Um ano após tragédia com ônibus da UFSM, empresa ainda não iniciou a recuperação da VRS-863

Obra de R$ 14 milhões foi anunciada pelo Daer ainda em 2025

203
Contêineres em trecho que abrigará área de escape servirão de escritório da empresa contratada; trabalhadores devem chegar até o fim do mês / Crédito: Anderson Lopes

No sábado (4/4) completou 1 ano da tragédia que matou sete pessoas e deixou outras 26 feridas na VRS-863, estrada que conecta a RSC-453 (Rota do Sol) ao Centro de imigrante, após um ônibus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) sair de pista e cair em uma ribanceira no km 3,8.

Em maio de 2025, o governo do Estado, através do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), prometeu uma obra de R$ 14 milhões, cuja principal medida seria a construção de uma área de escape na altura da queda do veículo.

O projeto prevê a implantação de uma caixa de retenção com cerca de 100 metros de extensão, 10 metros de largura e uma camada de areia de 50 centímetros de espessura. O dispositivo é utilizado para reduzir a velocidade de veículos em situações de emergência e funciona como um mecanismo de contenção para evitar acidentes mais graves, especialmente em trechos de declive acentuado.

Ainda, o Estado prevê um pacote completo de recuperação da rodovia, a ser concluído até dezembro deste ano. Os trabalhos, sob responsabilidade do Daer, começaram há cerca de 2 meses com obras emergenciais, como serviços iniciais de limpeza, roçada e instalação de placas de alerta.

Agora, a Plano Norte Engenharia, de Carlos Barbosa, atua no projeto básico. A empresa contratada prevê iniciar efetivamente as obras na “Estrada da Morte” até junho deste ano.

São da Plano Norte os contêineres posicionados próximos à área da ribanceira. Eles devem servir de escritório para a empresa durante as obras. Os trabalhadores devem chegar até o fim deste mês e, enquanto isso, a empresa busca alugar casas próximas para alocá-los. 

Tragédia que marcou a região 

O episódio com os alunos do curso técnico de Paisagismo do Colégio Politécnico da UFSM gerou forte comoção regional e levantou novos questionamentos sobre as condições da rodovia, de veículos e de operações de transporte.

De acordo com moradores, esta não foi a única tragédia – ao todo, 30 pessoas já morreram desde a inauguração da rodovia. “Já tive que resgatar vítima sem as pernas e os braços, segurar pessoas trancadas nas ferragens e elas morrerem nos meus braços, pois o socorro demora a chegar”, relata um morador, que preferiu não se identificar.

Outra moradora teme por novos episódios como o do caminhão de combustível que tombou e explodiu nas encostas, espalhando fogo por diversas propriedades em uma cena de terror. 

Os motivos dos acidentes variam, porém, todos resultaram na perda de controle dos veículos no mesmo trecho de declive.

A implantação da área de escape surgiu como resposta à tragédia, mas também levanta questionamentos sobre o tempo de reação do poder público. O ponto onde ocorreu o acidente já era considerado sensível por motoristas que trafegam pela região, caracterizada por trechos íngremes e sinuosos.

Além disso, a rodovia passou por danos estruturais em função das enchentes que atingiram o Vale do Taquari. Parte substancial das terras se moveu diversos metros para perto da rodovia, o que reforçou a necessidade de intervenções mais amplas, incluindo estabilização de encostas e melhorias na infraestrutura.

Investigação segue sem desfecho

Apesar do impacto da tragédia, o caso ainda não teve encaminhamento à Justiça. O inquérito da Polícia Civil foi concluído em maio de 2025, com o indiciamento de três pessoas por homicídio culposo e lesões corporais culposas.

Foram responsabilizados o motorista do ônibus, por suposta falha na condução; o responsável pelo núcleo de transporte da universidade, por questões relacionadas à manutenção; e uma representante da empresa terceirizada, por descumprimento de exigências contratuais.

O material foi encaminhado ao Ministério Público estadual, que solicitou diligências complementares, com a inclusão de novos laudos periciais e análise de documentos internos da universidade. Até o momento, não há prazo para decisão sobre eventual denúncia.

Vítimas ainda enfrentam consequências 

Um ano depois, sobreviventes e familiares ainda lidam com as consequências físicas, emocionais e financeiras do acidente. Conforme reportagem do Diário de Santa Maria, muitos enfrentam dificuldades no acesso a tratamentos médicos, longos períodos de espera por cirurgias e no acompanhamento psicológico contínuo. Parte das vítimas também busca reparação judicial pelos danos sofridos.

A criação de uma associação de vítimas reforça a mobilização por direitos e por maior assistência, além da cobrança por responsabilização dos envolvidos.

A UFSM afirma manter uma rede de atendimento aos atingidos, com suporte em saúde e acompanhamento psicossocial. No entanto, a instituição reconhece as limitações impostas por processos burocráticos e pela dependência do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente em procedimentos mais complexos.

Até o momento, o cenário combina memória, luto e expectativa por respostas. Enquanto as investigações seguem sem conclusão, a promessa de obras no trecho quer evitar ocorrências semelhantes – mas ainda é apenas expectativa. Para familiares e sobreviventes, a sensação ainda é de que a reparação, tanto estrutural quanto judicial, caminha em ritmo lento.

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Escreva seu comentário!
Digite seu nome aqui