Paloma Schilling: “O Jiu-jitsu empodera as mulheres e pode mudar vidas”

Modalidade atrai praticantes em diferentes fases da vida, que encontram uma forma de praticar atividade física, defesa pessoal e autocontrole.

O Jiu-jitsu ainda é praticado em um ambiente onde a presença masculina é historicamente maior, mas as mulheres ocupam cada vez mais espaço.

Muitas chegam à modalidade sem qualquer experiência ou intenção de competir. Procuram atividade física, defesa pessoal ou lazer e, com o tempo, encontram possibilidades de desenvolver confiança, conhecer o corpo e aprender a lidar com a pressão.

Na Academia Vértice-83, de Estrela, a faixa-preta e professora Paloma Schilling acompanha esse processo. Com 12 anos de prática, ela observa que uma das principais dificuldades para a entrada das mulheres no Jiu-jitsu está na sensação provocada pelo ambiente.

“Percebíamos que elas queriam praticar, mas não tinham confiança. Às vezes, o clima do centro de treinamento é masculinizado, onde a mulher se sente até acuada”, relata.

A partir disso, a Vértice passou a trabalhar com turmas para mulheres. A proposta é oferecer momentos em que possam adquirir segurança e criar vínculos com outras que vivem experiências semelhantes.

Para quem nunca treinou, o primeiro contato com a modalidade é desconcertante. Os nomes das posições, movimentos e dinâmica são novos. Há também o contato físico, que exige confiança na parceira e no próprio corpo.

Paloma reconhece que os primeiros meses são de adaptação. “Você chega e não entende nada. O Jiu é difícil e precisa de tempo para entender”, afirma.

A evolução ocorre aos poucos. Uma posição que parece impossível passa a ser compreendida, o corpo começa a responder aos movimentos e a praticante aprende a identificar o que fazer quando está em desvantagem.

Nesse processo, a forma como a iniciante é recebida faz a diferença. Na Vértice, a faixa-preta explica que existe um cuidado especial nas primeiras aulas, mas o acolhimento não fica restrito à professora. A turma participa da adaptação de quem está no começo.

O objetivo é evitar que a falta de experiência seja interpretada como incapacidade. No Jiu-jitsu, todas chegam sem conhecer posições e passam pelo aprendizado. A diferença está no tempo de cada uma.

O perfil da turma também chama atenção. Conforme Paloma, a maioria tem mais de 30 anos. Muitas são mães e conciliam os treinos com trabalho, família e responsabilidades. Algumas chegam ao esporte por causa dos filhos.

A curiosidade se transforma em prática e esse tipo de trajetória mostra que não existe um momento para começar. A mulher pode ir ao tatame na juventude ou depois, quando possui uma rotina estabelecida.

Defesa pessoal

A autodefesa é um elemento que aproxima as mulheres da arte marcial. A Vértice realiza oficinas sobre o tema para grupos externos à academia. Paloma entende que as atividades contribuem para aumentar a segurança e a consciência corporal.

O objetivo não é prepará-las para o confronto, mas oferecer conhecimento para que possam agir diante do risco. “O Jiu-jitsu empodera e traz a defesa pessoal. É um ponto a mais de segurança, principalmente para as mulheres”, destaca.

A prática coloca a mulher diante de situações em que precisa reagir com calma. Durante o treino, é comum estar em uma posição desconfortável e precisar pensar na saída.

A força, sozinha, não resolve nada. É necessário compreender a ação da adversária, controlar a respiração e agir.

Fora do tatame

A professora começou no Muay Thai aos 19 anos e migrou para o Jiu-jitsu com 21. Na época, pesava 48 quilos e passou a treinar em um ambiente masculino. O que era uma mudança de modalidade se tornou em uma trajetória de 12 anos.

Hoje, a faixa-preta pensa que a modalidade influenciou sua formação. “Digo que o Jiu-jitsu é parte de mim, porque minha vida é voltada para isso”, afirma.

A experiência também alterou a maneira de como encara os problemas da vida. Para ela, o esporte desenvolve uma postura resolutiva, baseada na procura por alternativas. “No geral, o Jiu é assim. Quem pratica consegue passar por adversidades. Mas a competição te dá essa função, tudo tem solução”, enfatiza.

A lógica é parecida com a luta: nem sempre a primeira tentativa funciona, e a praticante precisa encontrar possibilidades. Esse processo exige controle das emoções e concentração sem precipitações.

Para Paloma, as alunas relatam mudanças nesse sentido, inclusive na maneira como lidam com as emoções. A confiança construída no Jiu-jitsu não está apenas relacionada às capacidades externas. Ela passa também pela descoberta do próprio corpo.

A mulher aprende a perceber força, equilíbrio, resistência e limites. Conforme evolui, realiza movimentos que pareciam fora de sua capacidade. A sensação de progresso é significativa para quem começou adulta e sem experiência.

O treino oferece vivências em que a praticante consegue visualizar seu crescimento. O que não funcionava pode dar resultado algumas semanas depois.

O reflexo disso não precisa estar em medalhas ou graduações. Pode ser a compreensão de técnicas, a capacidade de escapar de uma posição ou a confiança para enfrentar situação intimidadora.

Abandonos

Apesar do crescimento da participação, permanecer na arte marcial é um desafio. Paloma enxerga que muitas meninas começam jovens, mas deixam a modalidade por conta das responsabilidades.

“Depois de um tempo, elas envelhecem, constroem famílias, mudam pensamentos e largam o Jiu-jitsu”, revela.

Isso influencia no desenvolvimento do esporte. Quanto menos mulheres ficam, menor é a quantidade de atletas que atingem graduações mais altas.

A consequência aparece nas competições. Paloma, por exemplo, relata dificuldades para encontrar adversárias da mesma graduação e peso. Pode existir outra faixa-preta na região, mas nem sempre há compatibilidade de categoria para lutar.

Parte dessa dificuldade faz parte da história da professora. Quando começou a treinar, era muito menor do que os homens que estavam ao seu redor. Mesmo depois de avançar na graduação, recorda que era tratada como parceira “mais fácil” e escolhida para o chamado “rola de descanso”.

A situação a incomodava e contribuiu para que intensificasse os treinamentos. “Fiquei muito irritada e, com isso, passei a treinar muito”, recorda.

Ela conquistou espaços no tatame, mas entende que não deveria atravessar esse tipo de experiência. É por isso que o ambiente importa. Quando uma mulher encontra respeito, acolhimento e outras praticantes, há condições para continuar.

Evolução coletiva

Quando uma mulher decide competir, a preparação muda, mas o processo envolve toda a equipe. O mesmo princípio aparece nos treinos. As mais experientes ajudam as iniciantes, dividem conhecimentos e acompanham a evolução.

Paloma treina com as alunas para avaliar o desenvolvimento delas e vê sinais positivos quando uma praticante executa uma técnica que aprendeu nas aulas. “Se uma delas acerta algo em mim, fico muito feliz, porque vejo que nosso trabalho é bem-feito”, aponta.

A rotina também determina a forma de praticar. Um exemplo é de uma aluna que treina durante a gravidez, com liberação médica. Conforme a gestação avança, a frequência diminui e os exercícios são adaptados.

Permanecer no esporte não significa manter o ritmo. O treinamento pode acompanhar mudanças e ser ajustado. Essa possibilidade é relevante entre as alunas adultas, que precisam conciliar o esporte com outras questões pessoais.

Mesmo depois de chegar à faixa-preta, Paloma encontra novidades. A modalidade não chega a um ponto em que todo o conhecimento está concluído. “Aprendo e desenvolvo coisas novas. O Jiu-jitsu mostra um mundo novo todos os dias”, diz.

Se permitir

A mulher que chega sem conhecer os movimentos precisa de paciência para aprender. Depois, passa a reconhecer o corpo, lidar com a pressão e encontrar saídas. Ao mesmo tempo, cria vínculos e ocupa os espaços.

Para algumas, o resultado será competir. Para outras, a satisfação está na rotina de exercícios, no aprendizado ou simplesmente em encontrar uma atividade que faça sentido – sem que isso dependa de medalhas ou graduações.

No caso de Paloma, a influência foi tão profunda que o Jiu-jitsu se tornou parte dela. É uma experiência individual, mas ajuda a explicar o significado que a modalidade pode assumir para o coletivo.

O esporte oferece aprendizados no qual confiança, disciplina, autocontrole e conhecimento são desenvolvidos ao longo do tempo.

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