Previsões de temporais severos e possibilidade de enchentes colocaram o Vale do Taquari em estado de atenção no último fim de semana de agosto. Equipes ficaram de prontidão e competições esportivas e eventos sociais foram cancelados diante da possibilidade de tempestades severas. No entanto, entre sábado (29/8) e domingo, o cenário não se confirmou. A chuva ocorreu de forma esparsa e sem grande volume.
O episódio voltou a levantar uma questão que ganhou ainda mais importância no Vale do Taquari depois das enchentes de 2023, 2024 e das enchentes registradas em julho deste ano. Existe uma impossibilidade de confiar em uma previsão meteorológica que muda muito rápido.
Chuva forte não é sinônimo de enchente
A diferença entre previsão meteorológica e previsão de cheia é especialmente importante no Vale do Taquari. O professor e pesquisador Edelbert Jasper acompanha há 50 anos os fenômenos relacionados às chuvas e às cheias do Rio Taquari e de sua bacia, especialmente em Colinas.
Uma previsão de chuva intensa não significa, necessariamente, que haverá uma grande enchente no Vale. Depende da forma como a precipitação se apresenta em toda a bacia hidrográfica. “A Bacia do Taquari-Antas possui uma extensa área. Assim, uma chuva muito volumosa em determinado ponto pode provocar alagamentos e elevar o nível dos rios naquela região sem necessariamente produzir uma grande enchente no Vale do Taquari”, explica.
Para que ocorra uma cheia de grandes proporções, é necessário que volumes significativos de chuva atinjam uma área mais ampla da bacia, fazendo com que uma grande quantidade de água seja direcionada para o Rio Taquari. “Não é apenas a quantidade de chuva que importa, mas também onde ela ocorre, por quanto tempo e como se distribui pela bacia”, observa.
Julho mostrou incerteza
Se o fim de agosto mostrou o impacto de uma previsão que não se confirmou, o episódio de julho apresentou o risco inverso devido a um cenário que acabou sendo muito mais grave do que a avaliação feita horas antes do evento.
Naquele episódio, a previsão de uma grande cheia não era considerada confirmada. Um dia antes do avanço das águas, o coordenador estadual da Defesa Civil do Vale do Taquari havia reproduzido a informação comunicada pelo governador do estado, Eduardo Leite, amenizado o cenário e descartado a ocorrência de uma enchente de grandes proporções.
Na madrugada daquele mesmo dia, entretanto, o cenário mudou rapidamente. Equipes de resgate precisaram acordar famílias e retirá-las de áreas que seriam atingidas pela elevação das águas.
Inmet responde
Para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a resposta passa por compreender que uma previsão representa o cenário atmosférico mais provável, e não uma certeza sobre o que acontecerá. “Uma previsão pode indicar condições favoráveis à ocorrência de chuva intensa, mas o fenômeno pode ocorrer com menor intensidade, em outra área ou não se concretizar conforme inicialmente previsto”, explica à reportagem, o Inmet.
As projeções para as 24 a 48 horas seguintes apresentam maior confiabilidade quanto à evolução dos sistemas meteorológicos. Ainda assim, o instituto ressalta que nem mesmo nesse intervalo é possível tratar um evento como absolutamente “confirmado” apenas com base na antecedência.
Isso ocorre porque os sistemas atmosféricos podem sofrer alterações de trajetória, intensidade e duração, modificando a localização e os volumes de chuva previstos. Por isso, uma previsão feita com vários dias de antecedência deve ser entendida como uma indicação de tendência e possibilidade. À medida que o evento se aproxima, novas informações permitem atualizar o cenário.
Preparação continua necessária
Jasper avalia que o caminho não está em ignorar os alertas por causa da possibilidade de eles não se confirmarem, mas em compreender o grau de incerteza de cada previsão. Para ele, os alertas são indispensáveis e devem ser levados a sério.
Ao mesmo tempo, é necessário evitar que toda previsão de chuva intensa seja automaticamente transformada em uma previsão de enchente. O Inmet segue a mesma lógica ao recomendar que, em situações de risco, a população acompanhe continuamente as previsões, os avisos emitidos pelos órgãos oficiais e, principalmente, os dados observados em tempo real.

