Aos 56 anos, Jair Roberto Welter “Pivi” reúne experiências dentro e fora de campo: começou como goleiro ainda na adolescência, jogou na linha, conquistou títulos no futebol amador, tornou-se árbitro e passou a organizar competições. Atualmente, preside a Associação de Clubes Amadores de Teutônia (Acat) e coordena equipes de arbitragem.
Aos 13 anos, Pivi defendia o Catarinense como goleiro da equipe Titular. Na época, não tinha sequer chuteiras adequadas para jogar. Magro e com elasticidade, compensava a falta de estrutura com agilidade e coragem debaixo das traves.
Uma das lembranças foi em 12 de outubro de 1989, quando o Catarinense enfrentou um adversário regional. Pivi recorda que a equipe venceu por 2 a 1, com participação importante do goleiro, que defendeu um pênalti. A atuação chamou a atenção de pessoas ligadas ao futebol e abriu uma oportunidade na escolinha do América, de Estrela.
Ao chegar para uma avaliação, descobriu que o clube já tinha três goleiros. A alternativa foi mostrar que também sabia jogar na linha. Na primeira atividade, atuou como meia e marcou 3 gols.
Pouco depois, participou de um torneio no qual o América venceu o Esportivo, de Bento Gonçalves, e chegou à final contra o Juventude. Pivi entrou durante a partida e marcou um gol em finalização de fora da área. A equipe conquistou o título nos pênaltis.
Arbitragem
Em 2002, quando pensava em parar de jogar, Pivi recebeu convite para trabalhar como árbitro. A justificativa era simples: ele tinha bom preparo físico, conhecia o ambiente esportivo e havia necessidade de profissionais para conduzir partidas.
O início, porém, exigiu paciência. Buscou orientação com árbitros mais experientes e passou a apitar jogos sem remuneração para adquirir prática. Aos sábados, trabalhava em partidas das categorias de base e, à noite, em jogos de veteranos.
“Quando comecei, me oferecia para apitar sem receber. Queria praticar, aprender e entender como funcionava. Se acontecia alguma coisa, ligava para pedir opinião e saber se tinha tomado a decisão certa”, conta.
A experiência como jogador ajudou a compreender as reações dentro de campo, mas a arbitragem exigiu outro tipo de preparação. Com o tempo, Pivi passou a atuar em competições de maior responsabilidade e assumiu a organização das escalas. Hoje, além de árbitro, coordena profissionais e administra uma empresa de arbitragem.
Quebra cabeça
O trabalho atual não é só escolher quem apita cada partida. Na segunda metade do ano, Pivi chega a ter mais de 20 campeonatos em andamento, com escalas que envolvem de 70 a 80 árbitros por semana.
A organização exige planejamento, controle de disponibilidade, deslocamentos, uniformes, súmulas e equipamentos. Há mais de 60 conjuntos de fardamento guardados e organizados para facilitar a distribuição aos profissionais. Mesmo com boa parte do trabalho preparada previamente, Pivi aguarda a confirmação das escalas de outras entidades antes de fechar a programação definitiva.
“É um quebra-cabeça. Não adianta só ligar para um árbitro, preciso pensar na logística, em quem está disponível, já trabalhou junto e o tipo de jogo que vai encontrar”, explica.
A escolha dos profissionais considera também as características de cada partida. Clássicos e jogos de maior tensão exigem árbitros com preparo físico, equilíbrio e capacidade de controlar as emoções.
“Assim como os clubes estudam os adversários, também precisamos estudar os jogos e entender quem pode conduzi-los da melhor maneira”, resume.
Pivi destaca a importância de criar boas condições de trabalho para os árbitros, com atenção à alimentação, acolhimento e comunicação. Para ele, o reconhecimento e a confiança são construídos ao longo do tempo.
Pressão
A convivência com jogadores, dirigentes, treinadores e torcedores ensinou que uma das maiores dificuldades do esporte é administrar expectativas. Pivi observa que nem sempre as pessoas aceitam uma decisão contrária ao que desejam e que a emoção pode dificultar o diálogo.
“Hoje, muitas pessoas não estão preparadas para receber um ‘não’. Enquanto tu diz tudo o que elas querem ouvir, está tudo bem. Quando precisa dizer que não dá, a situação muda”, afirma.
Na avaliação dele, a arbitragem exige firmeza sem perder o equilíbrio. O mesmo vale para quem organiza competições e precisa tomar decisões que nem sempre agradam a todos.
Pivi diferencia o trabalho da empresa de arbitragem, em que possui autonomia para organizar as escalas, das decisões tomadas no âmbito associativo, que dependem do diálogo e da busca por consenso entre os envolvidos.
Outro ponto que considera importante é respeitar o processo de formação dos árbitros. Ele lembra que, no início de sua trajetória, precisou aprender na prática, consultar profissionais experientes e construir espaço aos poucos.
O que fica
Mesmo com a rotina intensa, Pivi procura preservar momentos em família. Os domingos à tarde são reservados à esposa e aos filhos. O compromisso com o esporte, entretanto, muitas vezes exige viagens, reuniões e noites de trabalho longe de casa.
“Enquanto muitos estão em casa, às vezes eu estou em outra cidade, com volta à meia-noite ou uma da manhã. São coisas que nem sempre aparecem para quem vê só o jogo”, relata.
Ele reconhece que também comete erros, mas procura agir com a intenção de fazer o melhor. Acredita que o comportamento de cada pessoa retorna de alguma forma e costuma resumir essa ideia em uma frase que repete à equipe: “Tudo o que você planta na vida, vai colher em algum momento”, completa.

