
Depois de mais de três décadas de cobranças, promessas e intervenções pontuais, o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) iniciou, no domingo (22/2), as obras de recuperação da ERS-419. A rodovia é a principal conexão entre os municípios de Teutônia e Poço das Antas e conecta o Vale do Taquari ao Vale do Caí.
A intervenção ocorre em um trecho historicamente marcado por buracos, desníveis e constantes reclamações de motoristas e lideranças locais.
Os serviços abrangem o segmento entre o km 1,47 e o km 15,78. Conforme o Daer, serão executados remendos profundos e superficiais nos pontos mais críticos do pavimento, além de limpeza de valas e roçada às margens da pista. O investimento previsto é de R$ 1,5 milhão, com previsão de conclusão no primeiro semestre deste ano.
A ERS-419 é uma rodovia de pista simples, mas com fluxo intenso, especialmente de caminhões, que transportam a produção agroindustrial entre os dois vales. Usuários relatavam problemas frequentes, como danos a pneus, rodas e sistemas de suspensão, além do risco constante de acidentes em função das crateras e ondulações que se multiplicaram ao longo dos anos.
A estudante Gabriela Busnello, moradora de Poço das Santas, usa a rodovia periodicamente e relata já ter danificado o carro diversas vezes, rompendo a lona lateral dos pneus, entortando rodas e suspensão. “Isto é um absurdo, tem locais que não tem iluminação à noite, o que torna o trajeto ainda mais perigoso. Ja estourei três pneus nos últimos meses”, conta.
“O asfalto vai ceder de novo”
A precariedade da ERS-419 não é recente. A rodovia, que liga Poço das Antas à RSC-453 (Rota do Sol), em Teutônia, passou a ser pauta de debates públicos mais acalorados há mais de 10 anos.
Desde 2011, lideranças regionais cobram melhorias estruturais e a manutenção permanente da via. Moradores, no entanto, relatam que a estrada tem problemas há pelo menos 30 anos, incluindo os pedidos para a construção de acostamento para o trânsito de pedestres.
Conforme o secretário de Administração de Poço das Antas, Romeu Forneck, a rodovia foi construída nos anos 1990 com uma base fraca, e isso fez com que o asfalto cedesse já no ano seguinte.
Em alguns trechos, como em Linha Capivara, o desnivelamento da pista, combinado com a curva acentuada, torna o trajeto ainda mais perigoso. Segundo o secretário, que acompanha os trabalhos de recapeamento realizados pelo Daer, a obra será uma medida paliativa. “Vai ceder de novo, porque é a base o problema. Tem que arrancar a terra em baixo, que está precária”, alerta.
O município tem importante produção de madeira e o transporte de cargas pesadas com toras de eucalipto é escoado pela via.
A situação se agravou entre 2022 e 2023, quando dezenas de buracos, desníveis e pontos de deslizamento de aterro passaram a comprometer ainda mais a trafegabilidade. Os danos foram intensificados por eventos climáticos extremos recentes. Em meados de 2023, houve recuperação pontual de aterro no quilômetro 13,1, mas a melhoria não se sustentou.

Moradores e usuários da rodovia enfrentam perigos diários devido a buracos profundos na pista de rodagem / Crédito: Anderso Lopes
Em junho de 2024, diante da lentidão do poder público, moradores organizaram ações emergenciais de “tapa-buracos” por conta própria. A mobilização evidenciou o nível de desgaste da comunidade e a ausência de soluções duradouras. Em determinados trechos, motoristas relatavam a existência de mais de 100 buracos ao longo de cerca de 10 quilômetros, cenário que colocava em risco a segurança viária.
Recursos da ordem de R$ 3 milhões chegaram a ser anunciados em 2022, dentro do programa estadual Avançar, mas o valor não foi liberado pelo governo.
Corredor estratégico entre Vales
Mais do que uma estrada municipalizada de interesse local, a ERS-419 cumpre papel estratégico na malha viária regional. Poço das Antas funciona como um elo entre o Vale do Taquari e o Vale do Caí, servindo como rota alternativa e corredor logístico.
O município conecta Teutônia a cidades como Brochier, Maratá e Montenegro. Para quem trafega pela Rota do Sol e busca evitar o fluxo pesado ou eventuais bloqueios na BR-386 ou na ERS-122, o trajeto por Poço das Antas, seguindo posteriormente pela chamada Transcitrus, tornou-se alternativa recorrente.
A rodovia também é fundamental para o setor primário e industrial. Ela serve como principal via de acesso ao frigorífico da Cooperativa Languiru e a outras agroindústrias locais, recebendo diariamente caminhões que transportam ração, insumos e produtos acabados. O tráfego pesado, somado à ausência de manutenção contínua, contribuiu para acelerar a deterioração do asfalto.
Acidentes na estrada
Há 1 ano, um acidente fatal foi registrado no km 7. Um motociclista de 27 anos morreu após sair da pista na madrugada do dia 1º de fevereiro de 2025. Em agosto do ano passado, um condutor de 47 anos ficou ferido após a caminhonete que ele conduzia sair da pista e colidir contra uma árvore no km 1.
Em 2026, há cerca de duas semanas, outro acidente foi registrado. Uma colisão entre carro e motocicleta no km 2 (Bairro Boa Vista, Teutônia) deixou um idoso de 73 anos ferido. Há registros de tombamento de caminhão e colisões menores que, embora frequentes devido aos buracos e falta de sinalização, nem sempre geram boletins de ocorrência com vítimas.

Moradores e usuários frequentes da rodovia relatam custos elevados em manutenção de veículos devido à precariedade da estrada / Crédito: Anderson Lopes
Caminho de resiliência após as enchentes
Desde as enchentes históricas de 2024, rotas secundárias passaram a desempenhar papel ainda mais relevante na logística regional. Em momentos de interrupção das principais rodovias, como a BR-386, o tráfego foi desviado para estradas como a ERS-419, que não foi projetada para suportar alto volume de carga por longos períodos.
Esse aumento repentino no fluxo intensifica o desgaste da pista e evidencia a necessidade de investimentos estruturais mais robustos.
Especialistas e lideranças regionais defendem que a recuperação atual seja acompanhada de um plano de manutenção permanente e de reforço do pavimento, sob risco de que os problemas retornem em curto prazo.
Apesar da assinatura de ordens de serviço no início de fevereiro de 2026 para a recuperação de rodovias no Vale do Caí, a ERS-419 ainda é vista como um ponto sensível dentro dos planos de reconstrução e infraestrutura do Estado. A comunidade aguarda que a intervenção em andamento represente mais do que uma solução paliativa.

