Expovale amadurece sem esquecer as origens

Comparada a um organismo vivo, feira passou da infância, marcada pela exposição da produção local, à euforia da juventude, com grandes shows nacionais e internacionais, até chegar à maturidade empresarial, com inovações que prometem surpreender a partir do dia 12, no Parque do Imigrante.

A Expovale já teve jeito de criança, viveu uma juventude despojada, embalada por grandes espetáculos, e nas últimas edições encontrou a vocação adulta. O evento que começou com uma exposição de produtos locais, animais e atividades ligadas ao campo ganhou dimensões, atraiu multidões com artistas nacionais e internacionais e, ao longo das décadas, mudou novamente de direção.

Hoje, integrada à Construmóbil, concentra a energia na geração de negócios, na inovação dos estandes e na aproximação entre empresas, consumidores e investidores. De acordo com o empresário Nilto Scapin, a feira tinha outra configuração em 1986, quando participou pela primeira vez como expositor.

O Parque do Imigrante tinha menos estruturas e preservava uma forte identidade rural, com rodeios crioulos e exposição de animais. “Era uma feira muito mais diversificada e praticamente só com empresas de Lajeado”, recorda Scapin.

A cada edição, a expectativa era ampliar a estrutura física e atrair novos expositores. Os shows também ganharam protagonismo nessa fase de expansão. A programação reunia atrações regionais e nomes conhecidos nacionalmente, como Família Lima, Fábio Júnior e Titãs.

Nos anos 1990, a feira também recebeu artistas de projeção internacional, como Jimmy Cliff, e grupos que estavam no auge da música brasileira, a exemplo de Kid Abelha. A Expovale era, além de uma vitrine econômica, um dos grandes acontecimentos culturais e de entretenimento da região.

A juventude ganha dimensão regional

Uma mudança importante começou a ser construída em 1993, quando Scapin assumiu a vice-presidência da feira, ao lado de Antônio Schabbach, na presidência. A intenção era deixar de concentrar a participação nas empresas de Lajeado e transformar o evento regional.

Para isso, foi criada a Avenida dos Municípios, espaço em que cada cidade podia apresentar suas potencialidades econômicas e turísticas. A proposta era ampliar a representação regional e fazer com que os municípios também encontrassem na Expovale uma oportunidade de divulgação.

Em 1995, quando assumiu a presidência, Scapin deu continuidade ao projeto. Uma conquista importante foi a construção do Pavilhão 3, batizado em homenagem a Nilo Rota, empresário e um dos fundadores da Fenal.

A iniciativa reuniu as dez concessionárias de automóveis de Lajeado, que investiram na estrutura em parceria com a prefeitura. Como contrapartida, as empresas puderam utilizar o espaço sem pagar aluguel durante cinco edições, realizadas a cada dois anos, ao longo de uma década. A obra permitiu interligar os três pavilhões e ampliou a capacidade de receber expositores.

A valorização da produção cultural regional também ganhou espaço. O Musivale reuniu mais de 50 inscrições de músicas inéditas, principalmente de artistas do Vale do Taquari. Os melhores classificados foram premiados e tiveram as composições reunidas em um CD.

Para Scapin, a evolução sempre esteve ligada à ampliação da estrutura e à diversificação dos participantes. “A gente foi fazendo vários remendões no parque. Foi melhorando, ampliando, mas nunca dentro de uma configuração final de um projeto mais elaborado”, observa.

A maturidade e o protagonismo dos negócios

A transformação da feira acompanhou as mudanças na própria cidade. Com o passar dos anos, Lajeado passou a contar com outros espaços para receber espetáculos e atividades culturais. O Teatro da Univates e outras estruturas ampliaram as possibilidades de programação, reduzindo a necessidade de desempenhar a mesma função cultural de décadas anteriores.

Quem acompanhou essa transição também como visitante foi Adriana Machado, atual presidente da Expovale. Arquiteta e urbanista, ela participou da criação da Mostra Arquitetura dentro da Construmóbil e esteve na plateia do show de Jimmy Cliff, quando ainda frequentava a feira com a família. Décadas depois, assumiu a responsabilidade de conduzir a organização.

Cantor Jimmy Cliff, precursor do reggae, realizou show na Expovale nos anos 90 / Crédito: Divulgação

Adriana considera que o evento acompanhou a evolução urbana e econômica da região. Se antes tinha uma função cultural mais representativa, hoje o protagonismo está na promoção dos negócios. “Existia um momento em que a Expovale tinha uma função cultural mais representativa, com o passar do tempo, o protagonismo foi sendo mais no sentido da promoção do negócio”, explica.

Ao longo das edições, os estilos e o perfil das atrações foram se modificando, incluindo a presença de outros gêneros, como a música sertaneja. Na configuração atual, os shows e as atividades culturais continuam presentes, mas a estrutura é mais voltada às oportunidades dos expositores.

À frente da organização, Adriana entende que o evento oferece condições para que os expositores alcancem o público. “O objetivo da Expovale é criar ambiente saudável de negócios.” Até o entretenimento faz parte da estratégia de negócios, sem deixar de proporcionar lazer às famílias.

A presidente conhece os desafios de quem empreende. À frente da Muran Arquitetura, empresa da qual é uma das três sócias, concilia a atividade profissional com a liderança voluntária da feira.

Uma vitrine que continua se reinventando

Na edição de 2026, a maturidade empresarial aparece na estrutura preparada para receber os participantes. Além dos pavilhões tradicionais, o evento amplia a área externa para acomodar concessionárias de veículos e apresenta a Avenida do Turismo, que já conta com a confirmação de mais de 100 prefeituras.

O espaço terá cinco cenários, lançamento de roteiro turístico, homenagem aos 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis e mais de 60 apresentações culturais. A programação também prevê um estúdio de podcast para registrar histórias de visitantes e participantes, além de ambientes específicos para encontros e negócios e projetos especiais de montagem nos estandes.

A diversidade continua sendo uma característica da Expovale, mas agora organizada em torno de uma proposta empresarial mais definida. A agroindústria, o comércio, a construção civil, o turismo e a cultura encontram espaço dentro de um mesmo ambiente.

Da primeira participação de Scapin, em 1986, à presidência de Adriana Machado, a feira passou por diferentes fases, acompanhando o crescimento de Lajeado e a ampliação da economia regional. A infância ligada à produção local, a juventude dos grandes espetáculos e a maturidade voltada aos negócios não representam rupturas, mas etapas de uma trajetória que continua em movimento.

Nascida em Lajeado, vê a presidência como uma forma de retribuir à comunidade. “Acredito que seja uma forma de contribuir voluntariamente com esse crescimento, com essa evolução da economia e dos negócios em si”, afirma.

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