Separar o lixo dentro de casa é um gesto simples. Ainda assim, boa parte dos resíduos recicláveis chega contaminada aos centros de triagem, misturada com restos de comida, rejeitos e materiais descartados de forma inadequada.
O cenário ajuda a explicar por que Teutônia, assim como o restante do Brasil, ainda enfrenta dificuldades para ampliar os índices de reciclagem e reduzir os impactos ambientais provocados pelo descarte incorreto.
Enquanto o país recicla materiais como latinhas de alumínio, papelão e parte do Polietileno Tereftalato (PET), os números gerais seguem baixos. Dados apontam que apenas cerca de 8% dos resíduos secos brasileiros são efetivamente encaminhados para reciclagem. A maior parte acaba em aterros sanitários, mesmo quando poderia voltar para a cadeia produtiva.
Em Teutônia, a situação reflete tanto os avanços quanto os obstáculos dessa realidade nacional. O município gera aproximadamente 25 toneladas de resíduos por dia, o que chega a cerca de 500 toneladas mensais apenas de lixo domiciliar. O custo do sistema também chama atenção: cerca de R$ 470 mil por mês são destinados ao serviço de coleta, transporte, triagem, transbordo e destinação final dos resíduos. A empresa que recebe os materiais fica em Arroio do Meio.
O subsecretário de Agricultura e Meio Ambiente, Cristiano Steffens, aponta que o problema surge de atitudes simples. “Quando colocamos o lixo na frente de nossas casas, ele não desaparece. Alguém precisa recolher, separar e garantir a destinação correta”, afirma.
Isso ajuda a desmontar uma percepção ainda comum: a de que o problema termina quando o saco é deixado na calçada. Segundo Steffens, o lixo percorre um caminho longo e caro até a destinação definitiva.
Hoje, o município trabalha com diferentes etapas dentro do sistema. A coleta é um serviço, enquanto o transporte até a triagem é outro. Depois, vêm a separação dos materiais, o transbordo do rejeito e, por fim, seu envio ao aterro sanitário. Cada uma dessas fases representa custo financeiro e sérios impactos ambientais.
Conforme Cristiano, toda a coleta em Teutônia era feita sem separação efetiva até poucos anos atrás. O material reciclável e o orgânico eram recolhidos juntos, compactados no mesmo caminhão e enviados para triagem com alto índice de contaminação. Conforme dados levantados pelo Município em 2025, apenas cerca de 4% do material coletado conseguia ser efetivamente separado.
A implantação da coleta seletiva mudou esse cenário. Atualmente, o índice de eficiência na triagem gira entre 11 e 12%, número bem acima da média nacional, mas ainda distante do potencial existente. O edital da nova licitação com o Município prevê que esse índice alcance 18% de eficiência.
O principal desafio continua na separação correta nas residências. Em muitos casos, resíduos recicláveis são descartados junto de restos de alimentos, papel higiênico ou materiais orgânicos, o que inviabiliza o reaproveitamento. “Se eu misturo tudo dentro da mesma lixeira, o caminhão vai recolher tudo junto. Não tem como ele parar em cada residência para fazer a triagem e separar da forma adequada”, explica.
O peso do lixo orgânico
Se a reciclagem dos resíduos secos ainda enfrenta dificuldades, o maior gargalo aparece no orgânico. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, cerca de 45% do lixo urbano brasileiro é formado por restos de comida, cascas, podas e resíduos vegetais.
A realidade de Teutônia é ainda mais expressiva. De acordo com Steffens, entre 70% e 80% do volume gerado diariamente nas residências é composto por resíduos orgânicos.
O problema é que quase tudo acaba misturado ao restante do lixo e segue para aterros. Na prática, materiais que poderiam virar composto orgânico, fertilizantes, biogás ou energia acabam por produzir chorume e metano.
Apesar do enorme potencial, a compostagem ainda é pouco utilizada no país. Em 2023, apenas cerca de 0,4% dos resíduos urbanos brasileiros foram enviados para esse tipo de tratamento.
Steffens defende que pequenas mudanças de hábito poderiam reduzir significativamente o volume encaminhado aos aterros. “Quem tiver possibilidade de fazer compostagem ou aproveitar o resíduo orgânico na própria horta vai ajudar muito. São pequenas ações que podem diminuir os nossos problemas”, sugere.
O Município observa iniciativas nesse sentido. Representantes da secretaria estiveram recentemente em Espumoso para conhecer projetos ligados ao aproveitamento de resíduos orgânicos e possíveis alternativas futuras para Teutônia.
Começa dentro de casa
Há cerca de 20 anos envolvido com reciclagem, Gerson Lütz acompanha de perto as mudanças no comportamento da população. Proprietário da Lütz Reciclagem, localizada às margens da ERS-128 (Via Láctea), ele atua ao lado da esposa e de dois funcionários em um segmento que depende da conscientização.
Segundo ele, o papelão continua como o principal material recebido desde o início das atividades. “É o leite com pão da padaria”, compara, ao explicar que praticamente toda compra envolve papelão.
A empresa movimenta cerca de 40 toneladas mensais apenas desse material. Ainda assim, o empresário afirma que boa parte do que chega poderia ser melhor separado. “Muita gente acha que tudo é reciclável. Às vezes, a pessoa faz uma limpeza em casa e mistura vários tipos de rejeitos, o que também atrapalha”, relata.
O problema vai além da sujeira. Cada material precisa ser separado individualmente, porque segue para compradores diferentes. O papelão não pode ir junto com isopor; alumínio não deve ser misturado com ferro e tipos diferentes de plástico também precisam ser separados.
A contaminação dos materiais também reduz o valor pago pelos recicláveis. Embalagens com restos de comida, gordura ou produtos orgânicos dificultam a triagem e, muitas vezes, acabam descartadas como rejeito.
Por isso, atitudes simples fazem a diferença: lavar embalagens, dobrar caixas de papelão, separar corretamente os resíduos e identificar materiais cortantes ajudam, tanto no reaproveitamento quanto na segurança de quem trabalha no setor. “É preciso ter muita atenção com vidros quebrados, seringas e objetos cortantes que são descartados sem identificação. Mãos humanas mexem nesses materiais”, lembra.
Descarte invisível
Outro problema recorrente em Teutônia envolve o descarte irregular de móveis, entulhos e podas. Sofás, colchões, armários, restos de construção civil e galhos aparecem frequentemente em ruas e terrenos baldios.
De acordo com Steffens, muitos ainda misturam tudo no mesmo descarte: móveis velhos, resíduos de obra e lixo doméstico formam pontos de acúmulo.
Além do impacto visual, a prática gera riscos ambientais e sanitários. Entulhos descartados irregularmente podem obstruir vias, provocar acidentes e contaminar áreas urbanas.
O subsecretário lembra que, por lei, resíduos da construção civil são responsabilidade de quem os gera. “O município não tem obrigação de recolher resíduos de obras. Quem constrói precisa providenciar o contêiner e a destinação correta”, comenta.
Ele também alerta para casos de descarte inadequado de tinta, lavagem de materiais em vias públicas e resíduos jogados diretamente em bocas de lobo. Conforme a situação, a prática pode configurar crime ambiental.
Os problemas aumentam quando os resíduos são deixados dias antes da coleta ou em locais sem proteção. Sacolas rasgadas por animais, lixo espalhado pela chuva e materiais levados pelo vento agravam a situação.
Responsabilidade
Para Steffens, não basta falar apenas em reciclagem sem questionar a quantidade de resíduos produzidos diariamente. “Precisamos repensar o que consumimos e como vamos consumir”, ressalta.
Isso envolve desde o uso excessivo de sacolas plásticas até a compra de produtos com embalagens desnecessárias. Também, passa pela chamada obsolescência programada – estratégia na qual equipamentos e eletrônicos são produzidos para durar menos tempo.
Lütz observa que o comportamento dentro de casa mudou completamente desde que começou a trabalhar com reciclagem. Hoje, praticamente nada é desperdiçado na rotina da família.
A mudança, segundo ele, não depende de grandes ações, mas de consciência diária. Separar corretamente os resíduos, reduzir desperdícios e entender que o lixo continua depois que sai da porta de casa talvez seja o principal desafio ambiental atual.
Em Teutônia, os números mostram que o problema ainda está longe de ser resolvido. Ao mesmo tempo, também revelam que mudanças simples – repetidas diariamente por milhares de pessoas – podem alterar o destino de toneladas de resíduos todos os meses.
Números do lixo em Teutônia
– Consumo médio mensal: 500 toneladas
– Consumo médio diário: 25 toneladas
– Consumo médio diário por pessoa: 700 gramas
– Resíduo domiciliar: 70 a 80% de orgânicos
– Eficiência mensal média na triagem: 11 a 12%
– Contêineres na cidade: 90% estragados ou depredados

