“O propósito é acolher, desenvolver e garantir um lugar seguro a todos”

A Vértice 83 não preza apenas por competitividade, mas por pessoas, igualdade, participação e respeito.

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Conforme Júlia, o esporte não precisa ser competitivo, mas inclusivo - Crédito: Arquivo Pessoal / Divulgação

A Academia Vértice 83, de Estrela, nasceu de uma vontade comum entre três sócios e rapidamente se transformou em um espaço que vai além de simples treinamentos.

Júlia Friedrich Thomé, Paloma Schilling e Gustavo Mädke apostaram em um projeto que une Jiu-Jitsu, formação de respeito, caráter, acolhimento e pertencimento.

Quase 2 anos depois, a academia reúne cerca de 80 alunos e se consolida como uma referência nas artes marciais no Vale do Taquari.

A proposta surgiu de uma necessidade pessoal dos próprios fundadores. A ideia era criar um ambiente onde se sentissem respeitados e alinhados com os valores que acreditam dentro do esporte.

Tudo aconteceu de forma rápida. Em menos de 2 meses, o planejamento virou realidade. “Abrimos a Vértice por um desejo de ter um lugar onde pudéssemos realmente estar à vontade, seguros e que trouxesse temas dos quais acreditávamos”, relata Júlia.

Um dos diferenciais está na liderança feminina. Júlia e Paloma não apenas administram o espaço ao lado de Gustavo, mas também ajudam a transformar a percepção sobre o lugar das mulheres nas artes marciais.

A criação de turmas exclusivas femininas e aulas de defesa pessoal partiu justamente da leitura de que muitas mulheres deixam de começar por não se sentirem confortáveis em ambientes predominantemente masculinos.

Professora de Educação Física, Paloma destaca que o ensino é parte central do projeto. “Prezamos muito por esse tema. Inclusive, o nosso carro-chefe é esse: crianças, mulheres e manter um ambiente confortável”, afirma.

De acordo com ela, a proposta dá resultado e a turma feminina cresce de forma consistente, o que exemplifica como o acolhimento é determinante para a permanência.

Infância, inclusão e disciplina

Se o protagonismo feminino é uma marca, os mais novos são o coração da academia. Desde o início, a Vértice 83 investe em turmas infantis e, com o tempo, ampliou o trabalho para incluir também crianças atípicas.

A iniciativa surgiu da convicção dos sócios de que o esporte pode ser uma ferramenta de inclusão. Júlia, em especial, aponta que a inspiração para o trabalho com a inclusão vem de experiências da época de atleta.

Ela teve um professor que levava os alunos para vivências diferentes, como visitas à Apae de Estrela e atividades com atletas cadeirantes. “Isso mexeu muito mais comigo do que as medalhas que recebemos”, recorda.

Hoje, a academia mantém parcerias com profissionais da área da saúde, que indicam alunos para a prática. No tatame, o foco vai além da técnica. O Jiu-Jitsu é utilizado como instrumento para ensinar disciplina, respeito, hierarquia e controle emocional. “Eles lidam com frustrações o tempo inteiro, aprendem a resolver problemas e a manter a calma, qualquer que seja a situação”, explica Júlia.

Ela reforça que o esporte não incentiva a agressividade, como se pensava no passado. É justamente o contrário. “Ensinamos a se defender, impor limites e saber dizer não. Repetimos e deixamos bem claro que, quando eles tiverem algum problema, devem buscar auxílio e não tomar a iniciativa de atacar alguém”, completa.

Esse processo também se estende para fora da academia. Desde a abertura, os alunos participam de ações em instituições e projetos sociais da cidade para viver valores como empatia e respeito na prática.

Para Júlia, o maior indicador de sucesso é ver as crianças ativas e participantes dessas atividades, com vontade e entusiasmo.

“Eles vão felizes para as aulas. Isso, para mim, é a definição de que chegamos onde queríamos. Temos alunos de 3 a 62 anos, demonstramos que o Jiu é pra todos e precisa ser inserido cada vez mais na sociedade”, afirma.

Sem pressão por pódios

Embora participe de competições eventuais, a academia não trabalha o alto rendimento como obrigação e necessidade. A Vértice incentiva os alunos que desejam competir, mas não impõe esse caminho como requisito.

A proposta é respeitar os objetivos individuais, seja para quem busca desempenho esportivo, qualidade de vida ou uma simples atividade.

Segundo Júlia, a realidade da região também influencia, tendo em vista que a maioria dos campeonatos ocorre em Porto Alegre e arredores, o que eleva os custos. Por isso, a decisão é deixar a escolha nas mãos dos alunos e famílias.

Ela observa ainda que o crescimento das artes marciais está diretamente ligado à mudança de percepção sobre o esporte. Para ela, o Jiu-Jitsu contribui para formar pessoas mais equilibradas e respeitosas com diferentes realidades.

Nesse sentido, a introdução precoce das crianças na modalidade faz diferença. O primeiro contato já envolve disciplina, respeito e hierarquia, e os resultados aparecem em pouco tempo, inclusive com retorno das escolas.

“Ouvimos muito que um determinado aluno dava trabalho na escola ou em casa antes de entrar na academia e que, agora, está muito melhor. É gratificante, pois mostra que nosso trabalho e métodos funcionam”, relata Júlia.

Segundo ela, atitudes simples, como cumprimentar e olhar nos olhos, refletem esse aprendizado e são levadas para a vida. Com o tempo, a compreensão de que o Jiu-Jitsu vai além da atividade física aumentou a procura, especialmente por parte dos pais, que hoje têm mais flexibilidade para inserir os filhos no esporte.

Uma academia feita em parceria

A história da Vértice 83 também é marcada pela conexão entre seus fundadores. Júlia e Paloma se conheceram por meio do Jiu-Jitsu, após serem incentivadas a treinar juntas por terem o mesmo peso. O que começou como um treino em comum rapidamente evoluiu para amizade.

Fora do tatame, um detalhe curioso ajudou a fortalecer esse vínculo: a troca de figurinhas da Copa do Mundo. A aproximação, que começou de forma despretensiosa, revelou afinidades e uma visão de mundo semelhante. “Começamos a conversar mais, vimos que pensávamos parecido e tínhamos muitos interesses em comum”, lembra Júlia.

Foi a partir dessa conexão que surgiu a ideia de abrir a academia. O convite partiu de Paloma e a resposta foi imediata. “Vamos”, disseram. No dia seguinte, o plano já era realidade. Em pouco tempo, o projeto ganhou forma e virou negócio.

Júlia conta ainda que foi a última dos três sócios a entrar no Jiu-Jitsu, motivada pelo marido, Gustavo. No início, houve insegurança, mas o contato com o esporte mudou sua relação com a prática e com ela mesma. Hoje, se diz realizada.

“Quando se trabalha com o que ama, não é trabalho. Amo o que faço e, com certeza, vivo feliz por conta disso”, resume.

A Vértice 83 construiu um espaço de convivência, formação e confiança em Estrela. Com mulheres à frente, crianças como base do projeto, ações de inclusão e histórias que começam com um simples álbum de figurinhas, a academia mostra que o Jiu-Jitsu pode ser muito mais do que competição, pois é um caminho para formar pessoas.

Assista à entrevista

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