O volume de lixo vai além da lixeira

Preparar jovens construirá consumidores, empresários e gestores públicos conscientes e comprometidos

Por Ariana de Oliveira e Lucas Leandro Brune

Quando o debate se volta para os resíduos sólidos, a discussão frequentemente recai sobre a separação correta do lixo doméstico. Essa etapa é e continuará relevante, porque mais de 51% do lixo é orgânico, 31% pode ser reciclado e apenas 17% é rejeito, conforme dados apurados pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Quanto melhor separado, maior o reaproveitamento. Quanto menos lixo, maior a vida útil dos aterros.

Como o orgânico é o maior volume, o consumidor deve encontrar soluções para colocar esses resíduos – como composteiras – para, posteriormente, transformá-lo em adubo para pomares, jardins e hortas. A reciclagem de materiais assegura reaproveitamentos e economiza recursos.

Especialistas alertam para situações mais amplas na gestão de resíduos. Biólogo e mestre em Biotecnologia, Leo Jaime de Vargas diz que questões complexas dificilmente possuem uma única causa. Para ele, a cadeia extensa começa antes mesmo da compra de um produto.

Os hábitos de consumo da população são influenciados pela forma como os itens são apresentados ao mercado. As escolhas feitas pelos fabricantes determinam quais materiais serão utilizados, quanto de embalagem será empregado e quais possibilidades existirão para reaproveitamento ou reciclagem futura.

E a estrutura pública também desempenha papel decisivo. Sistemas eficientes de coleta, transporte, triagem e destinação final são fundamentais para que a gestão dos resíduos funcione adequadamente. Coletas seletivas, campanhas educativas e orientações permanentes são constantes em muitas cidades.

O caminho passa pela divisão das responsabilidades entre os envolvidos. Consumidores precisam refletir sobre seus hábitos de compra e fazer escolhas mais conscientes. Empresas podem reduzir excessos de embalagens e investir em logística reversa até mesmo para reduzir custos. E os governos devem seguir no compromisso de planejar, executar e fiscalizar políticas públicas eficientes.

Bióloga, professora e pesquisadora da Univates, Elisete Maria de Freitas concorda que falta maior integração. Para ela, a educação ambiental ainda apresenta lacunas, pois muitas pessoas desconhecem a separação correta dos resíduos. Em contrapartida, há iniciativas louváveis em escolas precursoras nessa conscientização dos estudantes. Afinal, preparar os jovens significará consumidores, empresários e gestores públicos envolvidos nesta cadeia.

Estímulo ao descarte

Outro ponto apontado pelos especialistas é o modelo de consumo predominante na sociedade contemporânea. Produtos são constantemente substituídos por versões mais novas, o que fortalece a cultura do descarte. Estratégias de mercado estimulam a conveniência e a renovação permanente de bens de consumo, o que aumenta o volume e a complexidade dos resíduos gerados.

Essa realidade evidencia que a gestão dos resíduos não é responsabilidade exclusiva do cidadão. Trata-se de um desafio coletivo que exige comprometimento do setor produtivo, da sociedade e do poder público.

Responsabilidade

Os especialistas da Univates reconhecem a importância das atitudes individuais, mas afirmam que elas não conseguem, sozinhas, responder à velocidade e à dimensão dos desafios ambientais atuais.

Leo Jaime observa que muitas mudanças dependem diretamente das decisões tomadas pelas grandes corporações. A adoção de embalagens biodegradáveis, materiais reutilizáveis e sistemas de logística reversa, por exemplo, está vinculada às estratégias empresariais e aos custos envolvidos nesses processos.

Mesmo quando consumidores desejam fazer escolhas mais sustentáveis, frequentemente encontram barreiras relacionadas à disponibilidade dos produtos e aos preços praticados no mercado. Nesse cenário, políticas públicas nacionais podem desempenhar papel importante, ao estimular empresas e consumidores a adotarem alternativas menos impactantes.

A professora Elisete acrescenta que o foco na ação individual pode desviar a atenção das responsabilidades de agentes capazes de promover mudanças estruturais. “Empresas definem matérias-primas, processos produtivos, embalagens e estratégias de mercado. Governos criam leis, estabelecem regras, fiscalizam atividades econômicas e direcionam investimentos públicos. Esses atores possuem capacidade de transformação muito superior à de um consumidor isolado”, pondera.

Isso não anula a relevante responsabilidade individual como instrumento de conscientização e pressão social, mas, sozinha, não substitui mudanças nos sistemas de produção, distribuição e regulação econômica. “Problemas ambientais complexos exigem respostas coletivas e estruturais”, sinalizam os especialistas.

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