O Grupo Amigos da Terra ampliou a rede de amizade. O ônibus de dois andares da empresa Unitur Turismo oferecia starlink, mas mesmo assim a primeira interação foi a direta. Em menos de 20 minutos de ônibus em movimento, algumas cervejas já estavam sendo distribuídas no andar de baixo, que ficou conhecido como ‘cassino’.
Havia pessoas de diversas idades, entre 33 e 89 anos. Naquele momento era um grupo rumo ao desconhecido planejado, com conforto e esperança. Tinha amplitude de idade, mas as regras do jogo de pife eram as mesmas. Não havia ali ninguém querendo saber o time que torcia, o partido que acreditava, a classe social ou a profissão. Tão logo se descobriu as preferências partidárias, mesmo assim a amizade permaneceu intacta.
Única surpresa desagradável foi a falta de cerveja nos supermercados, pois a cultura menonita evita a adicção ao álcool e outras drogas. Assim também foi possível perceber que não há muitas patrulhas de polícia nas cidades. Os comércios são guarnecidos com seguranças particulares armados com grosso calibre.
Cada visita em alguma propriedade, ou cooperativa, vinha com registros e aprendizado. Tanto nas turbinas potentes de Itaipu, quanto nas visitas ao museu dos menonitas, nas paradas obrigatórias no meio da rodovia para uma revista surpresa da guarda nacional ou mesmo no descanso no final do dia, o grupo permaneceu coeso.
Chaco lembra Texas
Para visitar a cidade de Filadélfia, no norte paraguaio, foi preciso fretar outro ônibus. O calor intenso de 45º somado aos fortes ventos apresentaram um cenário atípico. Enquanto o coletivo adentrava em terras de chão batido, a poeira era mais veloz que o próprio veículo, proporcionando algo inusitado. Havia uma vegetação diferente, como a árvore ceiba chodatii, mais conhecida como samu’u, consiste em um caule com formato peculiar de garrafa ou barril. É composto por uma madeira esponjosa que serve para armazenar grandes quantidades de água, permitindo que a árvore floresça mesmo durante a estiagem rigorosa. Foi preciso muita água para garantia a mínima condição dos passageiros, sem passar mal, pois a umidade do ar era escassa.
Além dessas árvores, cactos em abundância faziam parte da paisagem. As rodovias eram empoeiradas, com longas distâncias em linha reta. Cada cidade detinha cerca de 100 quilômetros de distância umas das outras. A gasolina e o diesel batiam os mesmos preços do Brasil.
A alimentação nos restaurantes era mais cara, equivalendo a R$ 70 o prato de comida. Mesmo com um imposto mais barato, cerca 10% para indústria e 5% para produção primária, a dificuldade em ofertar alimentos variados encarece a cesta básica dos moradores.
O que chama atenção é a qualidade da carne. Mesmo que o valor não seja reduzido, ou o baixo imposto não se reflita no valor final, há uma boa qualidade da carne paraguaia. No mesmo hotel em que o grupo ficou na maior parte do tempo, havia a oferta de espeto corrido. A churrasqueira giratória e a carne garantiam a lembrança do churrasco gaúcho. Porém sem sal grosso.
A moeda local é o guarani, bem mais desvalorizada que o real. Para ter uma ideia, R$ 10 equivalem a 10.816 guaranis. Então, pagar qualquer coisa por lá, parecia uma compra milionária.
Visita ao frigorífico Chorti
O grupo chegou ao Frigorífico Chorti e precisou colocar coletes e capacetes para adentrar à fábrica. A história da empresa foi contada aos produtores que acompanharam as formas de manejo da carne. Gráficos faziam a leitura do negócio que vinha em crescimento. O balanço comercial do gado esteve em um dos pontos mais altos da última década. Em 2025, o preço pago na exportação estava mais vantajoso. A empresa, que começou em 1945, faz parte da cooperativa Chortitzer e tem 390 hectares. Em 2019 sofreu um grande incêndio reduzindo drasticamente a capacidade de produção. Ela segue em recuperação ainda deste incidente.
Fábrica de lácteos
Valter Mariani, 78 anos, começou a trabalhar no Paraguai em 1992, quando compradores da empresa de Caaguazú foram buscar máquina para o leite longa vida, com capacidade para 150 mil litros. Ele aceitou e hoje opera uma produção de com 1,8 milhão de litros de leite. O morador de Curitiba fica cerca de dois fora de casa. Hoje participa de um projeto para fabricar mussarela, com capacidade para 600 mil litros em 24 horas.
Bielorusso refugiado no Paraguai
No Hotel Loma Plata Inn, depois de um dia escaldante no deserto, observando as formas de reservar água e o trato com grandes territórios com animais de corte, o descanso à noite, com 30º, foi na piscina do hotel. Foi lá que conhecemos o bielorusso Loim Lerichecheureux. Ele abandonou seu país, a República de Belarus, há 25 anos devido à oposição ao governo e aos conflitos locais.
Durante a conversa, o relata que se estabeleceu na região de Loma Plata, no Paraguai, um local que ele considera uma terra rica e promissora repleta de oportunidades financeiras. Além disso, ele enfatiza que aprecia profundamente a liberdade pessoal e os impostos reduzidos encontrados na América do Sul, contrastando essa realidade com a pesada carga tributária e a falta de perspectivas que observava na Europa.
Ele revela que ele construiu novos laços afetivos ao se envolver com uma mulher paraguaia e demonstra o seu interesse futuro em conhecer o Brasil. “O Paraguai lembra um pouco a Suíça por ser um lugar acolhedor. É quente, mas sou livre”, finaliza.

