Depoimentos de cura e reconstrução marcam encontro regional de AA

Cerca de 300 pessoas de diferentes cidades do estado se reuniram em Canabarro para celebrar os três pilares que sustentam a recuperação: família, espiritualidade e grupo de apoio

Na manhã fria do domingo (3/5), o subsolo do ginásio da comunidade católica Nossa Senhora do Rosário, no Bairro Canabarro, em Teutônia, tornou-se um espaço no qual o calor da rede de apoio e da esperança aqueceu os corações de membros, familiares e amigos de Alcoólicos Anônimos (AA).

Os grupos Passo Certo, de Canabarro, e Amor à Vida, do Bairro Alesgut, realizaram a primeira comemorativa conjunta, que de cara foi um sucesso. Cerca de 300 pessoas de 14 grupos oriundos de cidades como Venâncio Aires, Charqueadas, Feliz, São Leopoldo, Igrejinha, Teutônia e Estrela se encontraram para celebrar as 24h de sobriedade. Só que, para muitos, essas 24h se remetem a várias décadas vividas “um dia de cada vez”.

Um dos organizadores, Roque Hauschild destacou que o propósito central do encontro é fortalecer os laços entre os membros, facilitando o processo de cura. Apontou sua admiração por Íria Trentini, responsável por trazer os grupos de AA e Al-anon para Teutônia, há 44 anos. “Pela coragem que ela teve de buscar ajuda para seu marido [Jacó Trentini] na época. E ele, através da sua vontade de se recuperar, fundou o Alcoólicos Anônimos em Teutônia em 1982”, conta.

Depoimentos marcantes

Antes de comungar em um almoço, os membros de AA ouviram depoimentos, tanto de alcoólatras em reabilitação como familiares.

O primeiro depoimento foi de um alcoólatra em recuperação há cerca de 19 anos. Apresentou a família como a principal força do recuperando, aquela que orienta, ampara e não deixa o indivíduo cair. Ele reconhece o mal que causou à própria família por conta da doença e expressa gratidão pela esposa e filhas, que nunca desistiram dele. Alerta, porém, que mesmo famílias de pessoas com muitos anos de sobriedade ainda carregam mágoas, e que cabe ao recuperando trabalhar diariamente para ser melhor.

Para ele, o passado serve de aprendizado, não de punição, e carregar culpa pela doença impede a recuperação. A escolha de seguir sóbrio, no entanto, é inteiramente individual. “A nossa doença depende exclusivamente de cada um de nós. Muita gente precisa estabilizar a doença. Poucos aceitam. Mas não é impossível”, afirma.

Ele defende a participação nas reuniões de AA como insubstituível. “Só quem vive a mesma doença compreende de verdade o peso de um ‘sim’ e de um ‘não’. Os grupos oferecem uma linguagem comum que nenhum profissional externo consegue replicar”, aponta ele.
Ele critica o fato de a sociedade não ter discernimento para reconhecer o álcool como droga. Cita a oferta de diversos tipos de bebidas alcoólicas em prateleiras de mercado. “Isso é completamente normal, mas não deveria ser. O álcool está detonando as famílias, mas a sociedade convive com ele sem questionar”, lamenta.

Por fim, argumenta que, por a sociedade não enxergar o álcool como droga, o recuperando fica ainda mais vulnerável, cercado de algo socialmente aceito e amplamente disponível. Daí a importância do discernimento individual – saber o que a substância fez com a própria vida e decidir, por conta própria, não voltar a ela. Ele conclui: “As pessoas jogam pedra? Pega essa pedra e sobe. Você consegue olhar melhor lá de cima.”

29 anos de estrada

Outro membro, sóbrio há 29 anos, agradeceu pela insistência de Jacó para que ele procurasse ajuda. “Como é bom quando tem um companheiro do lado para te dar uma mão para te levantar. Olhando para trás, como passou ligeiro para quem achava que não ia poder ficar o fim de semana sem beber. Sou grato aos que estavam na sala quando eu vim, mas também aos que vieram depois de mim. Eles mostraram que eu já estava no caminho certo”, disse.

Reconstrução do alicerce

Emocionado, um dos membros de AA compartilhou um depoimento sobre como o vício quase destruiu seu lar. Com 11 anos de sobriedade, ele relembrou o momento crítico em que sua filha, então com 8 anos, precisou chamar a polícia para ele. “Eu entrava por uma porta e ela saía por outra. Um dia ela não aguentou mais ver o sofrimento da mãe dela”, disse ele.

Buscar a reabilitação lhe trouxe de volta o que ele considera seu bem mais precioso: o afeto da família. “Na clínica, minha filha olhou para mim, me abraçou e disse: ‘Agora eu tenho meu pai de volta’”, relatou.

Também descreveu sua esposa como uma guerreira por não ter desistido dele nos momentos mais sombrios e destacou a mudança de hábitos como estratégia de manutenção: “Por onde eu passava, não passo mais. Onde eu ia, não vou mais, porque aquilo saiu da minha vida, não faz mais parte de mim. Quando queremos lutar pela nossa vida, nós temos que ter hábitos diferentes”, aconselhou ele.

Al-Anon

Os grupos Al-Anon são uma rede de apoio paralela aos Alcoólicos Anônimos, voltada especificamente para os familiares e amigos de pessoas que sofrem com o alcoolismo. As reuniões ocorrem em salas separadas das de AA. Isso permite que os familiares tenham seu próprio espaço de fala, estudo e acolhimento. O objetivo é fazer com que o familiar passe a entender o seu doente e aprenda a lidar com ele da melhor forma.

O grupo foca na mudança da própria família. “O apoio familiar é a chave para abrir o caminho da recuperação”, cita Roque Hauschild. As reuniões auxiliam a lidar com situações do cotidiano em casa e a processar sentimentos negativos, como as mágoas acumuladas ao longo dos anos, que muitas vezes persistem mesmo após o dependente entrar em recuperação. Assim como o AA, o Al-Anon oferece às famílias a oportunidade de experimentar uma nova maneira de viver.

De Venâncio Aires, uma das companheiras afirmou que os alcoólatras não o são porque querem. “Está na pessoa. Eles perdem o controle de suas vidas e nós, também. Mas o Al-Anon trouxe minha vida de volta. Mostrou o amor que devemos ter com as pessoas que tanto nos machucam. Aqui aprendemos como lidar, desabafar e a nos colocarmos como prioridade, porque descobrimos que o valor da nossa vida somos nós mesmos que damos”, cita ela.

A venâncio-airense conta que, mesmo tendo perdido o marido para o álcool, continua no grupo, porque precisa se fortalecer: “É minha segunda família.”

Iria Trentini, precursora do Al-Anon em Teutônia, também contou sua história. Sua primeira participação foi em um grupo em Estrela. “Rezei muito, porque não sabia onde procurar ajuda. A única saída que eu via era a igreja, a Oase. Um dia caiu algo sobre Al-Anon nas mãos, comecei a ler e descobri ter achado o que estava precisando”.

Depois decidiam fundar em Teutônia. Caminhavam 2,5 km a pé cada um sentava em sua sala e não vinha ninguém. Era bom porque estudávamos. Mas depois veio muita gente

Grupos de AA

A importância dos grupos está na identificação mútua dos membros. Isso os ajuda a evitar recaídas, porque permite que o dependente se veja no outro e compreenda o real valor de cada vitória diária e o peso de cada escolha. A unidade gerada por esses encontros facilita o processo de cura, como em uma rede de apoio na qual os companheiros estendem a mão para levantar uns aos outros nos momentos difíceis.

Além do suporte emocional, as reuniões auxiliam na mudança de hábitos e estratégias de vida, pois ensinam o membro a evitar lugares e situações que faziam parte da sua rotina de consumo. O grupo reforça constantemente a filosofia do “só por hoje” e das “24 horas”, o que simplifica a luta contra o vício, ao focar apenas no presente, e torna a sobriedade uma meta renovável a cada manhã. Ouvir os relatos de outros participantes também permite que o indivíduo aprenda com os erros alheios e receba conselhos sobre como lidar com o cotidiano sem o álcool.

Outro fator para prevenir recaídas é o trabalho de gestão emocional e espiritual realizado nas salas, como o “inventário moral” (quarto passo), que ajuda a perdoar mágoas passadas e a ressignificar o sentimento de culpa que, muitas vezes, serve de gatilho para beber.

A frequência regular às reuniões mantém vivo o respeito pela gravidade da doença. Lembra o membro de que a manutenção da sobriedade exige uma “engrenagem” constante entre espiritualidade, família e o apoio do grupo.

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