Um convite para tomar leite de égua no Quirguistão mudou o rumo da vida de Antônio Carlos Lenzi, o Toco Lenzi. O que seria apenas uma viagem até a Ásia Central se transformou em uma expedição de 7 anos por 27 países de cinco continentes, sempre sobre duas rodas. Em entrevista e encontros, compartilhou histórias que misturam aventura, geografia, história, cultura e encontros humanos. A jornada começou em agosto de 2019 e segue marcada pela convicção de que o mundo se revela quando o viajante aceita sair da própria zona de conforto.
Toco cruzou desertos, montanhas, ilhas, florestas e fronteiras. Enfrentou problemas mecânicos, guerras, burocracias, longas travessias de ferry e mudanças de planos. Em cada parada, encontrou culturas diferentes e pessoas dispostas a ajudá-lo. “O mundo é muito legal. As pessoas são muito legais. Só precisa ter respeito pelas pessoas”, resumiu.
Ele viveu por 7 meses em um camping da Austrália durante a pandemia. Conseguiu um visto para ingressar no Timor Leste, onde ficou por 2 anos convivendo e registrando o período da Covid-19. Com as fronteiras reabertas, o fotógrafo, cinegrafista e videomaker seguiu sua caminhada.
A Indonésia representou uma das fases mais marcantes da jornada. O motociclista permaneceu cerca de 4 meses no país e percorreu ilhas com tradições religiosas distintas. Ele observou comunidades católicas, muçulmanas e hindus convivendo em um mesmo arquipélago. Em uma ilha católica, chamou sua atenção o costume de construir túmulos na frente das casas. “A gente enterra aqui porque fica sentado à tarde conversando com eles”, ouviu dos moradores.
Foi também na Indonésia que ele percebeu mudanças provocadas pelas redes sociais no turismo. Ao visitar a Ilha de Komodo, viu dezenas de pessoas aguardando apenas o momento da fotografia diante do famoso dragão. “Eu achei que as pessoas iam melhorar, mas a coisa estava pior”, afirmou ao recordar a experiência.
Mesmo distante do Brasil, Toco continuou conectado às escolas. Ele realizava videoaulas diretamente dos países visitados. A iniciativa despertou interesse entre estudantes. “Depois das tuas palestras, os meninos têm mais interesse em ver as coisas porque tem essa ligação de quem está viajando”, relataram professores.
A solidariedade apareceu repetidamente durante a expedição. Quando a motocicleta apresentou problemas mecânicos na Indonésia, concessionárias da Royal Enfield mobilizaram equipes para reparar a moto e permitir que ele seguisse viagem. No Camboja, outra concessionária realizou uma revisão completa sem cobrar pelo serviço. O proprietário explicou que conhecia as dificuldades enfrentadas por viajantes de longa distância.
Na Ásia, Toco também descobriu a força da comunidade motociclística. Em Brunei, grupos locais o receberam, apresentaram o país e o hospedaram durante uma semana. A experiência mudou sua visão sobre esse universo. “Eu comecei a entender o que é o motociclismo. Todo mundo se ajuda.”
Brunei também chamou atenção por outro aspecto. O viajante encontrou um país sem sinais aparentes de miséria e sustentado pela renda do petróleo e do gás. Segundo ele, os moradores recebem educação, saúde e moradia gratuitas, enquanto empresas estrangeiras precisam capacitar trabalhadores locais antes de encerrar suas operações.
A travessia pela Rússia ocorreu durante um período de guerra, mas antes do fechamento completo do país aos estrangeiros. O brasileiro enfrentou longos interrogatórios nas fronteiras e passou horas explicando documentos, celulares e equipamentos eletrônicos. Em alguns momentos, agentes o questionaram sobre drones, fotografias e deslocamentos pela rodovia Transiberiana.
Apesar das dificuldades, o acolhimento surpreendeu. Motoclubes russos organizaram recepções em praticamente todas as cidades. Integrantes ofereciam hospedagem, refeições e ajuda mecânica. “Onde eu chegava, me levavam para uma festa”, contou. Segundo ele, existia uma rede de apoio formada por motociclistas que compartilhavam casas, oficinas e pontos de encontro por meio de um aplicativo.
Na Sibéria, Toco também encontrou outro lado da realidade. Ele percebeu cemitérios com muitas sepulturas recentes e ouviu, pela primeira vez, críticas à guerra. Uma família da República da Buriátia afirmou ser contrária ao conflito e lamentou a perda da própria identidade cultural. O viajante permaneceu cerca de duas semanas com os moradores e conheceu costumes preservados havia gerações.
A Mongólia trouxe outro contraste. Sem estradas em muitos trechos, o país apresentou paisagens abertas, famílias nômades e hospitalidade espontânea. Em diferentes acampamentos, moradores ofereceram abrigo, comida e companhia, mesmo sem falar a mesma língua. “A gente ria de tudo na mímica. Ninguém entendia o outro, mas era uma felicidade.”
Cinco anos depois de receber o convite que iniciou toda a aventura, Toco finalmente atravessou a fronteira do Quirguistão. Os amigos que o haviam incentivado já não estavam mais no país, mas ele fez questão de cumprir a promessa. Visitou uma fazenda e experimentou o tradicional leite de égua diretamente da ordenha. “Eu vim honrar esse compromisso.”
Naquele momento, ele acreditava ter encerrado o maior objetivo da viagem. Pouco depois, decidiu ampliar novamente o horizonte. “Eu falei: quer saber? Eu vou dar uma volta ao mundo. Vou com essa moto até o Brasil.”

Volta ao Mundo concluída com 85 mil quilômetros / Crédito: Lucas Leandro Brune
Parada pela irmã
O retorno foi interrompido por uma notícia inesperada. Sua irmã sofreu um grave acidente de trânsito no Brasil. Toco deixou a motocicleta guardada no Quirguistão, voltou de avião e permaneceu cinco meses ao lado dela durante a recuperação. Somente depois retomou a expedição.
Ao olhar para trás, o viajante conclui que os quilômetros percorridos representam apenas parte da experiência. Para ele, a verdadeira riqueza surgiu dos encontros, das culturas conhecidas e das histórias construídas pelo caminho. “Missão cumprida”, definiu ao recordar a chegada ao Quirguistão, destino que transformou uma simples viagem em uma jornada ao redor do mundo.
De volta à América
Passou por diferentes países da Ásia e Europa. Como passou pela Rússia, decidiu ir para a Ucrânia para ouvir “o outro lado da guerra”, entrevistou pessoas e sentiu o pavor de bombardeios na capital Kiev. Quando estava na África, conseguiu um meio de enviar sua moto para a América do Sul; mas precisou retornar a Madrid (Espanha), de onde enviou a Gadara para o Chile.
De lá seguiu rodando, cruzando a Cordilheira dos Andes e a Argentina. A chegada na fronteira e a entrada via São Borja trouxe Toco Lenzi até Teutônia. Acolhido pelo motoviajante Alexandre Gerhardt, permaneceu duas semanas na cidade. Palestrou por 4h para 20 pessoas em Teutônia, organizou imagens, abasteceu o aplicativo e palestrou na capital do Estado. Agora, Toco Lenzi levará a Gadara para uma viagem pelo Brasil antes de aposentá-la no Museu do Movimento, em São Paulo.
Vida de expedições
1. Histórico
Trajetória: Toco começou a viajar aos 13 anos em viagens de kombi com o cunhado. Aos 15 anos fez sua primeira viagem a Machu Picchu, trazendo casacos para vender e financiar novas viagens.
Carreira audiovisual: Trabalhou como fotógrafo para veículos como a Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, e fez 40 documentários para canais de TV a cabo (como a Fox e National Geographic). Era chamado para missões de alta complexidade e risco, como mergulhos em cavernas no México ou a cobertura do terremoto no Haiti.
Expedições marcantes: Participou da expedição de volta ao mundo sem escalas na Calota Polar Antártica junto com Amir Klink (88 dias navegando no veleiro). Realizou mais de 60 expedições, incluindo travessias na Amazônia (Vale do Rio Javari) e no deserto do Saara.
2. O Acidente, a Pausa e o Ponto de Virada
Acidente Grave (2010): Em São Paulo, sofreu um acidente de moto no qual fraturou 28 ossos, passando por 4 cirurgias e 2 anos de recuperação.
Cuidado dos Pais: Afastou-se das expedições entre 2010 e 2018/2019 para cuidar dos pais, que sofriam de declínio cognitivo (pai faleceu em 2017 e mãe, em 2018).
O Convite: Em 12 de março de 2019, no seu aniversário, amigos viajantes de bicicleta enviaram uma mensagem do Quirguistão convidando-o para tomar o tradicional leite de égua. Toco decidiu ir até o Quirguistão de moto.
Superação do Trauma: Incentivado pelo pai (ex-militar) a voltar a andar de moto para perder o medo do acidente, escolheu a moto por ser o único veículo viável financeiramente.
3. A Logística da Viagem e a Etapa Oceania
A Moto “Gadara”: Comprou uma Royal Enfield Himalayan recém-chegada ao Brasil.
Documentação: Obteve o documento de importação temporária (Carnê de Passagem) necessário para entrar na Austrália junto ao Touring Clube da Suíça.
Envio da Moto: Enviou a moto de avião de Buenos Aires para Sydney em janeiro de 2020.
Pandemia de Covid-19 (2020–2022): A caminho de Darwin, no norte da Austrália, as fronteiras fecharam. Toco viveu durante 7 meses acampado numa barraca num camping em Darwin. Em seguida, conseguiu visto para o Timor Leste, onde permaneceu por 2 anos como o único turista do país.
Aulas On-line: Durante o isolamento, criou um projeto de palestras e videoaulas “Viajando e Aprendendo”, via Zoom, sobre suas viagens para escolas no Brasil.
4. Mudança na Filosofia de Viagem e Cidadania
Desapego: Vendeu todos os seus pertences no Brasil via “Bazar do Desapego”. Passou a viajar devagar, sem roteiro rígido, aceitando convites de moradores locais ao longo do caminho.
Cidadania Italiana: Em 2021, teve sua cidadania reconhecida (seus bisavôs emigraram de Lucca, na Itália, em 1890). Adquiriu um pequeno motorhome na Europa e viajou com sua irmã Regina, experiência que a motivou a mudar de vida.
5. Passagem pela Rússia, Guerra na Ucrânia e Ásia Central
Rússia e Interrogatórios: Em 2024, enviou a moto para Vladivostok. Foi acolhido por clubes de motociclistas russos. Acabou detido e interrogado pelo serviço de segurança (FSB) por 8 horas devido a filmagens com drone, posse de dois passaportes, três celulares e chips.
Ucrânia: Decidiu ir à Ucrânia durante o conflito para ouvir o outro lado da história. Em Kiev, produziu reportagens e entrevistas em português com moradores locais, acumulando milhões de visualizações no Brasil.
Comunicação: Utilizou aplicativos de tradução instantânea e mímica (como nos 2 dias vividos numa tenda com nômades no Deserto de Gobi, na Mongólia).
A Chegada: Chegou ao Quirguistão em agosto de 2024 – 5 anos após o convite inicial – e cumpriu a promessa de tomar o leite de égua.
6. Orçamento e Encerramento
Planejamento financeiro: Manteve um orçamento médio de R$ 4.000 por mês (oriundo do aluguel da casa dos pais e de aulas). Em mais de 2.500 dias de viagem, passou cerca de 100 dias acampando.
Retorno à América do Sul: Teve o frete aéreo da moto (Madri/Espanha a Santiago do Chile) custeado pelo motociclista Ricardo Ruben como gesto de gratidão por ajudas prestadas durante a viagem.
Projeto Atual e Futuro da Moto:
a) Lançou o aplicativo Livro em Movimento (Tocoflix), reunindo episódios da viagem e de sua vida.
b) O nome da moto, “Gadara”, significa “do alto de uma montanha” em armênio.
c) Após fazer um tour pelo Brasil, a moto Gadara será doada para o acervo permanente do Museu das Duas Rodas / Museu do Movimento, em São Paulo.

