Estrela 150 anos: cidade muda eixo de crescimento e vive novo ciclo econômico

Após décadas de uma pujança digna da Princesa do Vale, o município viu no pós-enchente a necessidade de se reinventar e repensar o futuro com estratégia

Por Anderson Lopes e Camille Lenz da Silva

Um marco histórico aponta o novo ciclo de crescimento de Estrela. A cidade completa 150 anos nesta quarta-feira (20/5), em meio à reconstrução e a uma mudança profunda no planejamento urbano e econômico. Depois das enchentes que atingiram o Vale do Taquari em 2023 e 2024, Estrela passou a discutir não apenas como reconstruir, mas para onde crescer.

A lógica histórica de expansão próxima ao Rio Taquari começou a dar espaço a uma nova visão urbanística, voltada à segurança climática, ocupação de áreas mais altas e revisão das estruturas econômicas da cidade.

Para a prefeita Carine Schwingel, a reconstrução passa também pela capacidade de planejar o futuro: “Cada ação adotada ao longo deste período reforça nosso compromisso com uma cidade mais preparada, humana e resiliente para as próximas gerações.”

Se por um lado a tragédia trouxe prejuízos históricos, por outro, abriu um novo ciclo econômico ligado ao recomeço. A construção civil aparece entre os setores mais aquecidos. Novos loteamentos, condomínios e empreendimentos imobiliários passaram a avançar, principalmente em regiões consideradas menos vulneráveis.

Os números da Prefeitura ajudam a explicar esse movimento. Somente em 2025, Estrela registrou a abertura de 887 empresas. Desse total, 657 são Microempreendedores Individuais (MEIs), o equivalente a 74% dos novos negócios formalizados. Na comparação com 2024, o avanço foi de 28%. Já em relação a 2016, a alta foi de 170%.

Entre microempresas, empresas de pequeno porte e demais modalidades, Estrela também vê crescimento consistente. Foram 230 novos registros em 2025, mais que o dobro das 108 empresas abertas em 2016, expansão de 113% no período.

Ao mesmo tempo, a reconstrução impulsionou setores ligados à engenharia, infraestrutura, habitação e serviços técnicos. O avanço da construção civil aparece diretamente ligado ao novo cenário urbano criado após as enchentes. O setor já representa cerca de 14% dos novos empreendimentos abertos no município em 2025.

Além disso, empresas começaram a rever localização, logística e estruturas operacionais. Pequenos empresários passaram a incorporar conceitos antes pouco debatidos fora dos grandes centros, como resiliência climática, gestão de risco e adaptação logística.

Expansão urbana planejada

O impacto das cheias trouxe consequências imediatas para comércio, indústria, logística e habitação. Empresas interromperam atividades, transferiram operações e revisaram investimentos. Famílias deixaram áreas historicamente ocupadas. O mercado imobiliário também começou a sentir uma mudança no perfil de procura.

O debate atual já não trata apenas de reconstrução física, mas de um novo modelo de cidade. Regiões consideradas mais seguras passaram a ganhar valorização imobiliária, enquanto áreas de risco entraram definitivamente no centro da discussão pública sobre ocupação urbana.

Para o empreendedor Adiel Krabbe, da Krabbe Imóveis, o crescimento de Estrela hoje é multifacetado. Na habitação, ele aponta um movimento duplo. Por um lado, o crescimento imobiliário tradicional em direção a áreas mais altas e bairros periféricos consolidados. Por outro, um redesenho social forçado pelas cheias, que acelera a habitação em zonas de cota segura. “Isso está mudando a demografia interna da cidade, criando novos núcleos residenciais longe das margens do Rio Taquari”, aponta.

Um dos símbolos deste novo momento é o Life Costão, empreendimento da Lyall Construtora. O projeto é apontado como o primeiro bairro planejado de grande porte da cidade. Prevê mais de 700 lotes entre áreas residenciais e comerciais, além de avenidas duplicadas, estacionamento lateral, áreas verdes e espaços de preservação ambiental.

De acordo com o diretor e sócio da incorporadora, Gustavo Lucchese, o empreendimento nasce dentro de uma nova lógica de desenvolvimento urbano. O projeto também prevê a construção de uma escola para acompanhar o crescimento do bairro. Conforme Lucchese, o investimento em infraestrutura ultrapassa R$ 35 milhões. A primeira etapa teve praticamente todos os terrenos comercializados, o que reflete o movimento de migração do mercado imobiliário para áreas consideradas mais seguras.

Favorecimento estratégico

Krabbe cita a forte concentração econômica ao longo da BR-386. “A rodovia consolidou-se como o principal vetor de atração de indústrias, transportadoras e centros de distribuição, aproveitando a duplicação da via”, diz.

Segundo ele, a vinda de novas empresas para a cidade continua com um potencial altíssimo, mas o perfil de atração mudou. “Estrela não vende mais apenas ‘espaço físico’; ela vende segurança jurídica, conectividade e posicionamento estratégico”, enfatiza.

Nessa frente, conforme ele, a organização do setor empresarial, através da Câmara de Comércio, Indústria, Serviços e Agronegócio (Cacis) de Estrela, entidades privadas e cooperativas) está em amadurecimento: “A cidade atrai grandes marcas de atacado, logística e agroindústria, porque oferece proximidade com a capital e o Norte do estado”.

Rodrigo Tomasi, presidente Cacis, concorda. Para ele, Estrela é um município com grande protagonismo logístico, com áreas de terra que ainda podem ser exploradas nas regiões da BR-386 e da Transantarita. “A médio e longo prazo, são regiões que ainda têm ampla infraestrutura a ser feita, possibilitando a chegada de novas empresas ou sua expansão. A Transantarita tem uma tendência grande para o desenvolvimento, devido à nova ponte entre Estrela e Cruzeiro do Sul”, cita o empresário da Tomasi Logística.

José Paulo “Juca” Richter, da Richter Gruppe, reforça a aposta dos empreendimentos na BR-386 com o 386 Business Park, às margens da rodovia. Principal empreendimento da Richter Gruppe em Estrela, o parque de negócios fomenta um ecossistema empreendedor de inovação e tecnologia.

“A BR-386 é uma das rodovias mais estratégicas do Rio Grande do Sul, com fluxo de cerca de 30 mil veículos por dia. Estrela está no centro geográfico do estado, a caminho de Porto Alegre, Caxias do Sul, Passo Fundo e Santa Maria. Dentro de um raio de 200 quilômetros, concentra mais de 50% do PIB e da população gaúcha. Isso posiciona o 386 Business Park como uma vitrine de nível estadual e nacional, conectando rotas também ao Uruguai e à Argentina”, relata.

Hoje, o local sedia empresas como a STW, o Grupo Medical San, a Parrillero 386, o posto de combustíveis RodOil, Pátio Strip Mall, Bouwman (agro) e uma agência Sicredi (em obras).


Medical San foi um dos primeiros empreendimentos a apostar no 386 Business Park / Crédito: Divulgação

Juca aponta que o empreendimento foi entregue em abril de 2021, antes das enchentes de 2024, o que demonstra uma aposta estratégica anterior à crise.

“A interrupção da ponte pode ter reforçado a percepção da importância de Estrela como polo logístico e comercial independente, mas o projeto já estava fundado na vocação natural da cidade como entroncamento da BR-386. As enchentes não detiveram os investimentos; pelo contrário, a retomada e o crescimento seguiram”, afirma Richter.

Novo Plano Diretor

Tomasi acredita que a cidade está mais preparada para novas enchentes, apesar de ainda não o suficiente. “Mas já percebemos que investimentos grandes não são mais feitos em áreas inundáveis e que os empresários reinvestiram praticamente tudo aquilo que perderam, pois acreditam em um comércio e indústria mais fortes”, diz.

Entre os principais movimentos deste novo momento está a revisão do Plano Diretor municipal. O debate ganhou força após as enchentes e passou a envolver estudos técnicos sobre áreas inundáveis, reorganização territorial e planejamento urbano voltado à prevenção de futuros desastres climáticos.

O trabalho ocorre junto a órgãos estaduais e instituições técnicas, dentro do contexto regional de reconstrução do Vale do Taquari. Mais do que limitar construções, a revisão busca criar uma cidade mais preparada para eventos extremos.

Em médio prazo, Adiel Krabbe afirma que Estrela precisa consolidar o novo planejamento. “Modificar o Plano Diretor tem urgência máxima e inadiável, pois o antigo não reflete mais a realidade climática e geográfica da região”, diz. Sem revisar onde se pode ou não construir, corre-se o risco de uma expansão desordenada que repita erros do passado, desvalorize investimentos imobiliários e coloque vidas em risco.

“O novo texto precisa incentivar o adensamento vertical e horizontal em áreas seguras, desburocratizar o licenciamento para novos distritos industriais na BR-386 e prever cotas rígidas de inundação para novos empreendimentos”, defende ele.

No longo prazo, Adiel afirma que Estrela deve se posicionar como o maior hub logístico e tecnológico do interior do estado. Para isso, precisa integrar efetivamente o modal rodoviário, ferroviário e hidroviário (pelo potencial do Porto), além de se tornar referência em sustentabilidade urbana.

Para o presidente da Câmara de Vereadores de Estrela, Daniel da Silva, projetos como a reestruturação de áreas estratégicas, a exemplo da região da Polar, mostram que a cidade tem potencial para gerar novos empregos e oportunidades. “Principalmente para novos polos industriais, logísticos e comercias, onde a pauta parte da Câmara de Vereadores, com a discussão e projeção do novo Plano Diretor”, cita ele.

Ele acredita que o papel dos vereadores é fundamental, a partir da legislação, fiscalização, escuta da comunidade e auxílio na construção de caminhos viáveis para o desenvolvimento.

Segundo Daniel, o Plano Diretor é um dos temas mais importantes nesse debate, porque define para onde a cidade pode crescer, como pode crescer e com quais cuidados. Mas é preciso equilíbrio: “Não podemos travar o desenvolvimento urbano, mas também não podemos ‘afogar’ a agricultura, que faz parte da identidade, da economia e da história de Estrela”, defende o presidente.

Para ele, a cidade precisa crescer com inteligência. Isso significa permitir novas áreas de habitação, indústria e comércio, mas preservar a vocação rural, respeitar quem produz e garantir que o avanço urbano não aconteça de forma desordenada. “Não basta a cidade crescer em números. Ela precisa crescer em qualidade de vida, em oportunidades e em cuidado com as famílias”, situa.


Conclusão do Plano Diretor é defendida como fundamental para o crescimento ordenado da cidade / Crédito: Divulgação

Próximos passos decisivos

No curto prazo, o mais importante para o presidente do Legislativo é garantir a reconstrução, a retomada da infraestrutura atingida pelas enchentes e serviços públicos em funcionamento e com qualidade.

Para Adiel Krabbe, o passo mais decisivo para Estrela é a conclusão dos planos de habitação para as famílias atingidas pelas enchentes, a recuperação total da infraestrutura urbana destruída e o suporte imediato para a manutenção de empregos no comércio e na indústria local.

No médio prazo, Silva defende que Estrela precisa consolidar projetos estruturantes: melhorias na mobilidade, atração de empresas, geração de empregos, fortalecimento do turismo, da educação e da qualificação profissional.

No longo prazo, o desafio é preparar a cidade para ser mais moderna, segura e resiliente. “Que cresça sem perder sua essência, valorize sua história e tenha coragem de planejar os próximos 20 ou 30 anos”, aponta.

Para Silva, Estrela se torna mais resiliente quando aprende com tudo o que viveu. “As enchentes mostraram que não basta reconstruir igual; precisamos reconstruir melhor”, diz. Isso passa por planejamento urbano, revisão de áreas de risco, obras de drenagem, sistemas de alerta, Defesa Civil fortalecida, infraestrutura mais preparada e uma cidade pensada para enfrentar eventos climáticos extremos.

O vereador acredita que, historicamente, as tragédias consolidam novos caminhos de futuro. Exemplifica com a cheia de 1940, que projetou a BR-386 por necessidade, quando antes o grande centro de distribuição da safra era o próprio Rio Taquari. “Agora, a história se repete e nos mostra que precisamos da nova ligação via Cruzeiro do Sul”, conclui.

Conforme Adiel Krabbe, este é o momento de transformar os aprendizados da crise em diferenciais competitivos (como transição para energia limpa e logística inteligente).

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