Edimilson Farias leva a experiência do futebol para nova realidade na Europa

Atleta profissional e treinador de base, teutoniense encontrou novos aprendizados e projeta os próximos passos da carreira no “velho continente”.

A relação de Edimilson de Queiroz Farias com o futebol começou cedo, em Teutônia. Formado na base da Juventus, passou pelas equipes competitivas do clube e viveu conquistas importantes, como um título Estadual.

Depois, ampliou a experiência como atleta no futebol amador e profissional, passou pelo Lajeadense e também teve contato com clubes da região, como o Guarani de Venâncio Aires. Paralelamente, encontrou outro caminho dentro do esporte, o de treinador.

Formado em Educação Física, trabalhou com futsal e futebol e passou a enxergar o jogo a partir do banco de reservas. Em 2022, Edimilson chegou a Portugal. A intenção era continuar ligado ao futebol, mas a realidade exigiu uma combinação entre esporte e trabalho.

“Fui para trabalhar e, por consequência, recebi o convite para jogar as ligas distritais – semiprofissionais – especialmente por já ter atuado por lá. Então, consigo manter meu trabalho durante o dia e os treinos à noite”, conta.

Hoje, ele trabalha em uma loja e se desloca cerca de 50 quilômetros para os treinamentos. Na pré-temporada, a rotina chega a quatro sessões semanais, além dos jogos aos domingos.

Estrutura e identidade

Nas ligas distritais portuguesas, encontrou uma realidade diferente da vivida no Rio Grande do Sul. Os campeonatos são integrados ao sistema nacional e permitem que equipes de cidades pequenas avancem para divisões superiores.

Para ele, uma das principais diferenças está no investimento feito na formação. “Eles gostam muito de ter identidade. A maioria dos jogadores permanece nas suas localidades e jogam muitos anos no clube. Claro, aquele que desponta vai para um clube maior”, explica.

A estrutura também aparece nas categorias de base. Edimilson cita o exemplo de Beja, cidade de 30 mil habitantes, onde clubes disputam competições nacionais em categorias como Sub-17 e Sub-19.

No país, também existe uma preocupação maior com a preparação dos atletas. Segundo ele, antes do início da temporada, jogadores de diferentes categorias passam por exames médicos obrigatórios. “No Brasil, há exemplos de campeonatos, até amadores, que o cara joga e, de repente, não sabia que tinha um problema no coração. Eles conseguem evitar isso dentro das competições”, relata.

A experiência em Portugal também modificou a maneira como pensa o trabalho com jovens. Lá, as atividades escolares ocupam boa parte do dia e os treinamentos esportivos acontecem, em muitos casos, no fim da tarde ou à noite.

“A aula começa pela manhã e termina às 4 da tarde. Eles ainda fazem outras atividades, vão para natação, basquete, vôlei e futsal”, relata Farias.

Na avaliação do treinador, esse modelo reforça a ideia de formar primeiro o cidadão e depois o atleta. A mesma lógica aparece no trabalho dentro de campo. Para ele, não adianta exigir uma estrutura tática sofisticada de um grupo que ainda não possui fundamentos técnicos para executá-la.

“Tentamos implementar um modelo com um grupo que não tem condição de fazer. Não é que o cara não saiba, mas não é adequado aplicar aquilo naquele grupo”, diz.

Mudança e escolhas

A mudança de ambiente também alterou seu estilo como atleta. Edimilson sempre foi um lateral mais preocupado com a marcação. Em Portugal, passou a receber mais liberdade para participar da construção ofensiva e ocupar diferentes espaços do campo. “Tive que me tornar um pouco mais ofensivo. Também consegui voltar e jogar mais pelo meio, coisa que não fazia muito”, lembra.

Uma ideia, em especial, chamou sua atenção: a construção ofensiva pode começar no instante em que a equipe recupera a posse de bola. “A fase de construção é quando eu roubo a bola. Não me importa se é na lateral ou pelo meio, passe para frente. Minha equipe tem que estar montada para começar a fase de construção onde ela roubar a bola”, pondera.

A passagem pelo futebol profissional no Rio Grande do Sul deixou marcas importantes. Edimilson recorda das dificuldades financeiras, da distância da família e da insegurança em relação aos pagamentos.

“Quando se está em um clube aqui no estado, passa dificuldade. Não sabe se vai receber no dia 10, 15, 20 ou se não vai ganhar algo. A opção de largar o profissional passa muito por essa dificuldade”, enfatiza o teutoniense.

Na Europa, a combinação entre emprego e futebol passou a oferecer uma estabilidade que ele não encontrou em experiências anteriores. A remuneração recebida pelo clube é mensal e, em seu caso, supera o que recebia em clubes da Divisão de Acesso do Gauchão.

A comparação também serve como alerta para os jovens que sonham em chegar ao profissional. “Na base, ‘tu é o fera’. No profissional é diferente, pois tem que provar que é aquilo todos os dias, treinos e jogos. É uma responsabilidade muito maior”, avalia.

Ainda assim, ele não carrega frustração pela carreira que construiu. “Me sinto realizado, joguei com profissional. Sei que aquilo foi o que eu plantei e pude colher. Isso, para mim, é o suficiente”, agradece Farias.

Futuro

A experiência em Portugal ainda está no começo. Edimilson está no país há 2 anos e pensa em permanecer, consolidar a vida na região e avançar na carreira de treinador. O próximo passo passa pelos cursos da UEFA e pelo retorno às categorias de base.

Hoje, atua no Castrense Futebol Clube, de Castro Verde, equipe que mantém diferentes modalidades e estrutura de formação. O ambiente é uma oportunidade de continuar a aprender e se preparar para os próximos desafios.

A convivência com outra cultura fez ele perceber que não existe apenas uma maneira de organizar o futebol, o trabalho ou a própria vida. A principal lição que carrega para os jovens está justamente aí.

“Não posso esperar que alguém vá fazer por mim. Precisamos pegar os problemas, trabalhar e correr atrás do nosso sonho”, completa.

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