Chances do El Niño se consolidar no segundo semestre é de 90%

Modelos climáticos apontam intensidade moderada a forte, mas ainda não é possível afirmar se cenários ocorridos em 2023 e 2024 irão se repetir.

Em uma iniciativa voltada para a integração do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, especialistas e gestores públicos se reuniram on-line nessa quinta-feira (28/5) para debater os prognósticos e as estratégias de preparação diante da iminente consolidação do fenômeno El Niño.

A conversa destacou a necessidade de coordenação entre órgãos técnicos e operacionais para mitigar os impactos de desastres naturais que tendem a se intensificar pelas mudanças climáticas.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo e persistente das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Esse processo altera significativamente a circulação dos ventos e o regime de chuvas em escala global. Mozar de Araújo Salvador, coordenador de monitoramento e previsão climática do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), detalhou que, para o fenômeno se configurar, é necessário um aumento de pelo menos 0,5°C na temperatura média do oceano por um período prolongado de 5 a 6 meses.

Embora o El Niño seja um fenômeno recorrente, a complexidade do cenário atual exige um nível inédito de monitoramento e prontidão das defesas civis estaduais e municipais.

A previsão atual é de que o fenômeno se consolide no segundo semestre de 2026, com probabilidades que ultrapassam os 90%. Os modelos climáticos apontam para uma intensidade que deve variar de moderada a forte, embora ainda haja um nível de incerteza quanto ao auge do fenômeno, previsto para o fim da primavera e início do verão. Essa incerteza reforça a importância de monitorar não apenas o Pacífico, mas também o Atlântico Sul, que exerce influência direta sobre as condições meteorológicas na costa brasileira.

Também, é a partir da incerteza que os especialistas alertam: confirmar cenários mais críticos só pode ocorrer de forma mais precisa cerca de 72h antes dos eventos climáticos. A previsão de um novo El Niño não significa que as tragédias de 2023 e 2024 vão se repetir.

Impactos em diferentes regiões

A alteração na circulação atmosférica provocada pelo El Niño gera padrões de impacto distintos nas regiões do Brasil, que exigem estratégias específicas de resposta. Giovani Dolif, meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explicou que a mudança dos ventos favorece a ocorrência de chuvas acima da média no Sul, que aumentam drasticamente o risco de inundações, enxurradas e deslizamentos de terra.

Em contrapartida, o fenômeno inibe a formação de chuvas no Norte e Nordeste, o que pode levar a secas severas na Amazônia e afetar a disponibilidade hídrica para consumo e agricultura. Ele também alertou que o aumento das temperaturas pode intensificar ondas de calor e elevar o risco de incêndios florestais no fim do inverno e na primavera.

As altas temperaturas associadas ao fenômeno representam um desafio adicional para a saúde pública, pois podem desencadear problemas respiratórios e cardiovasculares, que, muitas vezes, são subnotificados como causas diretas de óbito.

Além disso, o cenário de seca impacta a economia nacional através da produção de energia elétrica, visto que a baixa nos reservatórios obriga o acionamento de termoelétricas, o que resulta em tarifas mais caras para o consumidor final.

RS mais preparado

O tema mais debatido entre os integrantes foi o fortalecimento das estruturas de defesa civil como pilar fundamental para a resiliência diante de eventos extremos. O coronel Luciano Chaves Boeira, coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil do Rio Grande do Sul, compartilhou as lições aprendidas após os desastres históricos ocorridos em 2023 e 2024, que impulsionaram uma reestruturação substancial no estado.

Entre as medidas adotadas, ele destacou a contratação de especialistas em hidrologia, geologia e meteorologia, além da criação de departamentos dedicados exclusivamente à gestão de riscos e desastres.

“Foi um importante avanço. Sempre reforçamos com os municípios que o plano não pode ser só um documento de gaveta, precisa ser um instrumento público, para que as pessoas que residem especialmente nessas áreas de risco saibam como se organizar em um momento de desastre”, citou Boeira.

Além do reforço no capital humano, o investimento em tecnologia e infraestrutura de monitoramento também é prioridade. O governo adquiriu uma rede própria de 130 estações de monitoramento e investiu na compra de quatro radares meteorológicos (um banda C e três banda S) para ampliar a vigilância sobre as áreas mais vulneráveis.

O coronel destacou ainda que, após 2024, a Defesa Civil Estadual exigiu de todas as estruturas municipais a apresentação de planos de contingência como condição para acesso aos recursos do Fundo Rio Grande. Com isso, 2 anos depois, o governo recebeu o último dos 497 planos municipais.

A implementação de modelos hidrológicos e hidrodinâmicos para 60 municípios prioritários também faz parte da nova estratégia de antecipação. A preparação envolve ainda a realização de exercícios simulados com a participação da comunidade e de diversas secretarias de estado, para testar protocolos de resposta em situações críticas.

Comunidades e forças de contingência se preparam

Nesse sentido, o Estado conta com a parceria da Organização Internacional para as Migrações (OIM), que lançou o “Tchê Prepara”. O programa visa estruturar municípios e comunidades do Vale do Taquari para lidar com eventos climáticos extremos e desastres naturais.

Projeto “Tchê Prepara” capacita população no Vale do Taquari / Crédito: AI Colinas

A iniciativa foca na prevenção, na articulação entre poder público e sociedade civil e na resposta rápida a emergências. Nessa linha, a OIM realiza diferentes simulados de evacuação em cidades da região, com a participação de diversos membros da sociedade.

Colinas recebeu o simulado na terça-feira (26/5). Estiveram reunidos cerca de 100 participantes, entre moradores, estudantes, equipes da Defesa Civil, Brigada Militar, secretarias municipais e órgãos estaduais.

O simulado iniciou na Escola Estadual de Colinas, onde os alunos colocaram em prática o plano de contingência da instituição. Na sequência, moradores participaram da evacuação orientada de residências, sendo encaminhados até o Centro Comunitário. No local, foi realizado o cadastramento das famílias e o acolhimento das pessoas envolvidas na atividade. A ação teve a participação da Brigada Militar, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil do Estado.

No dia seguinte, Roca Sales reuniu moradores, equipes de emergência, órgãos de segurança e instituições parceiras em ação no Bairro Dois Lajeados, o “Batingão”. Durante o simulado, a população pôde conhecer rotas de fuga, pontos de encontro e os procedimentos corretos de evacuação, enquanto equipes da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Brigada Militar, Samu e demais órgãos envolvidos acompanharam a execução da atividade.

Na próxima semana será a vez de Arroio do Meio e Estrela. Na terça-feira (2/6), a comunidade de Palmas receberá o simulado, enquanto o Bairro das Indústrias realizará a ação na quarta-feira.

Alinhado a estas ações, o Estado realizou mobilizações de grande porte em abril para preparar as forças de contingência. Realizados em Bento Gonçalves e no Vale do Taquari, os testes operacionais reais dos órgãos e entidades que integram o Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil colocaram em prática os protocolos consolidados após os eventos extremos de 2024.

No Vale, a ação mobilizou 252 militares, 73 viaturas, 46 embarcações e um helicóptero, em busca de testar e aprimorar a capacidade de resposta da corporação diante de cenários de grande complexidade.

Os treinamentos contemplaram ocorrências simuladas de soterramentos, desmoronamentos de residências, buscas em áreas inundadas e emergências aquáticas. Também foram empregados recursos especializados, como busca com cães, drones, embarcações e apoio aéreo.

Lajeado, Arroio do Meio, Bom Retiro do Sul e Vespasiano Corrêa participaram da ação. Em Bento, mais de 400 profissionais estiveram envolvidos.

Órgãos estaduais realizaram simulados inéditos com mais de 500 participantes em situações de grande complexidade / Crédito: CBM RS – Divulgação

Monitoramento e alerta

O sucesso da preparação para o El Niño 2026 depende da capacidade dos órgãos técnicos de antecipar eventos adversos e comunicar riscos de forma eficaz à população. O Cemaden opera uma sala de situação 24h por dia, que monitora mais de mil municípios considerados críticos para deslizamentos e inundações.

Giovani Dolif explicou que o trabalho integra meteorologia, geodinâmica e hidrologia para avaliar a vulnerabilidade de cada região, e emite alertas que variam de moderado a muito alto.

Por sua vez, o INMET foca na previsão de tempo severo. A emissão de avisos de curto prazo (até 72h) utiliza uma escala de cores – amarelo, laranja e vermelho – para facilitar a compreensão do nível de perigo pela sociedade. A coordenação entre essas instituições e a Defesa Civil Nacional ocorre diariamente através de briefings matinais, onde o cenário de risco é atualizado em tempo real.

A Defesa Civil do Rio Grande do Sul, por exemplo, adotou linguagens inclusivas em seus alertas, como o uso de sinais gráficos para daltônicos, para garantir que a comunicação de risco seja acessível a todos.

Ainda, nessa semana, o protocolo de comunicação de alertas à população gaúcha foi atualizado pela Defesa Civil. Os alertas amarelos, que representam severidade moderada, não serão mais enviados via SMS aos telefones cadastrados no número 40199, sendo veiculados apenas nas redes sociais e no site oficial.

Conforme o governo do Estado, a revisão busca tornar os alertas mais assertivos e proporcionar maior compreensão da população sobre os diferentes níveis de severidade, de forma a contribuir para respostas mais adequadas diante de cada situação.

Os demais alertas – cor laranja para alerta alto, vermelho para alerta muito alto e roxo para alertas de ação imediata – seguem sendo disparados via SMS, redes sociais e site da Defesa Civil.

Discussões no Brasil e no RS

As discussões sobre o El Niño não se limitam apenas a órgãos especializados. Também nessa semana, durante sessão temática promovida pelo Senado, parlamentares, especialistas e representantes do governo debateram sobre o fenômeno.

O meteorologista, doutor pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e pesquisador, Carlos Nobre, enfatizou que as previsões futuras trazem muita preocupação, devido ao aumento gradual da temperatura global.

“Quando a temperatura do planeta está mais alta, temos muito mais energia na atmosfera, e isso gera os fenômenos meteorológicos climáticos que batem cada vez mais recordes”, explicou ele. Advertiu que, para outubro, novembro e dezembro deste ano, a probabilidade é de 98% do El Niño vir forte ou muito forte.

A representante do Ministério da Ciência e Tecnologia, Regina Célia dos Santos, citou que a União avalia os possíveis impactos nas diferentes regiões do Brasil. “Estamos informando, a partir desses estudos, quais regiões serão mais ou menos impactadas, ou por chuvas demais ou por chuvas de menos”, ressaltou.

José Antonio Marengo Orsini, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, citou que o Brasil ainda falha em transformar informação científica em prevenção de fato. “Emitimos alertas e acompanhamos projeções, mas seguimos construindo em áreas de risco, perto de córregos ou em regiões vulneráveis”, disse. Ainda, apontou a baixa cultura de prevenção e de coordenação entre governos.

Falou sobre as enchentes históricas do Rio Grande do Sul, nas quais muitas mortes ocorreram porque moradores ignoraram alertas e acreditaram que a água não ultrapassaria marcas já conhecidas. Nessa linha, ressaltou: “É melhor estar preparado do que achar que vem um El Niño moderado e enfrentar um evento muito forte.”

Já as Frentes Parlamentares de Proteção e Defesa Civil da Assembleia Legislativa e da Câmara Municipal de Porto Alegre se reunirão em um grande seminário de preparação e mobilização diante das previsões climáticas que voltam a preocupar o Rio Grande do Sul com a ameaça de um novo El Niño.

O encontro será realizado no dia 19 de junho, às 14h, no Plenário Ana Terra da Câmara Municipal de Porto Alegre, e reunirá autoridades da Defesa Civil, voluntários, forças de segurança, lideranças comunitárias e representantes de diversas instituições. A proposta é alinhar estratégias, fortalecer ações preventivas e preparar comunidades para possíveis novos eventos extremos ligados ao avanço do fenômeno climático.

A mobilização também pretende reunir pessoas que atuaram diretamente nos resgates e no apoio às famílias atingidas, de forma a valorizar a experiência de quem esteve na linha de frente durante os momentos mais dramáticos das tragédias de 2023 e 2024.

Descrições errôneas

Um dos maiores desafios apontados pelos especialistas é o combate à desinformação e ao sensacionalismo, que muitas vezes geram pânico desnecessário. Para eles, termos como “super El Niño” ou “Godzilla”, comuns em veículos não oficiais, não possuem respaldo técnico e podem atrapalhar as ações de planejamento.

“Reforço o apelo para que as pessoas que recebem mensagens em grupos de família, nas redes sociais, com alguns especialistas de origem às vezes duvidosa falando de catástrofes, confirmem junto aos órgãos oficiais, que trabalham de maneira séria, preocupados com a salvaguarda da vida”, apontou Mozar Salvador.

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