conhecer as espécies vegetais que ocorrem naturalmente dentro dos ambientes é fundamental quando realmente se deseja recuperar determinada área”, destaca Léo Jaime de Vargas.
Depois das enchentes de 2024, muitas áreas passaram a carregar uma marca visível da força das águas. Onde antes havia vegetação, ficaram solo exposto, erosão e espaços que precisam ser recompostos. O primeiro passo para a recuperação, portanto, nem sempre é plantar, é conhecer.
O diagnóstico das margens também precisa considerar as condições particulares de cada trecho. Para Cleberton Bianchini, não existe uma única solução capaz de atender a todas as áreas atingidas. “A principal demanda é realizar um diagnóstico das margens para identificar os trechos mais críticos. Cada local possui condições próprias de inclinação, erosão, estabilidade e cobertura vegetal”, enfatiza Cleberton Bianchini.

