Família Senna converte futebol em legado de pai para filhos

No Dia dos Pais, a história de Giva e dos filhos Muca, Rafa e Bebeym mostra que alguns vínculos começam em momentos simples. Unidos pelo esporte, transformaram o campo em lugar de ensinamento, conquista e amor.

Há famílias que se encontram ao redor da mesa nos domingos. Outras se reúnem para colocar a conversa em dia. Os Senna encontraram um jeito diferente de viver esses momentos: dentro de campo e a bola no pé.

Para Givanildo Lopes Senna, o “Giva”, de 52 anos, o futebol nunca foi só esporte. Pois se trata do caminho que o levou para longe de casa em busca do sonho, onde construiu sua história e, anos depois, o elo que uniu seus três filhos: Emanuel “Bebeym”, Rafael e Samuel “Muca”.

Hoje, o que começou na infância de Giva segue em uma nova geração. Eles nunca dividiram apenas o sobrenome, mas vestiários, viagens, comemorações e a oportunidade de jogar lado a lado. “Nunca imaginei que Deus me daria esse presente. Sempre sonhei em atuar com meus filhos. Tive essa felicidade e ainda fui campeão com eles. Sigo com os treinos para jogar também com meus netos”, conta Giva.

Antes de vestir camisas de clubes tradicionais do futebol gaúcho e construir uma carreira que passou por profissional e amador, Giva era apenas um menino que acompanhava o próprio pai. Sem recursos, improvisava bolas com pedaços de pano ou sacos de batata. Os campos eram terrenos vazios que a garotada limpava para transformar em espaço de jogo.

Aos 14 anos, deixou Minas do Leão pelo sonho de ser jogador. Passou pelas categorias de base do Internacional, atuou em diversas equipes do interior e construiu trajetória respeitada dentro do futebol gaúcho. Sem perceber, enquanto escrevia a própria história, também começava a inspirar outras.

“Meus filhos nasceram com o futebol no sangue e sempre gostaram da bola. Parece que passou de pai para filho”, comenta.

Inspiração

Enquanto Giva defendia diferentes clubes, os filhos cresciam na torcida. As lembranças da infância têm o mesmo cenário: estádio cheio, gramado verde e o pai de chuteiras.

Muca lembra que a relação com o futebol começou antes de crescer “Meu pai sempre me levava aos jogos. Eu era o parceiro oficial dele nos fins de semana. O futebol está na nossa história há muito tempo”, diz.

Uma das primeiras memórias que guarda é da final do Regional de 2006, no Estádio do Lajeadense. Ainda pequeno, se impressionou não só com a partida, mas a forma como as pessoas tratavam o pai. “Ver o carinho e respeito que todos tinham por ele me marcou. Queria construir isso também. Ser respeitado e fazer amizades com o futebol”, revela.

Com Bebeym não foi diferente. Desde criança, acompanhava Giva pelos campos da região, enquanto dividia o tempo entre brincar com outras crianças e observar o pai. Foi assim que aprendeu o que levaria para campo. “Ele me ensinou compromisso e respeito. São coisas que ficam para a vida”, aponta.

Rafa também guarda cenas que o tempo não consegue apagar. Ainda menino, corria pelos estádios enquanto acompanhava o pai. “Lembro dos tempos de Lajeadense. Aquela atmosfera da torcida e a adrenalina despertava a vontade de viver aquilo”, destaca.

Em campo

O destino demorou para proporcionar o encontro dos quatro em campo. As diferenças de idade faziam parecer improvável que Giva pudesse atuar ao lado dos filhos. Mas o futebol costuma reservar capítulos especiais. O primeiro deles aconteceu quando os filhos passaram a integrar a equipe principal. Depois vieram os campeonatos divididos, as viagens e a convivência no campo.

Para Rafa, entrar em campo com o pai foi um daqueles momentos que não se repetem. “É uma coisa que precisamos aproveitar. O tempo passa rápido. Jogar com o pai e com os irmãos é um privilégio”, avalia.

Muca resume o momento em poucas palavras, mas muitos sentimentos. “Poucos têm o privilégio de jogar ao lado do pai e dos irmãos. Sou grato por viver isso”, ressalta.

Na mesma linha, Bebeym diz que a oportunidade é especial. “Parecia algo distante pela diferença de idade. Quando aconteceu, foi único”, acrescenta.

Título juntos

Se existe uma conquista que une a memória dos quatro, foi em 2025. Com as cores do Riograndense, pai e filhos levantaram a taça do Municipal de Imigrante. Essa foi a concretização de um sonho alimentado em décadas. “Ser campeão ao lado do meu pai e dos meus irmãos é uma lembrança que guardo para sempre”, afirma Muca.

Rafa também não esconde a emoção ao recordar aquele dia. “Foi o campeonato inteiro lado a lado. Conseguimos conquistar a taça e isso fica na memória”, relata Rafael.

Para Giva, o troféu ocupa um lugar especial porque representa algo impossível de comprar. “O futebol me deu muita coisa, mas ser campeão com meus filhos é um presente que não tem explicação”, diz.

Quem imagina que o futebol termina quando o árbitro apita o fim da partida desconhece a rotina da família Senna. Depois dos jogos, sempre vem a resenha. A família se reúne para comentar os lances, lembrar jogadas, brincar com os erros e reviver os momentos.

Ali que vitórias e derrotas ganham o mesmo valor. “Meu pai sempre ensinou que podemos perder uma batalha, mas nunca a guerra”, recorda Muca.

Valores

Dentro de campo, Giva admite que ser exigente. “Cobro bastante, ninguém quer perder. Eles me cobram também. Só que agora eles correm bem mais do que eu”, brinca.

Por trás dos puxões de orelha, existe um objetivo maior: ensinar valores que permanecem mesmo depois que o jogo acaba. “Humildade, comprometimento, honestidade e respeito”. Palavras que aparecem no discurso dos três filhos quando falam do pai.

Giva não foi só um zagueiro respeitado ou um capitão por onde passou, se tornou referência dentro da própria casa. Neste Dia dos Pais, a família Senna celebra uma história construída com chuteiras gastas, gramados embarreados, viagens, abraços depois do fim do jogo e sonhos realizados.

Porque existem heranças que não cabem em fotos ou medalhas. Algumas são passadas de pai para filho, em um simples toque na bola.

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