Manejo do solo é decisivo para a produtividade na fruticultura

Pesquisador Gustavo Brunetto lança e-book com resultados de mais de duas décadas de estudos

Mais de 20 anos de pesquisas sobre fertilidade do solo, adubação e nutrição de plantas foram reunidos pelo doutor em Ciência do Solo, Gustavo Brunetto, no e-book Manejo da Fertilidade do Solo e Nutrição de Pessegueiros.

A obra, disponibilizada gratuitamente em formato digital, busca aproximar o conhecimento científico do cotidiano de produtores, técnicos e estudantes, com recomendações práticas para aumentar a produtividade, reduzir custos e melhorar a qualidade dos frutos.

Em entrevista para a Rádio Popular, Brunetto afirma que o Rio Grande do Sul segue um dos principais polos da fruticultura brasileira. Segundo ele, o estado concentra grande parte da produção nacional de pêssegos, especialmente na Serra Gaúcha e na região de Pelotas.

Mas, apesar da relevância econômica da atividade, havia uma carência de informações sistematizadas sobre o manejo da fertilidade do solo, especificamente para a cultura do pessegueiro. “Nós já havíamos publicado muitos trabalhos científicos no Brasil e no exterior, mas era importante transformar esses resultados em um material com linguagem mais prática, que pudesse chegar ao campo”, afirma o pesquisador.

O livro reúne resultados obtidos em pesquisas conduzidas ao longo de duas décadas no RS, além de contribuições de pesquisadores de Santa Catarina. O conteúdo aborda critérios para recomendação de adubação, uso de calcário e gesso agrícola, procedimentos de coleta de solo e análise foliar, além de estratégias para otimizar a disponibilidade de nutrientes nos pomares.

Nutrição equilibrada

Segundo Brunetto, o manejo adequado da fertilidade do solo é um dos fatores que mais influenciam a rentabilidade da atividade. Ele explica que os fertilizantes representam uma parcela significativa dos custos de produção, podendo chegar a 30% do total investido em um pomar.

“O produtor precisa utilizar fertilizantes de forma racional. Não basta aplicar mais insumos, é preciso saber quando aplicar e em qual quantidade. Isso reduz custos e melhora a eficiência do sistema produtivo”, ressalta ele.

Além da produtividade, a nutrição equilibrada também impacta diretamente a qualidade dos frutos. Características como coloração, sabor, conservação pós-colheita e aceitação pelo consumidor podem ser afetadas por deficiências ou excessos de nutrientes. “Se houver desequilíbrio nutricional, a fruta pode perder valor comercial e comprometer a renda do produtor”, aponta.

Alternativa econômica

Brunetto também defendeu o fortalecimento da fruticultura como estratégia de desenvolvimento regional, especialmente em áreas de pequenas propriedades, realidade predominante no Vale do Taquari. Segundo ele, culturas de maior valor agregado permitem aumento do retorno econômico por hectare e se tornam uma alternativa importante para propriedades familiares.

Conforme o pesquisador, em regiões onde as áreas são pequenas, o produtor precisa ser altamente eficiente. “A fruticultura oferece uma oportunidade interessante, porque gera renda elevada em espaços reduzidos e ainda movimenta toda a economia local”, destaca ele.

Brunetto também aponta a necessidade de ampliar a agregação de valor à produção, seja por meio da industrialização, com a fabricação de geleias, vinhos e derivados, seja pela valorização de produtos diferenciados. Ele cita ainda o crescimento de novas cadeias produtivas, como a oliveira e a nogueira-pecã, mas alerta que a expansão dessas culturas exige investimentos em pesquisa.

Para Gustavo, a região não pode simplesmente copiar modelos europeus. “Os solos brasileiros apresentam limitações, como elevada acidez, e precisamos desenvolver tecnologias adaptadas à nossa realidade”, explica o doutor em Ciência do Solo.

Mudanças climáticas

O impacto das mudanças climáticas sobre a fruticultura também foi debatido na entrevista. Brunetto ressalta que estudos já demonstram alterações em variáveis climáticas importantes, como temperatura e precipitação, capazes de influenciar diretamente a produção de frutas.

“A redução das horas de frio, por exemplo, pode afetar culturas como a macieira, enquanto oscilações na disponibilidade hídrica impactam oliveiras, citros e pessegueiros”, alega. Segundo ele, mais do que apenas diagnosticar os problemas, é preciso apresentar soluções.

“O produtor quer saber quais caminhos seguir para continuar produzindo com segurança diante dessas mudanças”, afirma. Os efeitos das enchentes de 2024 sobre os sistemas produtivos do estado são exemplo das consequências das mudanças climáticas sobre a produção rural.

Para ele, o grande volume de chuva provocou intensa erosão, perda de nutrientes, remoção de matéria orgânica e deposição de sedimentos em diversas áreas agrícolas. “Em alguns locais houve perda de até 1 metro de solo. Em outros, ocorreu deposição de areia e sedimentos, criando ambientes extremamente heterogêneos”, relata.

Conforme o autor, pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) indicam práticas que contribuem para aumentar a infiltração da água no solo e reduzir perdas causadas por eventos climáticos extremos. Entre elas estão cobertura vegetal permanente, uso de resíduos orgânicos e implantação de terraços agrícolas.

Apesar dos avanços obtidos na Serra Gaúcha, Brunetto afirma que ainda faltam recursos para ampliar estudos em outras regiões, como o Vale do Taquari. “Precisamos continuar investindo em pesquisa para recuperar esses solos e garantir sistemas produtivos mais resilientes e sustentáveis”, conclui o pesquisador.

Assista à entrevista

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