Gramado Summit expõe tensão entre Inteligência Artificial, mercado e social

Palestras abordaram desde a transformação do marketing digital com inteligência artificial até disputas geopolíticas por terras raras e críticas ao distanciamento social da inovação

Por Anderson Lopes e Thiago Maurique

A inteligência artificial foi um dos temas mais debatidos durante o Gramado Summit 2026, mas não apenas sob a ótica do entusiasmo tecnológico. Entre alertas sobre o futuro das marcas, disputas globais por infraestrutura estratégica e questionamentos sobre quem realmente se beneficia da inovação, o evento revelou uma visão mais complexa e menos otimista sobre a nova economia digital.

Em diferentes palcos, especialistas apontaram que a corrida pela IA já provoca mudanças profundas no consumo de informação, na indústria e até nas relações sociais.

O especialista em marketing digital e principal executivo do Pinterest no Brasil, Rogério Nicolai, afirmou que o SEO tradicional começa a perder espaço para o chamado AEO (Agent Engine Optimization), modelo voltado à otimização de conteúdos para agentes de IA como ChatGPT e o modo inteligente do Google.

De acordo com ele, o comportamento de busca do consumidor mudou radicalmente em 12 meses. “Mais de 50% das pessoas que fazem uma pesquisa hoje já não clicam nos links orgânicos. Elas obtêm a resposta direto no modo AI do Google ou no ChatGPT e encerram a exploração por ali”, alertou.

Nicolai explica que o impacto é devastador para quem construiu estratégias inteiras baseadas no SEO tradicional. “Aquele clique que acontecia lá na frente não acontece mais. As marcas, os veículos, os publishers, todos que trabalhavam com SEO precisam agora trabalhar também com AEO, que é a otimização para agentes”, disse.

O conceito de AEO visa a uma nova disciplina que vai estruturar o conteúdo para que ele seja lido e recomendado por agentes de IA, em vez de depender da lista de links azuis do Google. O palestrante foi cauteloso: “Dias contados ainda não, está muito distante. Mas a mudança é inevitável.”

O entusiasmo com a tecnologia, no entanto, veio acompanhado de um alerta sobre os riscos. Nicolai dedicou parte da fala àquilo que chamou de “pasteurização das marcas”. “A IA tem que ser utilizada. O grande problema é quando ela não é bem gerenciada. As marcas começam a seguir todas o mesmo caminho, os textos se tornam poeticamente lindos, mas longos, extensos e ninguém quer ler”, destacou.


Rogério Nicolai abordou a rápida transformação provocada pela IA no comportamento dos consumidores / Crédito: Anderson Lopes

A face oculta da IA

Se Nicolai falou de algoritmos e comportamento do consumidor, o cientista e comunicador Sérgio Sacani abordou a infraestrutura por trás da tecnologia. Em uma palestra que mesclou história, geopolítica e ciência de ponta, Sacani traçou um panorama dos modelos de linguagem usados no dia a dia.

Destacou o consumo energético dos data centers. “Hoje, estamos batendo 1,7 trilhão de parâmetros treinados no GPT-4. Para treinar isso, você precisa de muitas máquinas e muita água para resfriar tudo isso”, disse.

Ao abordar as terras raras, Sacani acendeu o alerta. O Brasil, dono da segunda maior reserva do mundo, com 23 milhões de toneladas, atrás apenas da China, com 44 milhões, não possui capacidade de refino. “A terra rara na rocha vale cerca de 5 dólares a tonelada. Quando refinada, chega a 500 dólares. E 90% do refino do planeta é da China”, reforçou ele.

Para Sacani, a dependência é estratégica e perigosa. Diante disso, o palestrante fez um apelo direto ao público: “Pergunte para o seu político qual é o plano para as terras raras do Brasil. Tem eleição este ano. Eu duvido que algum deles saiba o que é terras raras”, alertou o cientista.


O papel das chamadas terras raras e a infraestrutura tecnológica foram temas da palestra de Sérgio Sacani / Crédito: Anderson Lopes

A base da sociedade

Em contraponto, a designer e jornalista Carol Anchieta, gestora do projeto Design Ativista, provocou o público ao questionar se a inovação debatida nos grandes eventos realmente alcança a base da sociedade ou apenas reforça desigualdades já existentes.

A palestrante representava a Mídia Ninja, descrita por ela como “uma floresta ativista” onde diversos projetos, como Planeta Ella (feminismo), Poderes Pretos (questões raciais) e Ninja Esporte Clube são afluentes de um mesmo rio. “Inovação social é mais do que solução. É escuta, afeto e reconstrução de vínculos”, afirmou.

Para ela, a inovação que não chega na base da pirâmide, pois gera lucro apenas para o topo. Ao ser perguntada sobre moda e sustentabilidade, Carol disse: “Muita inovação sustentável roubou conhecimento indígena, produção amazônica. A senhorinha que faz a bolsa de tecido que sobra ganha R$ 20, enquanto a marca ganha os louros.”

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