
Todos os anos, a residência dos saudosos avós Hedy e Osvaldo, em Lajeado, se torna palco de uma tradição que resiste ao tempo e une diferentes gerações da família Schlabitz/Lenz. Neste domingo de Páscoa (5/4), o pátio da propriedade no Bairro Florestal foi cenário da aventura em busca de 31 ninhos, atividade que exige estratégia, paciência e negociações por dicas devido à complexidade dos esconderijos.
O ritual tem início na noite de sábado, momento em que os preparativos mobilizam os netos e alguns dos 12 filhos do casal já falecido. Os irmãos Carolina (25) e Augusto Schmidt Lenz (23) explicam a dinâmica da organização: “Começa com o preparo dos ninhos em potes, que são identificados com o nome de cada um ou do casal”, diz Carolina.


Nessa edição, 31 potes foram entregues à equipe de primos responsáveis pela magia da Páscoa da família. Devido à previsão de chuva, foi preciso usar ainda mais a criatividade para escondê-los apenas em locais cobertos – mas não necessariamente por telhados.
O grau de dificuldade da busca costuma ser proporcional ao histórico de cada familiar durante o ano. Augusto revela que os “coelhos” podem ser bastante rigorosos com quem não se comportou, especialmente com primos mais velhos, que geralmente não têm outra opção. “Se pode procurar em um nível um pouco mais elevado, a gente capricha: enterrado, dentro do telhado…”, sugere.
Além dos mais variados esconderijos, a escolha por recipientes herméticos também é uma medida de segurança contra “invasores” que frequentam o pátio. A filha mais nova do casal Hedy e Osvaldo, Elisabete Cristina “Nega” Lenz (59), recorda que o cuidado com a higiene e a proteção contra invasores sempre foi uma instrução dos mais velhos. “Como o pátio é muito grande e cercado por vegetação, pode haver gambás, gatos dos vizinhos, aranhas, ratos. Já aconteceu de deixar um ninho próximo ao canil do cachorro e ele resolver comer o que tinha dentro”, conta.
Apesar da mudança dos ninhos e de quem esconde os potes, o espírito da festividade permanece intacto há mais de 90 anos. Para a filha mais velha, Melita Teresinha Lenz Hagemann (84), acompanhar a agitação dos sobrinhos e netos traz à tona memórias de uma época em que a Páscoa tinha outros sabores.
Ela recorda que, desde sua infância, os ninhos são compostos por cascas de ovos pintadas à mão, que contem desde ovos cozidos a amendoins com açúcar – além das bolachas tradicionais, produzidas e pintadas à mão cerca de duas semanas antes da Páscoa (e do Natal) e, é claro, de chocolates. “Tudo era enfeitado ao máximo. Era uma tradição que veio dos avós. Acreditávamos que o Coelho descia do céu com os ninhos, era muito bonito”, relembra.
Hoje, embora a nova geração tome a frente da organização, os mais velhos permanecem como guardiões da história e se divertem a cada achado. Aqueles que podem, auxiliam durante a caça. Os demais ficam responsáveis pelo almoço, sob a árvore de canela centenária.
O que antes era uma atividade para poucos casais e crianças, hoje movimenta cerca de 70 familiares e “agregados”, que passam a manhã em busca dos presentes do Coelho. Para Nega, o futuro da tradição está garantido pelo entusiasmo dos mais novos: “A geração dos sobrinhos e sobrinhos-netos leva a sério. É uma festa para eles e para a gente. Vai continuar por muitos anos ainda”, conclui.
