Movimentos contra bets alertam para saúde mental e financeira

Iniciativas tentam restringir jogos, enquanto levantamento aponta crescimento dos afastamentos do trabalho por transtornos relacionados

O crescimento exponencial das apostas on-line e as consequências para a saúde mental e financeira da população provocam reação na sociedade. Movimentos nacionais e estaduais defendem restrições mais rígidas ao setor, enquanto empresários e entidades médicas observam sinais crescentes de problemas associados ao hábito de apostar.

O tema ganhou visibilidade com iniciativas como a campanha Brasil Contra Bets, que defende a proibição dos jogos considerados de alto risco e a restrição da publicidade das plataformas de apostas on-line.

Defensores da proposta argumentam que o crescimento acelerado do setor tem contribuído para o aumento do endividamento das famílias brasileiras e para o agravamento de problemas emocionais e psicológicos.

No meio empresarial, os reflexos do crescimento das chamadas bets preocupam entidades do setor. Presidente da Associação Comercial e Industrial de Lajeado (Acil), Eduardo Gravina destaca relatos de empresários sobre funcionários endividados. Segundo ele, os registros incluem trabalhadores que recorrem a empréstimos, inclusive consignados, para tentar quitar dívidas acumuladas em plataformas de jogos.

Apesar disso, ele entende que a proibição total das apostas pode não ser a solução mais eficaz. “O fortalecimento da regulamentação e a restrição da publicidade poderiam representar um caminho semelhante ao adotado em relação ao cigarro, de forma a reduzir a exposição da população sem estimular a migração para mercados ilegais”, considera.

Em nível estadual, entidades como a Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul) ampliam movimento que visa aumentar as restrições às apostas.

Em manifesto publicado nas redes, o presidente da entidade, Rodrigo Sousa Costa, afirma que as apostas viciam, e o vício em jogos eletrônicos está destruindo famílias. “Pais e mães gastam todo o dinheiro que ganham em jogos, porque não conseguem mais se controlar. Falta dinheiro à mesa das pessoas. Muitos estão trocando alimentos por apostas”, relata ele.

Para Costa, não se pode exigir responsabilidade de pessoas que já tiveram sua vontade distorcida por um vício. Por isso, é necessário uma restrição severa à publicidade das bets. “É um vício que entra em nossas casas por meio dos celulares, contamina futuras gerações e influencia crianças e adolescentes que, muitas vezes, apostam utilizando o CPF dos pais e acreditam que isso é apenas uma brincadeira”, alerta o presidente.

Ele destaca ainda ocorrências de desvios dentro de empresas, cometidos por indivíduos que eram sérios, mas tiveram seus valores morais corrompidos pelo vício e, no desespero das dívidas, ingressaram no mundo do crime. Para o presidente da Federasul, o Congresso Nacional precisa se posicionar e estabelecer uma política pública capaz de enfrentar esse problema.

Alerta médico

O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) também emitiu alertas sobre os problemas provocados pelas bets. A entidade divulgou parecer no qual aponta impactos das apostas esportivas sobre a saúde mental da população, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

No documento, o Conselho destaca que as apostas esportivas estão associadas a prejuízos financeiros, psicológicos, profissionais e sociais. O parecer cita estudos que apontam maior incidência de depressão, ansiedade e impulsividade entre pessoas com problemas relacionados ao jogo, além de aumento do risco de consumo abusivo de álcool e de pensamentos suicidas.

Conforme o Cremers, a exposição constante às propagandas pode contribuir para a normalização do hábito de apostar e aumentar a vulnerabilidade de jovens, considerados o grupo mais suscetível aos riscos do jogo compulsivo. A entidade defende o debate público sobre os efeitos das apostas e alerta para os prejuízos financeiros e de saúde observados no país.

Reação no parlamento

Na terça-feira (9/6), a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou por unanimidade projeto de lei de autoria do deputado estadual Gustavo Victorino, que cria o Programa de Combate ao Vício em Apostas e Jogos de Azar.

A proposta prevê ações de prevenção, conscientização e encaminhamento para tratamento de pessoas afetadas pela ludopatia, condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno caracterizado pela compulsão em jogar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e sociais.

Afastamentos do trabalho

Números de pesquisa nacional desenvolvida pela empresa VR corroboram as preocupações do setor produtivo. O estudo identificou afastamentos do trabalho relacionados a transtornos decorrentes de jogos e apostas, totalizando 976 dias de ausência. Em alguns casos, o período longe das atividades chegou a 89 dias consecutivos.

Os dados apontam que a maior parte dos afastamentos está associada ao CID F63.0, classificação utilizada para o chamado jogo patológico.

Diretor-executivo de Pessoas, Jurídico e Governança da VR, Willian Gil afirma que o crescimento observado em 2025 chama atenção, não apenas pelo aumento do número de casos, mas também pelo tempo de afastamento registrado. “Os números reforçam a importância de as empresas acompanharem com mais atenção os impactos que determinadas dinâmicas sociais e comportamentais podem gerar na saúde e na rotina dos trabalhadores”, aponta.

Segundo ele, o mais importante nesse contexto é usar os dados para ampliar a capacidade de prevenção, acolhimento e tomada de decisão dentro das organizações.

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