A vacinação contra a dengue passou por uma mudança de orientação em todo o país após o Ministério da Saúde determinar a suspensão temporária da aplicação da Butantan-DV, produzida pelo Instituto Butantan, enquanto investiga relatos de 42 eventos adversos graves que incluem duas mortes – ainda não se sabe se os casos foram de fato causados pela aplicação do imunizante.
A Butantan-DV já havia sido aplicada em 500 mil profissionais da saúde no Brasil até ser liberada em moradores de 15 a 59 anos em três cidades-piloto do Sudeste e Norte. Utiliza tecnologia baseada em vírus atenuado e foi criada para oferecer proteção contra os quatro sorotipos da dengue.
De acordo com a 16ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), o Vale do Taquari recebeu 1.243 doses do imunizante, destinadas inicialmente a profissionais das equipes de Atenção Primária em Saúde.
Conforme o representante da 16ª CRS, José Calvi, a coordenadoria agora realiza um levantamento junto aos municípios para identificar quantas unidades foram aplicadas antes da suspensão.
Além das doses do Butantan, o Vale também recebeu a vacina Qdenga, da farmacêutica Takeda, destinada principalmente ao público de 10 a 14 anos dentro da estratégia nacional de imunização. A região recebeu aproximadamente 4,4 mil doses nessa etapa inicial.
O Ministério da Saúde esclarece que a suspensão da vacina brasileira não significa a interrupção de toda a vacinação contra a dengue. A orientação de manter a imunização permanece para a Qdenga. O esquema prevê duas doses, com intervalo de 3 meses. O imunizante também utiliza vírus vivos atenuados da dengue e foi aprovado para pessoas que já tiveram ou não contato prévio com o vírus. A vacinação ocorre desde 2024, com mais de 8 mil doses aplicadas em todo o país.
A orientação é que doses da Butantan-DV que já estavam nos municípios permaneçam armazenadas na rede de frio até uma nova definição do Ministério da Saúde.
Conforme o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, antes de ser incorporada ao SUS, a vacina do Butantan passou por todas as etapas de avaliação exigidas pelos órgãos reguladores, e resultados demonstraram eficácia geral de 65% contra a doença e de 80,5% para casos mais graves.
Aqueles vacinados há mais de 21 dias já estão protegidos e podem ficar tranquilos, segundo o diretor do Butantan, Esper Kallás.
Outras vacinas seguem necessárias
A interrupção temporária da aplicação da vacina contra a dengue produzida pelo Instituto Butantan trouxe dúvidas para parte da população sobre a segurança dos imunizantes de forma geral. Especialistas reforçam, porém, que cada vacina possui desenvolvimento, testes, acompanhamento e critérios próprios de aprovação. No caso das vacinas contra doenças respiratórias, como gripe e covid-19, os imunizantes passaram por diferentes etapas de pesquisa antes de serem incorporados às campanhas de vacinação.
A vacina contra a influenza (gripe) existe há décadas e é atualizada anualmente conforme a circulação dos vírus. Os primeiros imunizantes contra influenza começaram a ser desenvolvidos ainda na década de 1930 e passaram por aprimoramentos ao longo do tempo. Hoje, a composição é revisada todos os anos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que acompanha quais cepas têm maior circulação no mundo.
A chamada H1N1 ganhou destaque durante a pandemia de 2009, quando surgiu uma nova variante do vírus influenza A. A vacina específica contra essa cepa foi desenvolvida em poucos meses, porque já existia uma base tecnológica consolidada para produção de vacinas contra gripe. Após estudos e avaliações, passou a ser utilizada em campanhas de imunização.
Já as vacinas contra a covid-19 tiveram desenvolvimento acelerado a partir de 2020, em meio à emergência sanitária mundial. Apesar da velocidade, os estudos envolveram fases de testes clínicos, avaliação de segurança e acompanhamento após a aplicação em milhões de pessoas.
A tecnologia de algumas plataformas, como o RNA mensageiro, vinha sendo pesquisada anos antes da pandemia.
A expectativa dos especialistas é que as vacinas sejam atualizadas conforme os vírus mudam e novas informações científicas surgem. Eventos adversos são monitorados justamente para identificar situações raras e permitir ajustes nas estratégias de vacinação.
Profissionais da saúde reforçam que a recomendação para as demais vacinas, incluindo contra influenza e covid-19, permanece válida, principalmente diante do aumento de circulação de vírus respiratórios e dos registros de internações em diferentes regiões.
Estratégia para viver
O diretor do Butantan, Esper Kallás, ressalta que a vacinação é uma das principais medidas para enfrentar doenças transmissíveis e a estratégia que mais salvou vidas na história. “Temos um ganho de qualidade e expectativa de vida disponível para os brasileiros através da imunização infantil, dos adolescentes, adultos e de pessoas de mais idade”, destacou ele à BBC.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), vacinas salvaram 154 milhões de vidas nos últimos 50 anos, cerca de 3 milhões por ano. “No Brasil, as vacinas ajudaram a erradicar poliomielite (paralisia infantil) e a rubéola, bem como livrar o país do sarampo”, ressaltou.
O Instituto Butantan existe oficialmente desde 1901 (125 anos). É o maior produtor de vacinas e soros da América Latina e o principal produtor de imunobiológicos do Brasil.

