As apostas online ganharam espaço na rotina de muitas pessoas e, com a ampla divulgação das chamadas bets, o comportamento de apostar passou a fazer parte do cotidiano de diferentes públicos. O que começa como entretenimento, no entanto, pode evoluir para uma relação problemática e provocar prejuízos financeiros, familiares e emocionais.
A psicóloga Ketlin de Siqueira Duarte, especialista em dependência química e dependência comportamental, explica que um dos principais fatores que contribuem para o avanço das apostas é a facilidade de acesso. “Hoje você tem na palma de sua mão o celular, então você pode apostar tanto em casa quanto no trabalho, em qualquer ambiente”, afirma.
O problema não está simplesmente em apostar ou perder dinheiro, mas na relação estabelecida com o jogo e na perda de controle sobre o comportamento. O transtorno pode provocar consequências que vão muito além das dívidas, atingindo relacionamentos conjugais e familiares e provocando sentimentos como culpa e vergonha. Em situações mais graves, também pode estar associado a pensamentos suicidas.
Quando o entretenimento vira problema
A expectativa de ganhar é um dos elementos que pode contribuir para a manutenção do comportamento. As apostas trabalham com um mecanismo de reforço intermitente, no qual a pessoa pode ganhar algumas vezes e perder em outras. Essa imprevisibilidade acaba estimulando a continuidade das apostas.
“Muitas vezes começa nessa questão de motivação, de prazer. Não é só o prazer de ganhar, mas a probabilidade de ganhar”, explica Ketlin. Segundo ela, esse mecanismo pode fazer com que a pessoa continue apostando mesmo depois de acumular perdas, na expectativa de recuperar o dinheiro.
O transtorno de jogo é considerado uma dependência comportamental. Diferentemente da dependência química, não existe uma substância envolvida. Nesse caso, o próprio comportamento de apostar passa a ocupar um espaço excessivo na vida da pessoa.
A facilidade de acesso também dificulta a percepção do problema. Uma pessoa pode estar ao lado da família, participando de uma conversa ou realizando atividades cotidianas, enquanto utiliza o celular para apostar. Com o avanço do comportamento, podem surgir impulsividade, irritação, mentiras e omissões para conseguir dinheiro, além da busca por empréstimos e, em casos extremos, por agiotas.
Sinais de alerta
A perda de controle é um dos principais sinais de que o hábito deixou de ser apenas uma forma de entretenimento. A pessoa pode começar a apostar e não conseguir parar, além de apresentar alterações no sono e no humor, especialmente diante das perdas ou quando não consegue realizar uma aposta.
O problema pode atingir pessoas de diferentes idades e classes sociais. Embora a prática clínica e os estudos apontem uma presença significativa do transtorno entre homens, mulheres também podem desenvolver uma relação problemática com as apostas e sofrer consequências em diferentes áreas da vida.
Parte da questão está relacionada à dificuldade de lidar com as próprias emoções. Situações como frustrações, tristeza, irritabilidade, término de relacionamento, luto ou conflitos conjugais podem levar algumas pessoas a buscar nas apostas uma forma disfuncional de regulação emocional.
Família também é afetada
Reconhecer o problema costuma ser uma das etapas mais difíceis. A pessoa pode negar ou minimizar o comportamento e passar a omitir informações e mentir para esconder as apostas e as perdas. Muitas vezes, a percepção da gravidade só ocorre depois que os prejuízos financeiros ou emocionais já são significativos.
O papel da família nesse processo deve ser de apoio, e não de punição. “O importante é cuidar com as palavras. Não é vigiar, não é punir, não é culpar, mas realmente entender que é um transtorno. Se ele tem um transtorno, ele não tem culpa desse transtorno, mas tem responsabilidade perante o tratamento e perante as consequências que foram afetadas também na família”, destaca.
Os familiares também precisam cuidar da própria saúde emocional. Diante dos prejuízos financeiros e das dificuldades provocadas pelo transtorno, a família pode acabar adoecendo junto e também pode buscar acompanhamento psicológico.
Tratamento
O tratamento pode envolver acompanhamento psicológico e, quando necessário, avaliação psiquiátrica. Entre as abordagens da psicologia, a Terapia Cognitivo-Comportamental, conhecida como TCC, é apontada como uma das mais indicadas para o tratamento do transtorno de jogo.
A abordagem trabalha a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Um exemplo é o pensamento de que uma nova aposta permitirá recuperar o dinheiro perdido. Esse pensamento pode gerar ansiedade e frustração, levando novamente ao comportamento de apostar. “Na TCC, nós olhamos justamente os pensamentos, as emoções e os comportamentos. É lidar com esse espaço entre a emoção e o comportamento. Tem um espaço em que você pode saber lidar e realmente escolher o melhor para si”, explica.
O tratamento também busca oferecer estratégias práticas para que o paciente consiga aplicar no cotidiano o que é trabalhado durante as sessões. O objetivo é desenvolver alternativas mais funcionais para lidar com as emoções e aumentar a distância entre a pessoa e as apostas.
Grupos de apoio também podem ser uma alternativa para algumas pessoas. “Começam a ter novos grupos de jogadores anônimos, onde ele se sente mais pertencente e entende que não é só ele que está passando por isso, mas que existem outras pessoas também, de todas as classes sociais”, afirma.
Quando os prejuízos permanecem ou existem outras questões associadas, a avaliação psiquiátrica também pode fazer parte do processo. Isso não significa necessariamente a utilização de medicamentos, mas uma avaliação mais ampla das condições da pessoa.
Reconhecer que existe um problema e buscar ajuda são passos fundamentais para interromper o ciclo das apostas. “É importante reconhecer o problema e buscar ajuda, porque existe tratamento. A pessoa pode reverter essa situação e ter uma vida mais plena e com prazer em outras atividades”, conclui.
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