Problemas no abastecimento e liminar judicial ampliam pressão sobre a Aegea/Corsan

Moradores relatam odor, coloração escura na água, rompimentos frequentes na rede envelhecida e alta pressão. Situação tomou a esfera jurídica em Lajeado e Venâncio Aires

101
Legenda: Transferência da gestão do Estado para a Aegea ocorreu sob a promessa de ampliar investimentos e eficiência / Crédito: Anderson Lopes

Problemas na qualidade da água, interrupções no abastecimento e processos colocaram novamente a Corsan/Aegea no centro das críticas nos Vales do Taquari e Rio Pardo. As queixas reacendem o debate sobre a qualidade dos serviços após a privatização da companhia, concluída em 2023 pelo governo de Eduardo Leite.

Em Lajeado, moradores de bairros como São Cristóvão, Universitário, Morro 25 e Jardim do Cedro relatam água com forte odor, coloração escura e gosto alterado, além de faltas frequentes de abastecimento. Também há registros de rompimentos de tubulações nas ruas e de danos em imóveis, atribuídos, segundo moradores, à pressão elevada na rede.

No Bairro Moinhos, uma liminar concedida em janeiro de 2026 atendeu a pedido do Ministério Público e determinou a suspensão da cobrança da taxa de esgoto, sob pena de multa diária de R$ 2 mil. A Promotoria ingressou com Ação Civil Pública após receber relatos de aumento superior a 120% nas contas de água. Há faturas que teriam chegado a R$ 800.

De acordo com a ação, a Estação de Tratamento de Esgoto do bairro, construída há mais de 10 anos, teria menos de 10% das residências efetivamente conectadas à rede. O MP também apontou casos em que o esgoto não poderia escoar por limitações do terreno e, mesmo assim, havia cobrança da tarifa. A Promotoria sustenta possível enriquecimento sem causa. As contas emitidas em fevereiro já chegaram sem a tarifa de esgoto.

Há duas semanas, no Bairro Americano, o estabelecimento Volúpia Bar e Espaço enfrentou situação semelhante. As contas elevaram abruptamente e passaram a atingir os R$ 1.500, não condizente com a lógica de consumo local. Após ações jurídicas, a companhia religou o fornecimento, mas as contas seguem na justiça.

Crédito: Anderson Lopes

Problemas persistentes em Mariante

No Distrito de Mariante, em Venâncio Aires, moradores relatam problemas na qualidade da água há cerca de 6 meses. Segundo a comunidade, a água apresenta coloração escura e mau cheiro, o que dificulta o consumo direto e o uso em tarefas domésticas, como lavar roupas claras. Há, ainda, registros de danos a equipamentos, como chuveiros elétricos.

Os problemas persistem mesmo após intervenções operacionais realizadas pela companhia, conforme os moradores. Em manifestação pública, integrantes da comunidade chegaram a convidar representantes da empresa a consumirem a água distribuída na localidade.
Outro foco de reclamações envolve a pressão do sistema de abastecimento. Moradores afirmam que ajustes na rede teriam provocado rompimentos frequentes de tubulações, causando alagamentos em vias públicas e, em alguns casos, em residências. Também há relatos de danos em instalações internas, especialmente em imóveis com encanamentos antigos.

A suspeita levantada pela comunidade é de que a pressão teria sido elevada para compensar falhas estruturais ou oscilações no fornecimento. A companhia nega aumento deliberado e generalizado. A discussão inclui ainda os critérios adotados para eventual indenização por prejuízos materiais decorrentes de rompimentos na rede pública.

Fiscalização e modelo de concessão

A Ação Civil Pública também cita o Município de Lajeado como corresponsável por suposta omissão na fiscalização do contrato de concessão. A privatização da Corsan foi conduzida em 2023 pelo governo estadual, sob o argumento de ampliar investimentos, modernizar a estrutura e cumprir as metas de universalização previstas no novo Marco do Saneamento. Desde a transferência do controle à iniciativa privada, o discurso oficial tem sido o de aumento da eficiência e expansão da cobertura.

Diante das queixas sobre qualidade da água, falhas operacionais e cobranças contestadas, moradores e lideranças comunitárias questionam se as promessas de melhoria têm se refletido na prática. O desfecho da ação judicial e as respostas técnicas aos problemas apontados devem influenciar os próximos capítulos do debate sobre saneamento na região.

Nota da companhia

Procurada, a Aegea/Corsan informou que toda a água tratada e distribuída em Lajeado e Venâncio Aires atende aos padrões de qualidade e potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Segundo a empresa, são realizadas diariamente cerca de 500 análises, que verificam mais de 100 parâmetros.

A companhia afirma que alterações pontuais de cor e odor podem ocorrer após intervenções operacionais ou reparos emergenciais em redes rompidas. Sobre a liminar referente ao Bairro Moinhos, informou que analisa o teor da decisão e que cumprirá integralmente a determinação da Justiça.

Em relação às reclamações sobre pressão, a Corsan sustenta que não houve aumento deliberado e generalizado na rede de Lajeado. De acordo com a empresa, eventuais ajustes são pontuais, definidos com base em dados técnicos e monitorados por telemetria em tempo real, com o objetivo de estabilizar o abastecimento e reduzir perdas.

A companhia também informou que as ocorrências registradas em bairros de Lajeado são pontuais e, em sua maioria, relacionadas a manutenções programadas ou emergenciais. Nega reestruturação que implique interrupções sistemáticas no fornecimento.

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Escreva seu comentário!
Digite seu nome aqui