Durante décadas, quando Esperança de Fazenda Lohmann e Juventude de Colinas se encontravam em campo, o clima era de disputa e arquibancadas divididas. Muito próximas geograficamente, as duas comunidades transformavam cada confronto em mais um capítulo de uma rivalidade marcante no futebol da região.
No entanto, hoje o cenário é diferente. O que antes era antagonismo deu lugar a uma relação de proximidade entre dirigentes, atletas e torcedores – uma parceria que mostra como o futebol do interior também pode unir comunidades.
Fundado em 28 de fevereiro de 1974, o Juventude surgiu em meio a um cenário de clubes fortes no amador. Naquele período, equipes como Rui Barbosa, Esperança e Aimoré dominavam o futebol local, e muitos jogadores que não encontravam espaço nessas equipes acabaram como base do novo clube.
“Costumávamos dizer que o Juventude começou com a ‘sobra’ dos outros times, atletas que não tinham vez nos clubes maiores da região e pararam aqui”, explica o presidente do Juventude, Giovan Dannebrock.
Com o passar dos anos, os confrontos com o Esperança se tornaram cada vez mais marcantes. Na época em que Colinas ainda pertencia a Roca Sales, as comunidades eram praticamente vizinhas, o que tornava os jogos ainda mais intensos.
Um dos episódios lembrados até hoje ocorreu em 1987, quando o Juventude conquistou o primeiro Campeonato Municipal de Roca Sales, justamente diante do Esperança.
Quem viveu aquela época recorda que os conflitos eram fortes também fora de campo. “Nos tempos de guri, a rivalidade era muito grande. O pessoal se provocava bastante e isso, às vezes, acabava em discussão ou confusão depois do jogo”, lembra Dannebrock.
Com o tempo, a própria convivência nas comunidades aproximou as pessoas e mudou a forma como a disputa é encarada. Jogadores começaram a vestir as duas camisetas em momentos diferentes, dirigentes se tornaram amigos e as novas gerações passaram a enxergar as partidas com outros olhares.
O presidente do Juventude é um exemplo disso. Em uma fase de inatividade do clube, ele chegou a defender a cor verde do Esperança. “Joguei, fui campeão e até presidente por um período”, comenta.
Esse tipo de situação ajudou a diminuir a “inimizade” que marcou os primeiros anos das equipes. “A minha geração já começou a mudar um pouco isso. Sempre tivemos muitos amigos lá na Fazenda Lohmann e não fazia mais sentido continuar com essa rixa”, reflete Giovan.
E foi justamente essa convivência que ajudou a transformar uma rivalidade histórica em uma parceria que promete seguir por anos.


União e raízes
Nos dias atuais, a relação entre os clubes é de cooperação. O presidente do Esperança, Rodrigo Alex “Borrachinha” Silva, destaca que a parceria surgiu de forma natural ao longo das décadas.
“Antigamente, era uma rivalidade muito forte, mas hoje nos damos muito bem. O futebol não vai para frente se não nos ajudarmos”, avalia Rodrigo.
Essa aproximação se tornou ainda mais evidente nas temporadas recentes. O Esperança optou por não disputar o Campeonato Municipal de Roca Sales em 2026 para reorganizar a estrutura do clube, que passa por melhorias.
Entre os investimentos está a reforma completa do vestiário, com um aporte de cerca de R$ 50 mil. Enquanto isso, alguns integrantes da diretoria e atletas do Esperança passaram a vestir também a camiseta do Juventude em competições regionais, como é o caso do Campeonato Municipal de Imigrante.
Cinco integrantes da diretoria do Esperança ajudam a equipe de Colinas. “Temos representantes no plantel, fora outros guris que moram ou trabalham em Colinas”, conta Borrachinha.
A relação entre os clubes também passa por histórias familiares. Rodrigo lembra que sua ligação com o Juventude vem de gerações anteriores, especialmente com seu avô.
“Ele ajudou a fundar o Juventude. Colaborava com estrutura, arquibancada e tudo que um clube amador precisa. É engraçado, a família ficou ligada aos times”, relata.
Mesmo assim, a ligação com o Esperança sempre foi mais forte. Criado dentro do campo da Fazenda Lohmann, Borrachinha cresceu junto à rotina dos jogos e do clube.
“Nasci dentro do Esperança. Meu pai levava o pessoal de caminhão para os jogos e eu estava sempre junto. Estou nesse ambiente desde guri, é um amor verdadeiro e que vem de casa”, aponta.
Essa tradição de família também se reflete na própria diretoria. Muitos dos atuais dirigentes cresceram com o clube e hoje continuam os trabalhos iniciados pelas gerações anteriores, na esperança de repetir os feitos do passado.



Giovan guarda
lembranças da época de guri,
quando jogava pelo
Juventude e foi
destaque da Folha Popular
Rodrigo Alex Silva
“Borrachinha”se criou
e cresceu
no Esperança de
Fazenda Lohmann

Tradição e glórias
No campo, as histórias das equipes também são marcadas por conquistas importantes. O Esperança soma nove títulos municipais entre os Titulares e cinco na categoria Aspirantes, além de conquistas regionais, como a Copa Integração de 1994 e a Série Prata da Copa Assine de 2007.
Já o Juventude construiu uma trajetória sólida ao longo de mais de cinco décadas, com títulos como o Campeonato Municipal de Roca Sales de 1987, a Segunda Divisão de Estrela em 1990 e quatro conquistas do Municipal de Colinas.
Para Dannebrock, a relação atual mostra como o futebol amador evoluiu ao longo do tempo. “Hoje, existe amizade. Nos ajudamos, trocamos jogadores e dialogamos muito. Aquela rivalidade antiga praticamente ficou no passado”, afirma.
Entre lembranças de confrontos históricos e narrativas que atravessam gerações, Esperança e Juventude escrevem novas páginas no “livro” do futebol regional.
É um capítulo no qual a antiga rivalidade cede espaço para algo que, no interior, costuma ser ainda mais forte que a disputa: o espírito de união entre comunidades que aprenderam a transformar adversários em parceiros.

Crédito: Arquivo Pessoal


Crédito: Gabriel Machado / Especial FP

