Renata Schaeffer começou quase que de forma casual na arbitragem, mas logo transformou a história em uma trajetória de duas décadas no futebol.
De Colinas, estava inserida no esporte com atuações no feminino e como mesária em partidas do Rui Barbosa. Foi nesse ambiente que recebeu o “incentivo” que mudaria sua relação com o campo. Em 2005, após reclamar de uma decisão do árbitro Leandro Pedro Vuaden, ouviu uma provocação que aceitou como desafio: “Falar de fora é fácil. Vem aqui dentro, para ver como é que é”.
Renata fez o curso de arbitragem e, em 2006, começou a trabalhar como quarta árbitra em partidas do Regional. O passo seguinte foi ainda maior. Em dezembro de 2007, Renata concluiu o curso da Federação Gaúcha. No ano de 2008, foi chamada para observação e para atuar em estaduais.
Entre os momentos marcantes estão os Gre-Nais. Ela também lembra de torneios nacionais, especialmente na arbitragem da Copa do Brasil, além de chegar à Granja Comary. “O momento em que eu saía do túnel era incrível. Ver aquela vibração e o som da galera é fantástico”, diz.
A evolução exigiu treino. Em época de menos estrutura para a preparação, chegou a utilizar fita métrica para estudar seu posicionamento. Também recebeu apoio do Lajeadense, que cedeu espaço para seus trabalhos físicos.
O treino envolvia detalhes que não percebidos por quem acompanha apenas o jogo. Posicionamento, deslocamento e a chamada visão diagonal faziam parte da rotina.
Uma das maiores frustrações da carreira veio quando Renata buscava avançar no cenário nacional. Nos testes físicos, tinha bom desempenho nas provas de maior distância, mas encontrava dificuldades nos tiros curtos de 40 metros.
Em uma avaliação, ultrapassou o limite e ficou fora da competição. Depois de meses de preparação, a eliminação foi dolorosa.
A experiência virou aprendizado. A arbitragem ensinou Renata a lidar com pressão, cobrança e situações hostis. Ela reconhece que os primeiros anos foram mais difíceis, mas afirma que o tempo trouxe respeito e uma espécie de “blindagem”.
Mãe, exemplo e professora
Aos 33 anos, Renata tomou uma das decisões mais difíceis. Queria ser mãe e precisou repensar uma carreira que ainda tinha margem de crescimento.
Mesmo grávida, trabalhou durante os primeiros meses. Em uma partida, já perto do quinto mês de gestação, viveu situação de pressão com escudos e cassetetes da polícia.
O episódio serviu como alerta. “Ter um filho era tudo que eu queria e agora passo por essa situação. Posso perder ele se viver isso outras vezes. Por que estou aqui?”, questiona.
Depois disso, procurou a Federação e pediu licença. Ainda realizou uma última partida em Passo Fundo, onde recebeu uma homenagem dos jogadores. “Sempre digo que foi a escolha mais difícil, mas a melhor, porque tenho meu maior parceiro”, afirma Renata.
Hoje, o futebol ainda faz parte da rotina de Renata. Seu filho, Ryan, cresceu nos campos com a mãe e escolheu ser goleiro. Ela admite que, como mãe, às vezes fala mais do que gostaria durante os jogos, mas procura controlar a empolgação. “Ele tem que saber que será acolhido depois de uma vitória e derrota”, ressalta.
A ideia de formar pessoas aparece no trabalho como professora. Renata procura ensinar que os alunos precisam desenvolver autonomia, enfrentar dificuldades e acreditar no próprio potencial.
Ainda, recorda que foi chamada de “gordinha” e enfrentou problemas de asma durante a infância. Em vez de considerar aquilo uma barreira definitiva, escolheu Educação Física e, mais tarde, encarou os testes físicos da arbitragem.
“Fui provar o que a ‘gordinha’ era capaz de fazer. Ela fez testes físicos e ela passou na Federação”, acrescenta, ao ampliar que cada dificuldade pode ser transformada em degrau.
Legado
Ao longo da trajetória, a assistente também percebeu o impacto que o espaço de uma mulher pode causar no futebol. Uma jovem repórter chegou a contar que Renata havia servido de inspiração para que ela própria enfrentasse o medo e buscasse trabalhar no esporte.
Esse talvez seja um dos maiores legados. A mulher que começou como mesária em Colinas aceitou um desafio por causa de uma reclamação e chegou ao quadro da Federação se tornou referência para outras pessoas.
Hoje, entre a arbitragem, a sala de aula e a maternidade, Renata segue ligada ao futebol. São funções diferentes, mas que carregam o mesmo princípio que norteou sua caminhada: aprender com cada desafio e transformar experiência em exemplo.

Crédito: Arquivo Pessoal

