Artistas aguardam edital para investimento histórico da Pnab

Os recursos do governo federal para investimentos em projetos culturais nos vales do Taquari e Rio Pardo somam mais de R$ 41 milhões

A Política Nacional Aldir Blanc (Pnab) entra no segundo ciclo e mobiliza artistas de Teutônia para trazer projetos culturais ao município, com um valor de R$ 254,2 mil. Teatro, dança, canto, artes plásticas e visuais, circo, capoeira, marionete e mágica são algumas das expressões artísticas existentes na cidade.

O presidente do Conselho de Cultura, Lucas Grave, afirma que, seguindo a escolha da maioria dos presentes na audiência pública, o edital será construído com um número menor de projetos, mas, com mais verba. Agora, é tempo de encaminhar um plano de aplicação dos recursos, aguardar o valor entrar na conta do Município e, só então, elaborar o edital.

De acordo com a vice-presidente do Conselho de Cultura, Rosemari Lopes, em junho deste ano foi realizada uma reunião de escuta da classe artística. Rose é professora, atriz e figurinista do teatro e lamenta que no primeiro ciclo da Pnab, realizado em 2024, não foi possível contemplar nenhum projeto para apresentação teatral. “Mas conseguimos encontrar talentos e artistas de variadas formas e expressões que também são merecedores do incentivo federal”, conta.


Teatro, dança, canto, artes plásticas e visuais, circo, capoeira, marionete e mágica são algumas das expressões artísticas existentes na cidade / Crédito: Divulgação

Em junho, o conselho realizou uma votação para saber qual seria a prioridade do próximo edital: se o maior número de projetos e expressões artísticas ou menor número de projetos, mas com maior valor para cada. Venceu o segundo, com votação marcada por contrariedades e participação expressiva de corais. “É preciso levar em conta as outras expressões artísticas e as dificuldades de cada um, pois eles moram em bairros distantes, têm empregos, precisam de horários alternativos para serem representados”, afirma ela.

Segundo a artista e escritora Vânia Santos, a escolha deveria ser pelo maior número possível de artistas e projetos. “Só assim a gente consegue atingir a ponta, onde está o artista, lá no bairro, e mostrar quanto potencial existe na cidade”, argumenta.

Capoeira de raiz

Reginaldo Pinheiro Pereira é natural de Bagé. É conhecido entre os capoeiristas como Faraó, devido à tradição, costume e, até mesmo, forma de camuflagem da verdadeira identidade, usada pelos antigos capoeiristas. Em Teutônia, desenvolveu alguns trabalhos de capoeira em academias e mostras culturais em escolas. Desde março de 2023, desenvolve oficina de capoeira através do Projeto Teutônia Cultural, em parceria com a Academia CT Mão de Pedra e a prefeitura. “Sinto prazer em realizar esse trabalho junto à comunidade, oferecendo um pouco de nossa vasta cultura afro-brasileira”, comenta.

Valorização da cultura

De acordo com a secretária de Cultura, Vanessa Carniel, este valor vem como um estímulo para a produção cultural e artística e uma forma de promover o acesso da população a bens e serviços culturais gratuitos e de qualidade, abrangendo diversas faixas etárias. “O recurso não substitui o que a secretaria fará em relação ao setor. É um adicional que beneficiará diretamente os fazedores de Cultura de Teutônia”, enfatiza.

Tradição do canto coral

O presidente da Associação dos Corais de Teutônia (Acote), Fabiano Eckel, quer dar continuidade ao canto coral com o projeto Novo Cantar, que capacita jovens em idade escolar ao canto coral em parceria com a Secretaria de Educação. “Incentiva também os cantores já atuantes, para que possam melhorar suas performances”, diz.

O projeto realizado em 2024 contemplou seis turmas, e a ideia é utilizar a Pnab para mantê-las. “O canto coral é uma tradição dos antepassados e, para mim, é uma prática que representa saúde e união, pois, num grupo, cada um dá o seu melhor em prol do coletivo. Temos como madrinha a Rosita Schneider, que não mediu esforços para colocar isso em prática”, relembra.

Eckel afirma que viveu momentos de emoção, principalmente na pandemia de covid-19, quando realizaram transmissões on-line. As apresentações são, na maioria, em clima festivo. Porém, há momentos de pesar e melancolia. Eckel faz parte do Coro de Homens Frohsin, o mais antigo de Teutônia, do Bairro Boa Vista. Há 140 anos, o coro tem como tradição cantar em velórios e enterros.

Há poucos dias, Eckel teve um desafio, ao cantar no enterro de um amigo. “Nos despedimos de um integrante, e cantar nesses momentos é muito difícil, pelo menos pra mim”, lamenta ele.


Presidente da Associação dos Corais de Teutônia, Fabiano Eckel / Crédito: Divulgação

Investimento histórico do governo federal

O governo federal e o Ministério da Cultura realizam um investimento histórico na cultura do Rio Grande do Sul. Entre a Lei Paulo Gustavo, a Política Nacional Aldir Blanc e Programas Ceus da Cultura e Retomada Cultural, serão mais de R$ 1 bilhão em projetos até 2028. Para os vales do Taquari e Rio Pardo as verbas somam mais de R$ 41 milhões.

Durante a trágica enchente no Estado, o Ministério implementou o Programa Retomada Cultural. Foram R$ 60 milhões em crédito extraordinário em 2024 para mais de 4.150 bolsas de formação para agentes culturais, com um apoio financeiro de R$ 4.500. Além disso, prêmios e bolsas foram entregues a grupos culturais, pontos de cultura, quilombos e bibliotecas comunitárias atingidas pela enchente.

Em 2025, o fortalecimento desta rede de cidadania foi essencial para que o RS alcançasse 100% de adesão dos 497 municípios ao 2º ciclo da Política Nacional Aldir Blanc. A coordenadora do Escritório Estadual do Ministério da Cultura, Mari Martinez, atua no desenvolvimento do setor criativo do Rio Grande do Sul, com incentivo à democracia e direito à cultura. “Por meio dos coletivos, foi possível apresentar mapeamentos, números, cadastros e sugestões, essenciais para a aprovação e implementação do programa, que ficará como uma ação modelo para este novo momento de crise climática que enfrentamos”, argumenta.

A Política Nacional Aldir Blanc, construída com participação social, prevê avanços importantes, como a obrigatoriedade do investimento de 20% dos valores em áreas de periferia urbana ou rural e de comunidades tradicionais.

Outros avanços são a reserva de vagas para pessoas negras, indígenas e com deficiência e o investimento de 25% na Política Nacional de Cultura Viva em municípios que recebem acima de R$ 360 mil, além da obrigatoriedade das etapas de participação para construir o Plano de Aplicação dos Recursos.

“O que estamos construindo aqui é mais do que fomento, é direito. Cultura é política pública e, quando olhamos para os quilombos, aldeias, periferias, a cultura viva, estamos olhando para quem sustenta a diversidade cultural desse país há séculos, muitas vezes, sem nenhum apoio do Estado,” finaliza Mari.


Mari Martinez é coordenadora do Escritório Estadual do Ministério da Cultura / Crédito: Divulgação


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