A Bióloga e pesquisadora Gisele Buffon comanda uma das startups de maior destaque no Vale do Taquari. Finalista do South Summit Brasil, a empresa criada em 2020 conquistou recursos em editais, acelerações e investimentos antes mesmo de apresentar o primeiro produto ao mercado.
A Syntalgae nasceu com o objetivo de desenvolver tecnologias para produzir biomassa e moléculas de interesse a partir de microalgas. Com potencial para aplicação no agronegócio, na saúde, na indústria de alimentos e de cosméticos, a startup foi adquirida por um grande grupo empresarial, com aspirações de levar a tecnologia ao mercado global.
Grupo Popular – Qual a origem da tua caminhada profissional?
Gisele Buffon – Sou natural de Muçum e meu maior sonho era ser professora. Não conhecia pessoas que empreendiam, muito menos em biotecnologia. Durante a graduação, descobri que poderia fazer mestrado e doutorado e, depois, me tornar professora universitária. Apaixonei-me pela universidade, especialmente pela Univates, pela estrutura e pelo conhecimento que encontrei ali.
Popular – De que forma o ambiente acadêmico influenciou a trajetória?
Gisele – Na Univates, tracei o objetivo de ser professora universitária e entendi que precisava seguir o caminho do mestrado e do doutorado. Quando fiz o mestrado, em Biotecnologia, era professora municipal e praticamente todo o meu salário era destinado a pagar o curso. Meu doutorado foi em Fisiologia Vegetal. Publiquei vários artigos, fui para Brasília e minha tese ficou entre as três melhores do Brasil. Imaginei que finalmente seria professora universitária, mas isso também não aconteceu. Foi quando comecei a pensar em empreender na minha área.
GP – Como surgiu a ideia de negócio?
Gisele – Minha colega de doutorado, Ania Hübner, estava ao meu lado quando começamos a conversar sobre a possibilidade de empreender. Fizemos um brainstorming para identificar em qual área poderíamos atuar. Consideramos diferentes possibilidades, mas percebemos que, na Europa, estava crescendo o movimento de utilização de biomassa de microalgas em diferentes produtos. Foi a combinação da nossa formação científica com uma percepção de oportunidade de mercado que nos levou a essa escolha.
GP – Quanto tempo leva para transformar conhecimento científico em negócio?
Gisele – Quando falamos de uma empresa de base tecnológica, o tempo de maturação é muito longo. Estamos falando de tecnologias que exigem conhecimento, investimentos de risco e desenvolvimento de processos complexos. Hoje temos seis anos de empresa, o que ainda é pouco para esse tipo de negócio. Nós sempre tivemos clareza de que queríamos produzir e comercializar.
GP – Como foram os primeiros passos da empresa?
Gisele – Empreender envolve trabalhar com risco, independentemente do segmento. O início é muito difícil. Criamos a startup em 2020 no meio da pandemia, quando o mercado brasileiro de investimentos ainda era muito imaturo para Deep Techs. Eu estava saindo do doutorado, já não tinha bolsa e comecei a trabalhar algumas horas como professora. Fomos contempladas com o edital Doutor Empreendedor, da Fapergs, que possibilitou uma bolsa para a Ania e recursos para a compra de insumos. Nossa trajetória foi muito rápida. Em 2020 conseguimos o primeiro investidor-anjo. Em 2022, esse investidor saiu e recebemos o investimento do Vibee Unimed. Em 2023 fomos adquiridas por um grupo empresarial.
GP – O que são os bioativos de microalgas?
Gisele – As microalgas funcionam como pequenas plantas. Muitos bioativos naturais são obtidos de plantas ou por meio de síntese química a partir do petróleo, que é uma fonte não renovável e da qual queremos reduzir a dependência. As microalgas são microrganismos fotossintetizantes capazes de sintetizar diferentes moléculas. Produzimos as microalgas em fotorreatores fechados. Elas se multiplicam e geram biomassa. A partir dessa biomassa, realizamos um processo de refino dessas molécula.
GP – Quanto o apoio de outras pessoas e instituições foi importante?
Gisele –Empresas são feitas de pessoas, apoios e sonhos. No início, procuramos o professor Henriques, uma referência em biotecnologia e fundador do Instituto Royal. Ele nos recebeu muito bem e disse que aquilo tinha futuro. Foi quem nos conectou com Simone Stülp, que na época atuava no parque tecnológico da Univates e com a Cíntia Agostini. Elas recomendaram nossa incubação no Tecnovates. A partir dali, construímos uma rede muito grande, além do Sebrae, do Instituto Caldeira, do Vibee, entre outros. Uma ideia incrível pode morrer se ficar isolada, sem um ecossistema que ajude a desenvolvê-la.
GP – Qual o papel do conhecimento acadêmico na criação de uma empresa?
Gisele – Em Biotecnologia, não existe a possibilidade de desenvolver produtos sem estudar muito. Para criar produtos disruptivos é necessário conhecer profundamente ciência e dados. Não existe como entrar no ecossistema de Deep Tech sem estudo e conhecimento especializado. Vejo mentores vendendo facilidades, mas não conheço ninguém que tenha mudado de vida sem trabalhar e estudar muito. A universidade não é o único caminho, mas é um caminho maravilhoso. Minha recomendação para os jovens é estudar, conectar-se com pessoas e buscar ecossistemas consolidados, além de aprender com profissionais que são referência há muitos anos. Não existe caminho fácil. Quem promete facilidade geralmente está ganhando dinheiro vendendo essa promessa.

