Luciane da Silva, conhecida carinhosamente como “Lu da Gaudore”, transformou um sonho de infância em uma das marcas de aromas e cosméticos mais queridas da região Sul, provando que a verdadeira força de um negócio reside na paixão e na conexão com as pessoas.
Atualmente, a Gaudore ostenta um portfólio robusto com mais de 300 produtos. Com forte atuação no varejo do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, a empresa também marca presença em cidades específicas de São Paulo e Rio de Janeiro. Além das lojas físicas situadas em Encantado, Lajeado e Guaporé, a marca consolidou sua presença nacional através do e-commerce, que opera de forma orgânica há cerca de 7 anos e leva as fragrâncias da indústria para locais onde o varejo físico ainda não chega.
A química que pulsava na infância
A história de Lu com a química começou cedo, inspirada pelo ambiente de trabalho de um profissional químico, onde sua mãe fazia faxina. Enquanto outras meninas sonhavam com bonecas, Lu desejava microscópios e jogos de experiências. No Natal de seus 8 anos, a frustração de ganhar um bebê de brinquedo em vez do tão sonhado jogo de química não apagou seu desejo. Pelo contrário, reforçou a certeza de que seu futuro seria na química cosmética e perfumaria. Após ganhar experiência em outra indústria por 4 anos, ela e seu sócio, Roger, decidiram empreender com apenas R$ 25 mil em uma sala de 40 metros quadrados. Focaram inicialmente em aromas para ambientes, um mercado ainda pouco explorado há 13 anos.
O que a água da enchente não levou
O espírito empreendedor de Lu foi testado ao extremo pelas enchentes de 2023 e 2024. Mesmo com a fábrica construída 3 metros acima da maior cota histórica, a água atingiu níveis devastadores. A perda foi total: “não sobrou uma calculadora”, e o prejuízo ultrapassou R$ 1 milhão. No entanto, foi no meio da lama que o real valor da marca se revelou. O apoio massivo de clientes, fornecedores e da comunidade de Encantado mostrou que a Gaudore era muito mais do que bens materiais. Lu recusou vaquinhas para priorizar as famílias em necessidade e pediu que os clientes apenas comprassem seus produtos. Com isso, transformou a lealdade do público em combustível para a reconstrução. Se a enchente levou produtos, máquinas e tudo que estava no prédio, a força da marca se revelou.
A saudade que se tornou inspiração
No pós-enchente, o que a conformava era a certeza de que todos estavam bem e salvos. Mais tarde, viria um teste ainda mais desafiador para sua resiliência. Além dos desafios financeiros e naturais, Lu enfrentou a dor profunda da perda de Pati, sua melhor amiga, braço direito e esposa de seu sócio, que faleceu em apenas 10 dias devido a uma leucemia. O luto marcou o processo de transição para a nova planta industrial. Lu guarda em sua sala um kit de papelaria que tinha dado de presente para a amiga em seu aniversário, dias antes da notícia avassaladora. A ideia seria usar em seu novo escritório, na nova fábrica, construída distante do risco de enchente, mas Patrícia infelizmente não chegou a trabalhar no local. Essa perda fez Luciane repensar a vida como “um sopro”, levando-a a buscar um equilíbrio maior entre o trabalho, a saúde e a família.
Equilibrando tubos de ensaio e a maternidade
O brilho no olho de Lu é evidente quando ela fala de seu papel como a “Guria do laboratório” nas redes sociais, onde compartilha o dia a dia da produção com autenticidade e entusiasmo. Essa paixão transborda para a vida pessoal, na qual ela equilibra a gestão da indústria com a maternidade de Maria Clara, de 8 anos. Lu recorda que voltou a trabalhar apenas 20 dias após o parto e levava a filha para o laboratório em uma cadeirinha. Hoje, mais madura, afirma que as dificuldades a tornaram destemida: “Depois de perder tudo o que construímos e reconstruir mais fortes ainda, agora eu não tenho mais medo de nada”.

