A região do Chaco, norte do Paraguai, registrou temperatura de 44º nesta quinta-feira (22/10), com sensação térmica de 50º. Somado a isso, um vento forte, que arrastava espessas nuvens de poeira ofuscava a visão, explicando as vestimentas dos trabalhadores: roupas compridas, com proteção no rosto para respiração. A chuva varia entre 400mm e 600mm por ano.
Mesmo com o clima árido e seco da cidade de Filadélfia, a Cooperativa Neuland consegue reunir associados de diversas atividades agrícolas, entre elas a do plantio de soja. A safra é uma vez por ano, portanto, não há safrinha. Toda a produção depende da água captada das esparsas chuvas ao longo do ano. Cada residência, casa, comércio, tem o sistema próprio de cisterna. No caso de grandes produções, grandes reservatórios de água garantem o mínimo para colheita.

Água da chuva é armazenada para ser utilizada ao longo do ano / Crédito: Anderson Lopes
É o caso da Estância Postdam. Eles reservam 1.200 hectares para pasto e sorgo, com capacidade para alimentar 5 mil bois em confinamento. São 4,4 toneladas de milho e 25 mil toneladas de silagem produzidas pelos sócios. Ao todo, são 7 mil animais, contando os que ficam soltos nas vastas áreas de pastagens secas.
Para dar conta de tratar toda esta demanda, tem um reservatório, com capacidade para 95 mil litros de água captada da chuva. A técnica é terra e lona. Poços artesianos não funcionam. O máximo de perfuração alcançada foi de 290 metros, porém, a água encontrada embaixo é salinizada, ou seja, mais salgada que a água do próprio oceano. A região é toda plana e os geólogos apontam que em um passado de milhões de anos, tudo ali estava em baixo do mar.
A coordenação desta estrutura parte do Grupo Carlos Casado, que antigamente era detentor de nada menos que 200 milhões de hectares. Hoje, ele corresponde a 400 mil, contado as reservas naturais dos povos nativos. Na região do Chaco paraguaio, resiliência é uma palavra efetiva, muito bem empregada.
Visita dos brasileiros
De acordo com o coordenador de produção do Grupo Carlos Casado, Henrique Valenzuela, destaca o sucesso atual da empresa, fruto de uma trajetória marcada por acertos e tropeços, baseada em anos de adaptação às adversidades climáticas locais. “Somos a primeira empresa a fazer uma agricultura em grande escala. Em 2008, iniciamos o projeto para cultivo de 15 mil hectares. Então mostramos os números, de forma transparente, o que eleva a empresa, inclusive na bolsa de valores”, disse.
Uma das características que chamaram atenção dos integrantes do Grupo Amigos da Terra, é a forma de fertilização do solo. “Aqui se faz a soja com malha de palha, não se usa fertilizante artificial. É um formato de resiliência e resultado das tentativas, erros e acertos”, finaliza.

Em terra árida, vaca premiada internacionalmente
O responsável pela pecuária Oliver Fiber revela que o sucesso na criação de animais de elite com peso impressionante resulta de décadas de seleção genética rigorosa combinada com uma alimentação balanceada. A operação é grandiosa, um rebanho significativo de animais de exposição, registro e confinamento, servindo também para evidenciar a importância da troca de experiências com produtores de regiões distintas. As temperaturas extremas do Chaco paraguaio forjou uma geração resiliente no campo.
Há animais de sangue puro, um deles com peso de 1.050 kg de apenas 2 anos e 6 meses. “Isto se deve aos muitos anos de seleção intensa com nutrição adequada, assim, o animal pode demonstrar todo seu potencial, com as três raças: Brahman, Brangus e Santa Truce. Estes de exposição somam 40 animais”, comenta Fiber.
Receber os brasileiros, que tem abundância em recursos hídricos, é uma oportunidade. “O intercâmbio de expêriencias ajuda o produtor a crescer. As altas temperaturas interferem pouco, pois os animais já estão ambientados. O Chaco é desta maneira, tanto o animal, quanto o ser humano que quer viver aqui tem que se adaptar”, sustenta.
Para o vendedor de equipamento de leite e representante comercial, Elmar Käfer, mais conhecido como Fritz, o alto conhecimento técnico e a gestão inteligente da água por meio de cisternas permitem que os produtores locais superem limitações climáticas severas. “Este pessoal está muito adiantado tecnicamente e profissionalmente nas suas áreas e em comparação a preços, qualidade de animais, genética, eles estão até acima de nós do Brasil”, resume.
O Grupo Amigos da Terra segue no Paraguai e deve retornar neste domingo, com ainda mais experiências que deverão impactar nas produções locais em um vale fértil e de vastos recursos.


