Moradores de 13 bairros de Lajeado enfrentaram dias de desabastecimento após problemas no sistema de captação e distribuição de água da Corsan provocados pela cheia do Rio Taquari na semana passada. A interrupção no fornecimento obrigou famílias a racionar o consumo, alterar a rotina doméstica e buscar alternativas para atividades básicas, como cozinhar, lavar roupas e tomar banho. Em alguns bairros, foram cinco dias sem água.
Diante da demora para a normalização, a Prefeitura cobrou providências da concessionária e da Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul (Agergs). Já a Corsan/Aegea anunciou um pacote de investimentos para tornar o sistema mais resistente a futuros eventos climáticos.
Os transtornos começaram na quinta-feira (23/7), quando a elevação do nível do rio comprometeu a captação de água. A companhia informou que galhos, troncos e sedimentos arrastados pela correnteza danificaram equipamentos do sistema de bombeamento. Durante a recuperação, uma bomba de grande porte apresentou falha mecânica e, posteriormente, foi identificado um vazamento oculto em uma adutora entre a Estação de Tratamento de Água (ETA) e o reservatório R-10, prolongando o desabastecimento.
Improvisos
Morador do Bairro São Cristóvão, Vinícius Meyer, pai dos gêmeos Ana e Luca, de 6 anos, conta que a família precisou adaptar praticamente toda a rotina doméstica. Segundo ele, as refeições passaram a ser preparadas com equipamentos como air fryer e forno para reduzir o número de panelas utilizadas. “Conseguimos administrar bem o consumo com os recursos que tínhamos estocados, mas a situação começa a ficar mais complicada”, relata.
O maior desafio, segundo Meyer, passou a ser a higiene da família. A caixa d’água da residência já está no limite, obrigando a buscar apoio de familiares. “As crianças foram para a casa do meu sogro para tomar banho. Conseguimos nos adaptar com banhos rápidos, mas quando percebemos que a normalização podia demorar mais alguns dias, a preocupação aumentou”, ressalta.
Além dos transtornos no dia a dia, Meyer destaca que a falta de água também gera custos indiretos para as famílias. Para manter a rotina, ele precisou recorrer ao apoio de parentes, o que implica deslocamentos e mudanças na organização da casa. “Muda toda a rotina e acaba trazendo custos extras. É frustrante porque, desta vez, não parece haver uma justificativa tão evidente para uma demora tão grande na normalização”, aponta.
Incertezas
No Bairro Campestre, Franciele Zeni também enfrentou dias de incerteza. Mãe do menino Murilo, de 3 anos, ela relata que a residência ficou sem água durante boa parte da quinta-feira, foi abastecida na sexta, mas voltou a enfrentar interrupções durante todo o sábado e o domingo.
Para enfrentar a situação, a família passou a economizar cada litro disponível. Acumulamos a louça para lavar tudo de uma vez e compramos água para beber porque, quando o abastecimento voltou na quinta para sexta-feira, a água estava com terra”, relata.
Franciele afirma que compreende o esforço das equipes da concessionária em solucionar os problemas, mas questiona a vulnerabilidade do sistema. “A gente mora praticamente no fim da linha de abastecimento e fica preocupado tanto com a frequência dessas interrupções quanto com a qualidade da água que está chegando”, destaca.
Prefeitura cobra investimentos
A Prefeitura de Lajeado afirma que acompanhou a situação desde os primeiros episódios de desabastecimento e que manteve contato permanente com a Aegea/Corsan em busca de uma solução. Apesar de reconhecer que a cheia do Rio Taquari trouxe dificuldades operacionais à captação de água, o município considera que a continuidade dos problemas, vários dias após o evento, é incompatível com a essencialidade do serviço de abastecimento.
Diante da sequência de falhas, a administração encaminhou ofícios à Corsan/Aegea e à Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul (Agergs), cobrando providências imediatas e medidas estruturais. No documento, o município reconhece que a cheia provocou dificuldades operacionais na captação, mas considera incompatível que um serviço essencial permaneça instável vários dias após o evento.
Além da normalização do abastecimento, a administração municipal solicita a reativação da antiga estação de captação para servir como alternativa em situações emergenciais, a ampliação do uso de poços tubulares profundos e a elaboração de um plano de contingência específico para eventos hidrológicos. Também pede que a Agergs intensifique a fiscalização sobre a prestação do serviço.
Agergs pede explicações
A Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul (Agergs) notificou a Corsan para prestar esclarecimentos sobre os problemas no abastecimento de água em Lajeado. Solicita informações sobre as causas das falhas, o número de imóveis atingidos, a previsão de normalização, as medidas emergenciais adotadas e as ações planejadas para evitar novas ocorrências. Também requisitou dados sobre a qualidade da água durante o período e eventuais impactos da cheia nas estruturas do sistema.
Plano de melhorias
Em nota divulgada na segunda-feira (27/07) a Corsan/Aegea afirma que os problemas registrados nos últimos dias foram resultado de uma sucessão de ocorrências desencadeadas pela cheia do Rio Taquari. Além da elevada turbidez da água e do acúmulo de galhos e troncos na captação, uma bomba de grande porte apresentou falha mecânica e, posteriormente, foi identificado um vazamento oculto em uma adutora, fator que prolongou a recuperação dos reservatórios e a normalização do abastecimento.
A Concessionária informou ter concluído ainda na segunda-feira o reparo do vazamento na adutora. Assim, o sistema entrou em fase de recuperação operacional, com recomposição gradual dos reservatórios. A companhia também anunciou um pacote de investimentos para reduzir a vulnerabilidade da rede.
Entre as medidas previstas estão a instalação de três válvulas de proteção no sistema de bombeamento da captação e 11 novos boosters para acelerar a recuperação do abastecimento. Também serão instalados outros 11 pontos de monitoramento de pressão, automação completa do parque de bombeamento de Lajeado.
O plano prevê ainda a contratação de um especialista em eletromecânica e a setorização da rede de distribuição. “Essas intervenções devem tornar o sistema mais resiliente diante de futuras cheias, reduzindo o impacto de eventos climáticos extremos sobre o abastecimento da cidade”, diz a nota.

