Fotografia precisa contar histórias, defende fotógrafo William dos Santos

Com carreira iniciada no analógico, o profissional afirma que o excesso de imagens digitais fez fotos perderem significado

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Em visita aos alunos gaúchos, como a aposentada Lúcia Heineck, Will provoca reflexões sobre a arte da fotografia e o propósito de imagens / Crédito: Anderson Lopes

A facilidade proporcionada pelas câmeras digitais e pelos celulares ampliou o acesso à fotografia, mas também, trouxe um efeito colateral: a perda de significado nas imagens. Essa é a avaliação do fotógrafo e professor mineiro William “Will” Oliveira dos Santos, que há mais de três décadas se dedica à fotografia. Atualmente, percorre o Brasil para ensinar técnicas e incentivar fotógrafos iniciantes a resgatar o valor narrativo das imagens.

Em entrevista durante visita ao Rio Grande do Sul, onde encontra alunos e outros participantes de seu grupo de fotografia, Will afirma que a popularização da tecnologia trouxe inclusão, mas também, banalização.

Segundo ele, o problema não está na tecnologia, mas na forma como ela é utilizada. “A fotografia se tornou muito fácil. No analógico, você tinha 12 ou 36 poses e precisava escolher o momento certo. Hoje, você pode fazer milhares de fotos sem custo e isso fez muita gente perder o cuidado com o significado da imagem”, explica.

Will começou a se interessar por fotografia ainda jovem, motivado pelas imagens da própria infância. Como filho mais velho da família, era frequentemente fotografado pelos tios. Anos depois, quando se casou e teve filhos, decidiu que queria proporcionar a eles o mesmo registro da memória familiar.

Foi nesse momento que começou a estudar fotografia. Na época, o aprendizado exigia persistência, com revistas especializadas, filmes fotográficos e várias tentativas até acertar o resultado na revelação.

A primeira câmera digital só chegaria em 2005. Mesmo com a mudança tecnológica, ele continuou a fotografar e a aperfeiçoar a técnica. Depois de um período afastado da atividade, voltou a se empenhar mais intensamente durante a pandemia, impulsionado pela popularização das câmeras de celular e pela criação de comunidades on-line dedicadas à chamada fotografia mobile.

Para Will, fotografar não significa apenas registrar algo bonito. É uma forma de linguagem capaz de transmitir emoções e memórias. Ele cita como exemplo uma retrato carregado de simbolismo feito por uma de suas alunas. Era um caderno, uma caneta, um perfume e um batom sobre uma mesa. Na imagem, a aluna simulava escrever uma carta, borrifar perfume no papel e selá-la com um beijo.

O fotógrafo explica que, para quem viveu a época das correspondências amorosas, a imagem evoca sentimentos e lembranças. “Quem já mandou ou recebeu carta sente tudo aquilo de novo. A fotografia pode despertar cheiro, emoção, memória. É isso que faz uma imagem ter valor. Você retrata uma goiaba e quem gosta da fruta quase sente o cheiro. A fotografia tem esse poder”, aponta.
Conforme ele, um bom retrato deve provocar sensações semelhantes às da experiência real.

O excesso de imagens

Will defende o potencial democratizador das novas tecnologias, mas acredita que a facilidade técnica contribuiu para um excesso de imagens sem propósito, uma desvalorização simbólica. “Se cada foto custasse um real, as pessoas pensariam antes de apertar o botão. No digital, você pode fazer 12 mil fotos sem gastar nada. Isso diminuiu o peso da fotografia”, diz.

O resultado, segundo ele, é uma grande quantidade de imagens que não contam histórias e acabam esquecidas em galerias de celulares.
Will também comentou a importância do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, referência mundial no fotojornalismo. Na avaliação dele, o reconhecimento do trabalho de Salgado ocorreu primeiro no exterior, reflexo do que considera uma dificuldade cultural do Brasil em valorizar seus próprios profissionais: “Costumamos achar que o que é bom vem de fora. O Salgado se consolidou na Europa e depois passou a ser reconhecido aqui.”

Comunidade e aprendizado

Em 2023, o fotógrafo criou um grupo em uma rede social que hoje reúne mais de 220 mil participantes. No espaço virtual, ele estimula a troca de conhecimento e incentiva iniciantes. Uma das principais regras do grupo é a convivência respeitosa.

Além da comunidade digital, ele também criou o curso “Fotografia na Prática”, no qual ensina técnicas básicas e incentiva os alunos a desenvolver projetos narrativos com séries de imagens.

Apaixonado por fotografar pessoas, Will prefere observar a cena com calma antes de fazer o registro. Ele define seu estilo como o de um “atirador de seis balas”, em referência ao revólver clássico do faroeste: “Eu não fotografo como metralhadora. Observo a situação e espero o momento certo.”

Essa filosofia está ligada ao conceito do “momento decisivo”, popularizado pelo fotógrafo Henri Cartier-Bresson, quando todos os elementos da cena se alinham para formar uma imagem significativa.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória recente ocorreu ao restaurar fotografias antigas de uma senhora de quase 80 anos. Ú únicas lembranças da infância, do casamento e dos filhos, as imagens estavam danificadas pelo tempo. “Não era só uma foto. Era a história de uma vida inteira”, diz.

Para ele, essa experiência resume o verdadeiro valor da fotografia. “Não é só apertar o botão porque algo é bonito. É registrar momentos que tenham significado para alguém ou para a sociedade”, conclui Will.

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