Acordo histórico prevê indenizações e transformação das áreas de risco no Vale do Taquari

Termo firmado entre Estado, Ministério Público e nove municípios cria modelo inédito de retirada definitiva de moradores de zonas de arraste e aposta em requalificação urbana baseada em ciência e adaptação climática.

O governo do Rio Grande do Sul formalizou em Lajeado um acordo considerado inédito para enfrentar um dos temas mais sensíveis deixados pelas enchentes no Vale do Taquari: o destino das áreas que passaram a ser consideradas inseguras para reocupação.


Assinado pelo governador Eduardo Leite, pelo procurador-geral de Justiça, Alexandre Saltz, e por representantes municipais, o termo estabelece um modelo articulado entre Estado, Ministério Público e prefeituras para indenizar moradores atingidos e retirar definitivamente ocupações localizadas em áreas de alto risco hidrológico.

Termo assinado em Lajeado prevê retirada definitiva de ocupações em áreas de alto risco e transformação dos espaços em parques lineares. Créditos: Anderson Lopes


O Plano Integrado de Requalificação Urbanística do Vale do Taquari (PIR) prevê três etapas principais: indenização e desocupação dos imóveis; limpeza e recuperação dos terrenos e requalificação dos espaços para usos compatíveis com futuras cheias.

O PIR abrangerá nove municípios: Roca Sales, Encantado, Muçum, Lajeado, Arroio do Meio, Colinas, Estrela, Cruzeiro do Sul e Venâncio Aires. São contempladas 32 áreas de interesse de requalificação urbana, que resultam em 17,61 quilômetros quadrados de área total (57,1% em zona urbana e 42,9% em zona rural).

O investimento estimado é de R$ 192 milhões para aquisição e indenização de imóveis urbanos e rurais. Os valores devem variar entre R$ 25 mil e R$ 240 mil, conforme critérios técnicos definidos para cada propriedade.

Após a indenização, os terrenos serão incorporados aos municípios e destinados à criação de parques lineares, áreas públicas de convivência, amortecimento das cheias ou usos compatíveis com a dinâmica natural dos rios.

Acordo estabelece repasse de recursos aos municípios para indenizar famílias e reorganizar áreas vulneráveis às cheias.

A assinatura representa a etapa de um processo iniciado ainda nos meses posteriores às enchentes, quando começaram os levantamentos sobre quem poderia retornar, quem seria atendido por programas habitacionais e quem permaneceria sem solução definitiva.

Ao longo desse período, uma sucessão de programas – compra assistida, aluguel social, residências provisórias e empreendimentos habitacionais – buscou responder à emergência. Mas, na prática, ficaram lacunas. Famílias que não se enquadraram em critérios de renda, proprietários que já haviam sido contemplados anteriormente por políticas públicas, moradores em situação documental complexa e casos de imóveis parcialmente atendidos prolongaram um cenário de insegurança.

MP assume mediação

Durante o ato, integrantes do Ministério Público, como o promotor de Justiça Sérgio Diefenbach, destacaram que o trabalho deixou de ser apenas jurídico para assumir também uma dimensão social. Segundo ele, acompanhar as comunidades atingidas significou conviver diariamente com relatos de perda, incerteza e sofrimento emocional.

Relatório das propriedades, marcações das áreas de risco e monitoramento seguem preceitos e embasamentos científicos para plano inédito de resiliencia climática

Diefenbach descreveu o processo como uma tentativa permanente de transformar demandas individuais em políticas públicas coordenadas. Além de acompanhar indenizações e garantir segurança jurídica ao processo, o órgão participou do mapeamento territorial, da organização dos cadastros e da mediação entre diferentes programas habitacionais.

Obras de contenção, retirada estratégica

Em vez de apostar exclusivamente em obras de engenharia para conter a água, o novo modelo reconhece que existem áreas onde permanecer deixou de ser viável. São os locais classificados tecnicamente como áreas de arraste ou zonas de passagem de cheia, territórios onde a força da inundação torna recorrente o risco de destruição. O mapeamento dessas áreas foi realizado com apoio técnico e científico, incluindo estudos produzidos pela Univates e outros levantamentos especializados.


Monitoria e combate à reocupação

Um dos pontos considerados estratégicos do acordo será o monitoramento contínuo das áreas desocupadas. O Estado anunciou que utilizará sistemas de acompanhamento por satélite para identificar ocupações irregulares e evitar que imóveis indenizados voltem a receber moradias.

A medida busca impedir que o investimento público resulte na recriação de situações de risco. O controle técnico também será usado para validar informações cadastrais e cruzar bases de dados que permitam acelerar os pagamentos sem abrir mão da segurança jurídica.
O modelo abandona uma lógica sequencial e tenta fazer etapas ocorrerem em paralelo: vistoria, validação documental, avaliação e homologação.

O governador Eduardo Leite defendeu que reconstrução e adaptação climática exigem continuidade institucional e planejamento que ultrapasse governos. Ele reforçou que as decisões adotadas estão apoiadas em comitês científicos, universidades e órgãos técnicos, e argumentou que eventos extremos não possuem soluções imediatas ou intervenções milagrosas.

A estratégia estadual prevê incorporar os aprendizados das enchentes aos planos diretores municipais, aos sistemas de proteção e às futuras políticas urbanas. A ideia central é transformar um desastre sem precedentes em um novo modelo de ocupação territorial.

Mais Notícias

Tópicos Relacionados:

Publicações do Autor

Docile lança livro e celebra os 35 anos junto aos 90 anos de Nestor Heineck

Poucas empresas conseguem atravessar gerações mantendo vivos os valores que deram origem ao negócio. Menos ainda chegam ao mercado internacional sem perder a identidade....

El Niño ganhará intensidade

Para o meteorologista e autor da MetSul, Luiz Fernando Nachtigall, a enchente da semana passada foi apenas o começo de um período de altíssimo...

Sucessão sustentável com foco em manter a essência

A sucessão familiar, a permanência dos jovens no campo e as mudanças climáticas seguem entre os principais desafios da agricultura familiar no Vale do...

Motoristas que movem o Brasil e conectam a produção do Vale

Em um país onde mais de 60% das cargas são transportadas pelas rodovias, o motorista profissional é peça fundamental para manter a economia em...