A violência contra a mulher e o feminicídio deixaram de ser apenas tema de noticiários para se tornar pauta permanente de reflexão dentro da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Leopoldo Klepker, em Teutônia.
Desde março, cerca de 80 alunos dos oitavos e nonos anos participam de um projeto-piloto multidisciplinar que utiliza a educação como ferramenta de conscientização e prevenção da violência doméstica.
A iniciativa envolve as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, além de debates sobre direitos das mulheres, Lei Maria da Penha, feminicídio e relações de respeito. O trabalho é conduzido pelos professores Douglas Eraldo e Lisandra Benini Mariani, com apoio da direção da escola.
De acordo com o professor Douglas, o feminicídio é compreendido como o estágio final de um ciclo de violência estrutural e cultural. “Entendemos que problemas culturais se resolvem com debate, conhecimento e educação. A escola é um dos principais espaços para essa construção”, afirma.
A escolha pelos oitavos e nonos anos ocorreu por envolver adolescentes de 13 e 14 anos, faixa etária considerada estratégica para trabalhar valores de respeito, empatia e prevenção. Durante as atividades, os estudantes analisam dados estatísticos sobre violência contra a mulher, pesquisam reportagens, produzem materiais informativos e desenvolvem documentários.
O projeto também estimula a leitura crítica e o combate à desinformação, com foco na verificação de fontes e na compreensão do contexto histórico que levou à criação de legislações de proteção às mulheres.
A professora Lisandra destaca que o envolvimento dos alunos superou as expectativas. “Muitas turmas se empenharam. Eles traziam reportagens, questionamentos e reflexões. Os dados sobre violência contra a mulher causaram forte impacto e ajudaram a compreender a dimensão do problema”, relata.
O tema revelou situações mais próximas da realidade dos estudantes do que a escola imaginava inicialmente. “Muitas conversas continuavam depois das aulas. Algumas alunas procuraram a direção para conversar sobre situações envolvendo familiares e pessoas próximas. Isso mostrou a importância de abrir espaço para esse debate”, ressalta a educadora.
A diretora Evanete Inês Horst Grave afirma que o projeto reforça o papel social da escola diante de problemas que afetam diretamente a comunidade: “É um problema social, mas a escola os absorve. Quando abrimos espaço para o diálogo, percebemos o quanto esse assunto já faz parte da realidade de muitos estudantes.”

Crédito: Anderson Lopes
Acolhimento e prevenção
Uma das ações desenvolvidas pelos alunos será destinada à Sala das Margaridas, espaço especializado de acolhimento para mulheres em situação de violência. Os estudantes produzem cartas e mensagens de apoio que ficarão disponíveis para mulheres atendidas no local, situado junto à Polícia Civil de Teutônia.
A iniciativa ganhou reforço com a participação do delegado Rogério Auler, que apresentou aos estudantes o chamado ciclo da violência contra a mulher. Ele explicou que o feminicídio não ocorre de forma repentina, mas resulta de uma sequência de comportamentos abusivos que precisam ser identificados precocemente.
“Controle excessivo, humilhações, xingamentos e comportamentos possessivos podem ser sinais iniciais de uma relação abusiva. Em muitos casos, essa violência evolui e pode chegar ao feminicídio. O conhecimento permite reconhecer situações de risco e buscar ajuda”, destaca.
Para o delegado, conscientizar adolescentes é uma forma de atuar na prevenção e construir uma cultura de respeito para o futuro.
Evanete também ressalta a importância do trabalho desenvolvido pela equipe pedagógica. “Mudamos a sociedade através da conscientização. Eles precisam compreender o tema para fazer escolhas mais acertadas no futuro. A prevenção é a base de qualquer projeto que acontece dentro da escola”, afirma ela.
O secretário municipal de Educação, Evandro Biondo, acompanhou a apresentação dos trabalhos e destaca que a iniciativa fortalece ações já desenvolvidas pelo Município no enfrentamento à violência contra a mulher.
“O feminicídio não é um ato isolado. Ele é resultado de uma sequência de situações que precisam ser interrompidas antes de chegarem ao extremo. O Município já desenvolve ações como o Banco Vermelho e a Sala das Margaridas, e a educação tem papel fundamental nesse processo de conscientização”, aponta.
Biondo também elogia a atuação da equipe da escola Leopoldo Klepker e afirma que o projeto pode inspirar outras unidades da rede municipal.
Ao unir educação, pesquisa, análise de dados, reflexão histórica e acolhimento, o projeto demonstra que a prevenção da violência contra a mulher começa muito antes dos registros policiais.
Mais do que trabalhar conteúdos curriculares, a iniciativa busca formar jovens capazes de reconhecer sinais de violência, questionar discursos de ódio e construir relações baseadas no respeito.
Para educadores, gestores públicos e autoridades de segurança, investir na conscientização desde a adolescência é uma das formas mais eficazes de evitar que a violência doméstica alcance seu desfecho mais trágico, o feminicídio.

Crédito: Gustavo Tomasi

