Sérgio Marasca começou a jogar futebol em 1977, quando estudava em Teutônia. Quase 50 anos depois, o esporte continua. Aos 67 anos, o ex-zagueiro entra em quadra nas tradicionais partidas de segunda-feira e participa do Máster do Flamengo.
Depois de iniciar no Juventude de Linha Frank, Marasca passou pelo Cruzeiro e Fluminense, além de defender o Gaúcho por boa parte da carreira. No fim dos anos 1980, já perto dos 30 anos, encerrou a trajetória como jogador no Flamengo. Foi lá que surgiu o convite que o levaria para outra função.
Um dirigente chamou Marasca para escalar a equipe no Regional. Sem experiência como treinador, aceitou o desafio. A partir daí, acumulou campanhas pelo Fluminense, Fluminense de Linha Harmonia, Gaúcho e Cruzeiro. Só pelo Fluminense, foram 21 campeonatos.
A mudança fez Marasca perceber que jogar e treinar são experiências diferentes. Dentro de campo, o atleta pode errar, reagir e até descarregar a frustração. À beira do gramado, a responsabilidade é tomar decisões e fazer o grupo funcionar.
“É muito mais difícil escalar time que jogar. Tu achas que a coisa tem que andar e, às vezes, não é como a quer. Do outro lado também tem um adversário pra te anular”, explica.
Uma das preocupações era entender cada jogador. Alguns respondiam melhor a uma cobrança mais firme; outros poderiam se afastar se fossem pressionados. Para Marasca, conhecer os perfis era fundamental para extrair o melhor do elenco.
“Era preciso saber quem cada um era. Tinha jogador que precisava de cobrança para entrar ligado, enquanto outro, se fosse cobrado, podia se afastar e até deixar o time”, recorda.
Entre os momentos marcantes, está a campanha do Fluminense que terminou com o título da 2ª divisão do Regional, em 1994. Marasca lembra de um time sem grandes recursos, mas unido. A equipe terminou a competição com a melhor defesa, o melhor ataque e a melhor disciplina, zero expulsões e sem jogadores suspensos por terceiro cartão.
Na memória
Nem todas as lembranças, porém, são de taças. Marasca guarda derrotas que ajudaram a formar o treinador. Uma delas ocorreu em um mata-mata no campo do Gaúcho. Com a equipe em vantagem, dois gols de cabeça – em cobranças de escanteio – mudaram a história do confronto em poucos minutos.
Mesmo depois da eliminação, Marasca rejeitou a ideia de encontrar apenas um culpado. Para ele, reconhecer a capacidade do adversário também faz parte do futebol.
“Pode ser que não fizemos o nosso dever, mas tem mérito do outro time. Precisamos reconhecer quando o outro lado fez por merecer”, afirma.
Em outra decisão, precisou deixar um titular fora da equipe para reorganizar o time. A experiência ensinou que o treinador não pode ter ações pensadas apenas na escalação. É necessário preservar a confiança do grupo e fazer com que os jogadores entendam os motivos de cada escolha.
Além dos títulos e das partidas, Marasca considera que uma das principais heranças do futebol está nas amizades construídas. As rivalidades que um dia foram intensas também dão lugar à convivência. Para Marasca, o jogo é apenas o começo.
Depois vêm as conversas, a janta e os comentários sobre futebol. “O jogo termina e tomamos uma cervejinha, conversamos e brincamos. O futebol faz isso. Criamos grandes amigos e, depois de tantos anos, viajo para outros lugares e encontro pessoas que conheci por causa do esporte”, destaca.
Para a vida
O aprendizado adquirido no futebol também acompanhou Marasca em outras áreas. Antes e durante o esporte, ele teve experiências de liderança em atividades comunitárias, no Colégio Agrícola e no trabalho como representante comercial.
Para ele, todos esses ambientes exigem a mesma capacidade de lidar com pessoa e opiniões diferentes, além de saber quando é necessário ceder. “É preciso respeitar para ser espeitado. Tem que saber o momento de entrar, de sair, de buscar as coisas e também de ceder a oportunidade para os outros”, reflete.
A mesma filosofia permanece no futebol. Marasca acredita que a rivalidade é importante dentro do jogo, mas não pode determinar as relações fora dele. Ao longo de quase cinco décadas, foi essa capacidade de competir, aprender, respeitar e construir vínculos que manteve o esporte presente em sua vida.
Aos 67 anos, ele já não está mais à beira do gramado como treinador, mas continua dentro de campo. Entre apresentações, partidas do Máster, lembranças de títulos e histórias de vestiário, ele mostra que, para quem dedicou uma vida ao futebol, o apito final está longe de representar o fim da relação com o esporte.

