Aos 28 anos, a empresária Michele Mena lidera hoje um time de mais de 100 mulheres por meio da sua empresa, a Namoré Semijoias. No entanto, o caminho até o showroom de sucesso em Lajeado foi marcado por crises financeiras, o rompimento temporário de laços familiares e a necessidade de se reinventar em meio à incerteza. A história de Michele é um exemplo de como a autorresponsabilidade e a clareza de visão podem transformar um passo no escuro em um negócio sólido e inspirador.
Falta de comunicação e a queda da primeira sociedade
A caminhada empreendedora de Michele começou em 2020, durante a pandemia, logo após ela ser demitida de seu emprego CLT. O que parecia ser uma oportunidade ideal, uma sociedade com sua mãe em uma loja de vestuário, tornou-se o seu maior desafio emocional. Michele relata que, embora fossem grandes amigas, a transição do papel de filha para o de sócia foi extremamente difícil. “A gente acreditou desde o começo que estávamos fadadas ao sucesso, mas estávamos desde o início fadadas ao fracasso”, reflete ela, explicando que as visões de futuro das duas eram opostas.
O conflito de interesses e a falta de comunicação clara foram os estopins para uma crise financeira severa. Michele descreve o relacionamento da época como um cabo de guerra, no qual cada uma puxava para um lado. O impacto foi além do bolso: ao perder a harmonia no trabalho, ela perdeu também o “colo de mãe”, pois o motivo de sua angústia era a própria sócia. A sociedade terminou com dívidas e um afastamento doloroso que durou 4 meses.
Somente o amor tem a força
Após o colapso da primeira empresa, Michele encontrou-se em uma situação desesperadora: sem carro, a pé e com dívidas vultuosas. Foi nesse cenário de escassez que a Namoré começou a ganhar forma. O nome da marca carrega um significado nascido da compreensão de que, naquele momento de crise total, somente o amor poderia segurar um casamento e unir novamente a família. Para ela, era necessário cultivar o amor-próprio para sair da situação em que se encontrava, além do amor pelos laços que realmente importavam. Assim surgiu a Namoré, uma marca que traz o amor embutido em seu próprio nome, como um lembrete constante de suas prioridades.
Casamento forte na dificuldade
Um dos pilares que sustentou Michele durante a reconstrução de sua vida foi seu relacionamento conjugal. Ela enfatiza que, em tempos de crise financeira, o lazer desaparece; não há jantares fora, viagens ou passeios de carro. “Para durar depois de uma dificuldade financeira, o casamento precisa ser muito forte”, afirma. Nesse período, Michele e seu marido contavam apenas um com o outro e com conversas diante da TV. O apoio incondicional dele, incentivando-a a tentar mais uma vez, mesmo quando a esperança era escassa, foi fundamental para que ela não desistisse.
“Você dá um passo e não sabe se o chão estará lá”
A virada de chave ocorreu quando um fornecedor ofereceu a Michele cinco kits de semijoias em consignado. Assim, ela foi construindo uma rede, em busca de representantes revendedoras e gerindo este negócio do empreendedor que lhe estendeu a mão. Com o tempo, percebeu que precisava de autonomia e decidiu passar da revenda para a marca própria. Essa transição foi um dos momentos mais arriscados de sua carreira. Investir capital próprio em peças no “bruto” e buscar parcerias com galvânicas (empresas que realizam o banho de ouro e prata) foi um salto de fé. “Todo passo dentro do empreender, a gente não sabe se o chão vai estar lá”, descreve Michele sobre o risco financeiro e operacional de criar seus próprios processos do zero.
O investimento em qualidade e a garantia de 2 anos tornaram-se os diferenciais que permitiram a fidelização das clientes e a expansão do negócio. Hoje, ela conta com mais de 100 consultoras, que tiveram o mesmo apoio que Michele teve para começar: um kit no consignado para iniciarem seu negócio. São mulheres que trabalham só com isso ou complementam renda, mas contam com toda estrutura que a marca hoje consegue oferecer.
A cadeira do protagonista
Michele é uma defensora ferrenha da autorresponsabilidade. Para ela, culpar terceiros pelo fracasso é o caminho mais curto para a derrota. Ela compartilha um conselho que costuma dar: “Não sente na cadeira de vítima, pois enquanto você está nela, tem alguém protagonizando a história”. Essa mentalidade de assumir as rédeas de suas escolhas e administrar os resultados, sejam eles bons ou ruins, foi o que permitiu que ela transformasse uma dívida “impagável”, se atuasse como CLT, em um faturamento que hoje sustenta centenas de famílias através de suas consultoras.
Inovação e tecnologia
Para gerenciar o crescimento da marca, Michele apostou na tecnologia. Ao ouvir as queixas de suas consultoras, que não tinham tempo para vendas porta a porta, ela desenvolveu um sistema personalizado ao longo de 10 meses: um aplicativo permite que as mulheres administrem suas vendas, acessem o estoque em tempo real e enviem fotos profissionais às clientes sem sair de casa. “O sistema hoje vale por 10 funcionários”, destaca a empresária, referindo-se à eficiência administrativa que a ferramenta trouxe à empresa.
Lições do empreender
Entre as lições que o empreendedorismo lhe ensinou, Michele destaca a importância de saber delegar. No início, ela tentava fazer tudo sozinha para economizar, mas aprendeu que, para crescer, precisava se colocar no papel de líder e confiar tarefas a outras pessoas. Outro aprendizado vital foi a gestão do tempo: hoje, ela mantém um horário comercial rigoroso para preservar sua saúde mental e seu tempo com a família, superando a culpa inicial de ter momentos de lazer.
Com planos de expansão, Michele Mena continua a escrever sua história, incentivando outras mulheres a buscarem sua independência financeira. Sua dica final para quem deseja trilhar caminhos semelhantes é a leitura do livro “Pai Rico, Pai Pobre”, que ajuda a quebrar crenças limitantes sobre dinheiro e sucesso. Para Michele, os desafios são ferramentas de amadurecimento e, vistos de longe, tornam-se pequenos diante da força de quem decide ser protagonista de sua própria vida.

