Plataforma reúne mais de um século de registros sobre cheias no Vale do Taquari

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) lançaram a plataforma digital Memória e História Hidrológica da Bacia Hidrográfica do Taquari-Antas, que reúne, em um único ambiente, dados históricos sobre cheias e inundações na região. A iniciativa organiza informações produzidas por pesquisas científicas ao longo de décadas e facilita o acesso a registros que antes estavam espalhados entre documentos, estudos acadêmicos e relatos da população.

O projeto busca preservar a memória dos eventos hidrológicos e contribuir para a compreensão dos riscos enfrentados pelas comunidades da Bacia Hidrográfica do Taquari-Antas, que ocupa cerca de 26,4 mil quilômetros quadrados no nordeste do Rio Grande do Sul e abriga aproximadamente 1,38 milhão de habitantes. A proposta é que o conhecimento acumulado ao longo do tempo também sirva de base para ações de prevenção e mitigação de futuras enchentes.

Na primeira etapa, a plataforma disponibiliza a série histórica dos níveis atingidos pelo Rio Taquari em Lajeado, principal centro urbano da bacia sujeito a grandes inundações. Os dados abrangem o período entre 1873 e 2025 e reúnem mais de 200 eventos, consolidados a partir de estudos científicos publicados em 2024 e submetidos a processos de levantamento, tratamento e validação técnica.

Os registros permitem acompanhar a frequência das cheias ao longo de mais de um século. Entre os destaques estão os anos de 1983 e 1984, com sete ocorrências, além de 1990, 2003 e 2020, que tiveram quatro eventos cada. A plataforma também apresenta a evolução das cotas do rio, que na maioria dos anos variaram entre 15 e 25 metros, mas ultrapassaram os 29 metros em 1941 e 2023, chegando a mais de 33 metros durante a enchente histórica de 2024.

Além das séries históricas, o site reúne o Mapa Cidadão, desenvolvido após os eventos extremos de maio de 2024. A ferramenta foi construída a partir de levantamentos em campo, análise de imagens de satélite, modelos digitais do terreno e informações enviadas pela própria população, integrando conhecimento técnico e ciência cidadã.

Os responsáveis pelo projeto são Sofia Royer Moraes, doutoranda em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental da UFRGS e professora da Univates, e Lucas George Wendt, doutorando em Ciência da Informação na UFRGS. Os dois já desenvolviam pesquisas sobre as enchentes do Rio Taquari em áreas distintas e uniram conhecimentos da hidrologia, documentação e memória para criar um repositório voltado a pesquisadores, gestores públicos, educadores e moradores da região.

A trajetória de Sofia Royer Moraes no estudo das cheias começou ainda na graduação em Engenharia Ambiental, em 2016, com um trabalho sobre o mapeamento das áreas atingidas por inundações em Lajeado. Desde então, participou de pesquisas sobre áreas suscetíveis a enchentes, influência do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) nas cheias, tempo de retorno estatístico das inundações, previsão de eventos extremos e alterações no leito do Rio Taquari. Após os desastres de 2023 e 2024, liderou a consolidação das séries históricas dos níveis do rio, que hoje formam a base da nova plataforma.

Além da produção técnica, a pesquisadora também atua em estudos voltados à ciência cidadã, comunicação de riscos e educação para a resiliência climática, aproximando a produção científica da participação da comunidade.

Lucas George Wendt contribuiu com a perspectiva da Ciência da Informação e dos Estudos de Memória. Suas pesquisas abordam a preservação, documentação e comunicação das memórias relacionadas aos eventos climáticos extremos, com foco na importância dos registros históricos, das tecnologias digitais e da preservação documental para que essas experiências não sejam perdidas ao longo do tempo.

Antes mesmo do lançamento da plataforma, os dois pesquisadores já haviam desenvolvido trabalhos conjuntos sobre ciência cidadã aplicada a desastres hidrológicos, estratégias de educação e comunicação para fortalecer a resiliência climática e a construção de uma memória documental das cheias no Vale do Taquari.

Segundo os idealizadores, a plataforma será ampliada gradualmente com a inclusão de novos documentos, mapas e informações validadas. A expectativa é consolidar um repositório permanente da memória hidrológica regional, preservando as experiências vividas pelas comunidades e oferecendo uma base de conhecimento que contribua para uma convivência mais consciente e resiliente com o Rio Taquari.

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