O menino que corria do cachorro virou atleta e persegue sonhos

Aos 61 anos, Ivo Adonatti de Souza "Birigui" mantém treinos, coleciona títulos e quer o desafio do Mundial de Duatlo

Ivo Adonatti de Souza, o “Birigui”, aprendeu cedo que correr fazia parte de sua vida. Nascido em Poço das Antas e criado até os 17 anos em Novo Paris, cresceu em uma comunidade onde o trabalho e o esporte estavam presentes no cotidiano. Primeiro vieram as brincadeiras de futebol. Depois, as corridas.

Ainda criança, percorria cerca de 5 quilômetros a pé para visitar um amigo. No caminho, havia um obstáculo: o cachorro de um vizinho. O medo fazia Ivo respirar fundo antes de disparar pela estrada. Anos depois, a lembrança ainda aparece quando fala sobre a origem de sua velocidade.

A primeira confirmação de que poderia ir além das brincadeiras veio em uma competição escolar de 7 de Setembro. Como a chuva impediu os jogos de futebol, os alunos foram convidados para uma corrida cerca de 200 metros.

Ao olhar para os adversários, muitos maiores e mais velhos, Ivo lembrou do cachorro e decidiu apostar na mesma arrancada que usava para passar pelo animal. “Vou dar uma arrancada aqui como se eu fosse passar por aquele cachorro”, pensou. Ganhou a prova e, a partir daquele momento, a corrida deixou de ser apenas uma brincadeira.

O futebol continuou na trajetória. Ivo começou nas partidas improvisadas da infância, depois passou a atuar como jogador de linha e se tornou goleiro. Defendeu diferentes equipes e conquistou títulos em campeonatos de campo e futebol de areia.

A rotina esportiva ganhou intensidade durante o período em que serviu no 16º Grupo de Artilharia de Campanha, em São Leopoldo. Foi ali que passou a participar de competições com maior frequência e teve contato com atletas mais experientes. Sem um treinador específico, aprendeu muito na prática.

Depois do quartel, conciliou o trabalho com as provas do Sesi. Disputava os 5 e 10 quilômetros e, segundo ele, venceu etapas municipais durante cerca de 18 anos consecutivos, com vagas também para disputas regionais e estaduais.

Foi nesse período que um empresário percebeu seu potencial e surgiu a oportunidade de buscar um dos principais objetivos de sua carreira: a São Silvestre. A primeira participação serviu de aprendizado. Sem a preparação adequada e no meio da multidão, terminou entre os primeiros 300 colocados.

A experiência fez com que procurasse uma seletiva. Em 1993, na Sogipa, em Porto Alegre, correu os 10 quilômetros em 32min e garantiu um lugar na Elite B da São Silvestre. Naquele ano, largou ao lado de nomes importantes do atletismo internacional, como Arturo Barrios.

O passo seguinte foi encarar as maratonas. Na primeira, em Porto Alegre, completou os 42 quilômetros em 3h11. A falta de experiência com hidratação fez com que sofresse nos quilômetros finais, mas a prova ensinou a importância de preparar o corpo para as exigências de uma corrida longa.

Com o tempo, aprimorou os treinamentos e passou a competir ao lado de atletas que considera referências. A evolução o levou à marca de 2h36, seu melhor resultado em maratonas.

Para Birigui, entretanto, o desempenho não depende apenas das pernas. A capacidade de suportar momentos difíceis também é construída internamente. “A mente é um poder. Tu tem que ter muita força de vontade”, resume.

Mudança de caminho

Um acidente de moto aproxiomou Ivo do ciclismo. Com uma lesão grave na perna, precisou pedalar durante a recuperação. A atividade logo se transformou em uma nova modalidade.

Vieram os Audax de 200 e 300 quilômetros, provas que exigem resistência para permanecer muitas horas sobre a bicicleta. Em uma delas, largou às 17h e passou a noite no pedal. Terminou como o 1º a concluir os 300 quilômetros.

A experiência abriu caminho para as competições de ciclismo. Há cerca de 14 anos, integra a equipe Acivas e encontrou uma de suas especialidades nas provas de subida. Foi campeão em disputas de montanha, como a Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, além de conquistar resultados em provas no Rio Grande do Sul, entre elas a subida da Lagoa da Harmonia, em Teutônia.

Mundial e adaptação

A experiência nas modalidades levou Birigui ao duatlo, que combina corrida e ciclismo. No Gaúcho, conquistou oito etapas e garantiu a classificação para o Brasileiro.

Mesmo com um calor ao qual não estava acostumado, terminou a prova em 3º. O resultado garantiu a classificação para o Mundial, na Austrália. A viagem, porém, não aconteceu porque não conseguiu viabilizar o patrocínio necessário.

O objetivo continua presente. Aos 61 anos, ele compete por faixa etária e acredita que ainda pode conquistar a vaga e disputar a competição. “Tenho na minha mente que vou disputar um Mundial”, afirma.

A idade mudou a forma de treinar, mas não eliminou a rotina. Ivo trabalha com instalação e manutenção de aquecedores e, muitas vezes, só consegue iniciar os exercícios à noite. Para manter o ciclismo mesmo quando chega tarde, utiliza um rolo adaptado à bicicleta.

As corridas também passaram a ter um componente familiar. Ele acompanha o neto João Pedro nos treinos e procura não impor pressão, para que o garoto desenvolva o gosto pelo esporte.

Birigui também passou a respeitar mais os períodos de recuperação. Se antes treinava diariamente, hoje entende que descansar também faz parte da preparação. A disciplina permanece, assim como o acompanhamento médico.

Superação

A trajetória foi marcada por episódios que não só exigiram preparo físico. Durante um jogo de futebol, uma joelhada nas costas perfurou seu pulmão. A situação exigiu hospitalização e um procedimento para retirar o ar acumulado na caixa torácica. Depois da recuperação, voltou a correr e competir.

A fé também ocupa espaço importante nessa história. Ivo atribui à mãe, Maria Clementina, ensinamentos que carrega até hoje e mantém São Jorge como seu santo protetor. A família, especialmente a esposa, Cleni, também aparece como parte fundamental de sua caminhada.

Aos 61 anos, Birigui olha para a trajetória sem separar esporte e vida pessoal. As corridas, o ciclismo e o duatlo atravessaram diferentes fases, inclusive períodos de dificuldade, mas continuam presentes na rotina.

E é dentro dessa mesma lógica que ele mantém o objetivo de disputar o Mundial. “Eu tenho condições. Acredito nisso e vou seguir na luta. Já passei por muitas coisas e as superei, essa vai ser mais uma”, completa.

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